João Paulo II em França de 19 a 22, 5ª a Domingo

Vinho novo em odres velhos?

De quinta a Domingo o Papa João Paulo II esteve em França, na sua 74ª Viagem Apostólica e na celebração do XVI centenário da morte de S. Martinho e no XV centenário do baptismo de Clóvis, rei dos Francos.

Tratou-se de um encontro da Igreja com a Europa cristã, que agora parece estar em fase de progressivo caminho para a descrença. Apesar das multidões que acorreram para escutar o Papa, os meios de comunicação resolveram dar todo o relevo a fenómenos marginais de protesto. Algumas imagens divulgadas demonstraram mesmo que, por desespero de causa ou por oportunismo para fazer passar melhor a mensagem, a grosseria chegou à ribalta. Quem avaliasse o que é a França pelas mensagens que daí partiram nestes dias bem poderia dizer que não adiantaria deitar o vinho novo do Evangelho em velhos odres que já não podem aguentá-lo, pois parecem rebentar por todos os lados.

Bem outra, e mais inteligente, foi a reacção do povo de Tours, Saint-Laurent-sur-Sèvre, Sante-Anne d'Auray e Reims, os lugares que acolheram o Papa nesta sua quinta visita à França. O povo acorreu em massa para aplaudir «o Bispo de Roma, sucessor de Pedro» que foi ao encontro dos seus irmãos e irmãs «para lhes reforçar a Fé», apesar das insinuações de que tal não aconteceria.

Nos oito discursos, três homilias e uma alocução na oração do Angelus no fim da grande celebração eucarística em Reims, pôde ouvir-se um Papa a quem as forças físicas vão faltando mas que não perdeu o entusiasmo nem vacila nas suas convicções. Como anunciara, o Papa lançou novo apelo à solidariedade com todos os que sofrem no corpo e no coração, aqueles cuja vida é precária ou está ameaçada. Mas tais apelos não agradam em lugares onde um neoliberalismo galopante quer justificar aumento do desemprego, uma maior distância entre ricos e pobres e não admite o perdão das dívidas ao terceiro mundo e outras formas de justiça social que este Papa anuncia para o Jubileu do Ano 2000.

Acolhido pelo Presidente da República Jacques Chirac, o Papa começou por prestar homenagem a S. Martinho, evangelizador do século IV, nascido na Hungria e depois bispo de Tours, e lançou depois alguns desafios à sociedade francesa em tempos de crise económica e de crescentes bolsas de pobreza, como disse o Papa: «Penso em primeiro lugar naqueles que vivem numa situação de pobreza, de exclusão, de precaridade e de doença».

Na 5ª-feira ao fim da tarde, o Papa visitou o túmulo de Louis-Marie Grignion de Monfort, missionário do século XVII que o Papa conhece desde os tempos de estudante. E lembrou as guerras civis do tempo da Revolução Francesa quando homens e mulheres tiveram a coragem de «permanecerem fiéis à Igreja de Cristo», reagindo contra tentativas de ruptura com a Igreja universal.

Divorciados

No dia seguinte, João Paulo II foi para Sainte-Anne-D'Auray, na Bretanha, onde apresentou a doutrina da Familiaris Consortio sobre o acolhimento que merecem na Igreja os separados, divorciados e mesmo os que voltaram a casar. Como baptizados, eles podem e devem participar na vida da Igreja, e muito mais nestes tempos de tantas dificuldades para a família. E o Papa manifestou ainda a sua compreensão pelas inquietações que os casais separados sentem em relação aos filhos e sobre a dificuldade de hoje educar nos valores essenciais da indissolubilidade do casamento e do respeito pela vida.

Valorizou ainda as relações carnais na vida conjugal que são «o sinal e a expressão da comunhão entre pessoas»: «As manifestações de ternura e a linguagem do corpo exprimem o pacto conjugal e representam o mistério da aliança e o da união de Cristo com a Igreja».

Falando a jovens casais e seus filhos, o Papa exortou-os a saberem mostrar ao mundo «a beleza da paternidade e da maternidade» e a favorecerem «a cultura da vida» que se exprime no acolhimento das crianças que lhes são dadas e em ajudá-las a crescer: «Todo o ser humano concebido tem direito à existência, porque a vida dada deixa de pertencer aos que o fizeram nascer».

Referiu-se ainda João Paulo II às provações a que o casal hoje é sujeito e que fazem vacilar o amor e a confiança no cônjuge e até em si mesmo. E recomendou-lhes que recuperem a força inspirando-se nas atitudes de Cristo: «a travessia da dor pode contribuir para purificar o amor». E concluiu dizendo que «a vida conjugal passa, também, pela experiência do perdão» e que esta forma de união compromete todo o ser que, por vontade e por amor, aceita não dar importância à ofensa e crer que o futuro é sempre possível». Como acrescentou o Papa, «o perdão faz recuperar a confiança em si mesmo e a comunhão entre as pessoas» e não pode haver vida conjugal e familiar de qualidade «sem conversão permanente e sem renúncia aos egoísmos».

Multidões

Mais de 100 mil pessoas, alguns jornais falaram de 150 mil, participaram na celebração a que presidiu o Papa em Tours. João Paulo II apelou à unidade da Igreja e que os cristãos assumam o seu lugar nas comunidades para que sejam «unidas, abertas e amigas». Referiu-se depois ao exemplo de S. Martinho, pedindo que seja imitado na capacidade de acolher e de servir como «bom pastor».

A visita concluiu-se no domingo, em Reims, tendo os jornais previsto para esse dia alguma contestação por parte dos laicistas, que reagiriam contra a ideia de que a França nasceu com a conversão do rei Clóvis. A cidade onde esse rei foi baptizado, em 496, e onde muitos reis de França foram depois coroados, acorreu em massa à celebração do Papa. Os jornais falaram em mais de 160 mil. João Paulo II, mais uma vez falou da justiça social, o que a muitos enfurece pois apostaram já em fazer desaparecer um Papa que parece não ter medo de nada e na «terra da igualdade e fraternidade» diz: «Quando serão respeitados os direitos de cada um ao trabalho, ao alojamento, à cultura, à saúde, a uma existêncioa digna?»

Para além disso, referindo-se às liberdades de que a França se diz exemplo, João Paulo II lembrou aos bispos como é difícil fazer entender que a Igreja não quer impor os seus conceitos, mas que não pode deixar de manifestar o que pensa sobre o aborto e sobre a moral também na vertente sexual e privada. E acrescentou que «exprimir convicções é fazer uso de um direito inalienável».

Referindo depois que o baptismo de Clóvis teve o sentido de todos os outros, o Papa exortou os cristãos a saberem «reencontrar as origens» do seu Baptismo e a França a saber olhar para estes séculos de cristianismo e tentar «assumir as responsabilidades que daí decorrem». João Paulo II lembrou depois que a Igreja é sempre do tempo presente e que não olha para o passado como uma herança mas como «uma podertosa inspiração para avançar na peregrinação da Fé em caminhos sempre novos».

Da parte da tarde, o Papa visitou a basílica onde estão as relíquias de S. Remígio, o bispo que baptizou Clóvis, e encontrou-se com aqueles a quem chamou «os feridos da vida», ou seja, os desempregados, pobres sem domicílio, doentes seropositivos e outros. Estes gestos, na linha de S. Martinho que repartiu a sua capa com o pobre, ocuparam, entretanto, poucas linhas dos jornais que preferiram enaltecer manifestações de pequenos grupos incapazes de entender o alcance destas visitas apostólicas. E alguns mesmo, «em nome» da pátria das liberdades, chegaram a apelidar esta visita de «insulto à República» e protestaram arté contra o facto do presidente Chirac, Alain Juppé e outras autoridades se terem encontrado com o Papa, eles que representam uma sociedade laica, em que o funcionamento do Estado deve ser completamente separado da Igreja e da religião.

João Paulo II partiu para Roma, tendo assegurado aos franceses que deseja ali voltar em 1997.


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