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A opção de João Paulo II

Teria João Paulo II preparado uma carta destinada aos Cardeais com as disposições que deseja venham a ser adoptadas no caso deum dia se encontrar incapacitado, mentalmente,de desempenhar a sua missão? A notícia parece desprovida de qualquer fundamento, merecendo assim as críticas severas que têm sido dirigidas, a esse propósito, a um certo tipo de jornalismo «pouco sério».

Como explicar então o eco que, apesar de tudo, esses boatos encontram em muitos, mesmo dentro da Igreja? Provavelmente porque a questão pode vir, de facto, a colocar-se um dia, exigindo então uma resposta concreta que muitos desejariam ver prevista com antecedência. Mas não será isso rejeitar aquela característica da vida cristã e apostólica, e da assistência do Espírito à Igreja, que consiste em navegar no meio de ventos contrários, caminhando mesmo sobre as águas, sem nunca ser abandonado pelo Senhor da vida e da morte?

O que pode dizer-se é que este Papa continua a revelar-se incansável: não obstante os conhecidos problemas de saúde e o visível sofrimento que lhe transparece do rosto, João Paulo II faz questão de prosseguir a sua actividade habitual, em pouco reduzindo o intenso ritmo de audiências, encontros e visitas pastorais programadas, mesmo ao estrangeiro.

É inegável que João Paulo II acusa agora, de modo crescente, o cansaço próprio da idade e relacionado com as consequências do atentado de que foi vítima a 13 de Maio de 1981. Até agora subsistem, praticamente intactos, o vigor da sua vontade tenaz, a lucidez do espírito e a nunca desmentida generosidade com que se entrega à actividade pastoral, até ao limite das forças.

A intervenção cirúrgica a que, pela sexta vez, o Pontífice se vai sujeitar, ao mesmo tempo que revela as suas precárias condições de saúde, é por outro lado sinal da vontade de tudo fazer para prosseguir a sua missão, sem desistências nem resignações.

Difícil de manter
o actual estilo de pontificado

Na situação física que se prenuncia, será difícil ou mesmo impossível manter no futuro o estilo de pontificado adoptado por este Papa. O tremor da mão esquerda, o caminhar hesitante e inseguro, a voz tolhida, as contracções de um rosto visivelmente sofredor, não deixam margem para dúvidas. Mesmo com todo o espírito de sacrifício e com uma tenacidade sem quebra, João Paulo II ver-se-á cada vez mais obrigado a receber menos pessoas, a intervir mais brevemente nos variadíssimos encontros em que participa, renunciando a acompanhar pessoalmente todas as questões e desistindo de realizar um certo número de viagens pastorais previstas a médio prazo.

Quando o Papa vivia retirado no Vaticano, limitando-se a receber privadamente um reduzido número de personagens eclesiásticas e aparecendo raramente em público, a inevitável diminuição de vigor e dinamismo da fase final de um longo pontificado podia passar quase desapercebida. Exactamente o contrário das condições impostas hoje em dia pela comunicação de massa e pelo estilo pessoal de João Paulo II, sempre sob os implacáveis reflectores da televisão e perante os microfones da rádio. Os ouvintes e telespectadores têm ocasião de aproximar-se de perto do Papa, dando-se conta de todas as inflexões da sua voz, da fragilidade do seu organismo.

Seja como for, esta «transparência» e esta fragilidade, longe de reduzir a irradiação do Pontífice e a sua popularidade, parecem confirmá-las ainda mais. Um pontificado que corria o risco de ser visto e vivido como a de uma espécie de super-man do anúncio do Evangelho, 24 horas sobre 24, num raio de 360 graus, vê-se assim marcado pelo sinal da cruz, pela dimensão pascal que é, inevitavelmente, a pedra de toque da vida cristã.

João Paulo II poderia ter optado por resignar espontaneamente aos 75 anos, como os Bispos depois do Concílio. Não o fez, nem parece intencionado a tal no futuro. A sua opção, sempre confirmada, é a de dar a sua vida até ao fim, esgotando-se literalmente, desgastando até ao extremo as suas forças, em vez de as poupar. O que se apresenta como uma maneira de evitar, em princípio, o risco de se ver incapacitado, em vida, de exercer a sua missão.
Pacheco Gonçalves
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A CAUSA DAS COISAS
António José da Silva

«A Ponte sobre o Drina»

Quando os tambores da guerra se começaram a ouvir na ex-Jugoslávia, recordo-me de uma conhecida revista francesa ter feito a sua capa com uma fotografia chocante: a de numerosos cadáveres inchados que tinham dado à margem do rio Drina, precisamente debaixo da ponte que tem este nome. Recordei-me então de ter lido, há largos anos atrás, um livro que tinha exactamente o título de «A Ponte sobre o Drina», cujo autor, de nome Ivo Andritch, havia recebido o Prémio Nobel da Literatura, em 1961.

Do livro conservava eu uma vaga lembrança, logo espicaçada ali pelo desejo de perceber as notícias trágicas que iam chegando das terras e das gentes de que falava Andritch. Confesso que reli a obra de um fôlego e, quando cheguei ao fim, tive a sensação de que essas notícias constituíam apenas mais um capítulo de uma crónica que o autor não terminara. O livro respondia, aparentemente pelo menos, à pergunta que, já então e ainda hoje, toda a gente faz: como é possível tanto ódio? Porquê agora, se nem sempre foi assim?

Quando Andritch escreveu o seu livro, os eslavos do Sul viviam sob a paz de Tito, uma paz que tinha tanto de musculada como de podre. Debaixo de um manto aparentemente integrador, que foi perdendo espessuar com o decurso dos anos e se rompeu com a morte do seu artífice e garante, agitavam-se, à espera de uma nova explosão, todos os germes da desconfiança e da intolerância que a História semeara e guardara. Dizer isto é admitir quee sta é uma guerra - e digo é, porque ela continua nos corações - cuja origem podemos atribuir a movimentos incontroláveis da História e à incapacidade de, em certas circunstâncias, os homens superarem os traumas que ela originou. Na verdade, não podemos invocar aqui as ideologias nem os interesses económicos ou estratégicos para justificar os horrores de que fomos testemunhas pela televisão. Desta vez, esses horrores foram cometidos por causa da História e em nome da História. e o mais grave é que essa História se confunde, redutoramente, com uma história religiosa.

Digo redutoramente, porque ninguém morreu nesta guerra para poder afirmar a sua fé, para praticar o seu culto, para confessar ou contestar um dogma. Neste sentido, não se tratou, nem de perto nem de longe, de uma guerra religiosa. Mas é inegável que a Religião constituiu e constitui ainda o elemento sociologicamente mais determinante da cultura, ou se quisermos, da consciência nacional das três comunidades que fazem parte dos eslavos do Sul ou jugoslavos. Ela exerceu um papel de charneira na formação da identidade e na história dessas comunidades e, ainda hoje, sérvios, croatas e muçulmanos, mesmo os não crentes, sabem que na história dos seus conflitos pesou sempre o espectro de uma divisão religiosa acontecida há muito tempo: sérvios - cristãos ortodoxos- de um lado; croatas - cristãos católicos - do outro; no meio, verdadeira partida da História, uma «ilha» muçulmana maioritária, mas não exclusiva, na região da Bósnia.

Não vem para aqui recordar o tempo e as circunstâncias dessa divisão, mas vale a pena considerar o caso específico dos muçulmanos. Ao contrário dos sérvios e croatas que também partilham o território da ósnia, eles não têm uma outra pátria que possam reivindicar. A Turquia fica longe e, afinal, nem sequer são turcos. São apenas descendentes de eslavos cristãos, convertidos ao islamismo, vountariamente ou à força, nos tempos distantes do domínio turco.

Quando os velhos ódios renascem, os outros chamam-lhes, simplesmente, turcos e nesta designação vai toda a raiva acumulada e ampliada por gerações, ao longo de alguns séculos, contra os repersentantes da opressão otomana, cujas vítimas principais foram os sérvios. E embora nem todos esses tempos fossem de tirania sangrenta, as histórias que o povo guardou são as histórias dos raptos de crianças cristãs levadas para Istambul e aí islamizadas e educadas para servir o sultão. E ainda as histórias dos heróis que pagavam a ousadia da sua rebelião pendurados na ponte do Drina, numa agonia que o torturador conseguia tornar insuportavelmente demorada, tão bem sabia manejar a lança que, debaixo para cima, penetrava os seus corpos, sem atingir os órgãos vitais.

Os muçulmanos da Bósnia nem são turcos nem têm bada a ver hoje com as razias e os empalamentos dos tempos passados, mas por estranho poder da His´tória, estas imagens renascem das cinzas para os transformar em velhos inimigos sobre os quais os sérvios entendem ser legítimo exercer a vingança, adiada mas nãoesquecida.

Ivo Andritch não chegou a escrever este capítulo de «a Pnte sobre o Drina»...
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