Bastaria esta relação (muitos outros vultos, no entanto, se notabilizaram, porque os séculos não são estéreis, nem são melhores uns que os outros, porque todos são humanos) para nos mostrar quão injusta é a concepção que nos ensinaram nos bancos das escolas, não sei em nome de que valores ou desvalores, segundo a qual o século XVII foi estéril ou quase em termos de criação literária. Pior enormidade só a que considera a Idade Média como um período de trevas e de ignorância, a longa noite dos séculos. Esta concepção hoje é já digna de irrisão, e não falta quem venha agora afirmar que a época medieval foi um dos períodos culturalmente mais ricos e produtivos da história do homem. De forma excelente, como sempre, afirma Jacinto do Prado Coelho, a propósito desta relação de Vieira com o seu tempo: "Vieira não está fora da sua época: exprime-a de modo genial".
2. Bastaria ao século XVII português ter produzido uma figura da estatura de Vieira para devermos considerá-lo um período invulgar na cultura portuguesa. No entanto os espíritos por vezes andam distraídos. Possa este ano jubilar, em que passam 300 anos sobre a sua morte, ocorrida a 18 de Julho de 1997, fazer ressurgir entre nós o estudo e o interesse pela espantosa obra deste jesuita que foi professor, pregador, diplomata, missionário, e que com todos estes ingredientes se tornou o "imperador da língua portuguesa", como, de forma emblemática (como em tantos outros epítetos que atribuiu fulgorosamente a figuras e acontecimentos nacionais) o designou Fernando Pessoa na Mensagem:
| Este, que teve a fama e a glória tem Imperador da língua portuguesa Foi-nos um céu também. No imenso espaço do seu meditar constelado de forma e de visão (...) |
Um dos aspectos mais marcantes da sua biografia é certamente aquele que é definido pelos últimos anos da sua vida: O primeito volume dos Sermões é por ele publicado apenas aos 71 anos de idade e pouco depois parte para o Brasil. É aqui que se dedica à revisão dos seus escritos. Quando a morte advém, aos 89 anos, havia terminado a revisão do 12º volume dos Sermões. A sua publicação estender-se-á posteriormente até aos quinze volumes, dados à estampa após a sua morte. Depois da luta que lhe foi a vida, pregando e missionando, procurando defender os nativos contra a cobiça dos colonos nas terras do Brasil, perseguido pela Inquisição, organizando o seu próprio processo de defesa, obtendo em Roma a isenção das condenações contra ele pendentes do Santo Ofício em Portugal, decide, talvez amargurado, retirar-se para o Brasil. Será por isso que a cultura e a literatura brasileira o considera um dos seus maiores e primeiros escritores. Na verdade, se a escrita pertence à terra onde nasce, Vieira é bem mais brasileiro que português, porque a maioria das suas obras, na sua versão actual, são concluídas em terras de Santa Cruz, mesmo muitos dos sermões que tinha pregado em Portugal. É verdadeiramente empolgante verificar como um homem já passado dos setenta consegue recuperar uma infinidade de escritos seus muito diversificados, cuja forma final, aquela que hoje possuímos, se plasmou nestes anos. Com efeito, se é certo que alguns dos seus sermões haviam sido já escritos e até publicados, se outros terão sido ditados e manuscritos por escribas, certamente a maioria apenas estaria referenciada naqueles tópicos ou esquemas que deveriam servir de base à pregação. Os sermões, como os temos hoje, na maioria dos casos não se encontram como foram pregados. A poderosa memória do orador, a sua estruturação mental das ideias, a esquematização formal do discurso, a divisão nas partes tradicionais da retórica (Exórdio, apresentação do tema, argumentação, peroração, conclusão), conjugadas com esquemas adicionais (a inventio, a probatio, a amplificatio, a elocutio...) permitir-lhe-iam conservar o núcleo central da pregação, núcleo que certamnete depois aperfeiçoou e burilou. Mas ficará para sempre perdida a sua força retórica, o seu estilo e a sua voz, "trovão do céu que assombre e faça estremecer o mundo", como postula que deva ser a voz do pregador no conhecido Sermão da sexagésima.
Os textos que nos ficaram de Vieira, perdidas certamente muitas das qualidades que tiveram, mas tendo por força adquirido outras, como o aperfeiçoamento da selecção vocabular, a esquematização lógica do discurso, a eliminação de muita limalha vocabular inevitável na oralidade, talvez uma acção temperadora que a sabedoria acumulada pelos anos torna valiosa - tudo isto faz dele um dos mais portentosos escritores da nossa língua.
Porém, talvez não esteja aí o seu meior mérito ou a maior coroa de glória. Não terá sido o ensinar-nos a falar e a escrever (já no século seguinte Verney, habitualmente muito crítico para com os autores do período barroco, apresentava como modelo de organização do discurso e de calreza da exposição das ideias as Cartas do padre António Vieira), porque não lhe devotamos a merecida atenção; não será certamente a sua perspectivação visionária do mito do Quinto Império, que alguns, em leituras pouco ilustradas no conhecimento da tradição bíblica, atribuíam apenas ao papado e ao Rei português (um império espiritual e um império material); não será também, apesar de muito importante, a sua faceta, moderna e simpática para certas sensibilidades actuais, de lutador e de defensor dos direitos dos Índios (que lhe chamavam O Grande Pai, "papayassu"), ou de denunciador dos vícios humanos, sobretudo dos poderosos, de que é exemplo acabado o célebre e imaginativo Sermão de Santo António aos Peixes. A sua maior e talvez menos valorizada dimensão é a de evangelizador, tarefa onde sobressai a extraordinária capacidade de adaptação dos princípios evangélicos às condições políticas, sociais, legais, institucionais, e outras concretas da complexa condição sócio-política do deu tempo. A incompreensão veio-lhe tanto da instituição régia comoda instituição eclesiástica. Sempre os profetas foram incompreendidos, e foi sempre sina sua a de se situarem nas margens institucionais.
3. A dificuldade maior de estudar a obra de Vieira resulta do conjunto dessas circunstâncias, a saber: estudá-lo como escritor, analisando o seu poderoso estilo e a beleza e rigor da sua escrita; por outro lado, estudá-lo na complexa ideologia do seu universo simultaneamente lírico, profético, teológico, visionário, sociológico, futurista, bíblico e sagrado. Analisar tudo isto "per modum unius" resulta de uma insuperada complexidade. Digo "insuperada", porque penso que ainda falta o estudo globalizante de todos estes aspectos, apesar de trabalhos dignos de todos os encómios, como os de Raymond Cantel, Lúcio de Azevedo, Luís Gonzaga Cabral e recentemente de Margarida Vieira Mendes; não digo " insuperável", porque a investigação académica parece agora ser alertada para a magnidade de um projecto que tribute ao padre Vieira o reconhecimento que lhe é devido, através de uma análise integradora dos mutifacetados aspectos da sua obra.
O aprofundamento das vertentes bíblico-teológicas deverá por força ser veiculadas pela análise estilística e retórica, e a função parenética tem que ser compaginada com a visão apocalíptica e visionária. Mergulhar nas raízes desse complexo universo e estrutrar um estudo de conjunto constitui uma tarefa para muitos anos de investigação.
4. Os aspectos da obra de Vieira que têm sido mais evidenciados podem reduzir-se academicamente a uns quantos princípios que geralmente constam dos manuais escolares: rigor, expressividade e selecção vocabular; ritmo articulado da frase, ora binário, ora ternário, ora composto; entrelaçamento lógico das ideias, por forma a constituirem uma teia de implicações, reais ou aparentes; o conceito predicável, que lhe permite aplicar passos e situações bíblicas às situações concretas que quer analisar, através de uma técnica de correspondências analógicas; esquematização das ideias por forma a orientar o pensamento do ouvinte.
Foram milhentos os pregadores que procuraram pôr em prática, como ele, as regras da retórica. Muitos foram mais célebres e mais admirados. Mas falta-lhes essa impressionante dinâmica da língua, a um tempo simples, imediata, captadora e espontânea, como a desta conhecida passagem, entre inúmeras outras possíveis ronda os limites da simplicidade do génio:
"A nuvem tem relâmpago, tem trovão e tem
raio: relâmpago para os olhos, trovão para os ouvidos,
raio para o coração: com o relâmpago alumia,
com o trovão assombra, com o raio mata. Mas o raio fere
a um, o relâmpago a muitos e o trovão a todos. Assim
há-de ser a voz do pregador: um trovão do Céu
, que assombre e faça tremer o mundo".
Pouco importa que a lógica seja falível, como quando Vieira pretende fundamentar esta voz forte necessária ao pregador na expressão bíblica "clamabat"; é a estruturação do discurso que conduz à conclusão. Que importa o "arrazoado", como ele diz, se a boa e útil conclusão acaba por se corporizar na mente do ouvinte?
Com a palavra, a memória e o ritmo fabrica Vieira o discurso. Mais que a clareza, busca a dinâmica; mais que o raciocínio, busca a emoção e a adesão. Em tudo, porém, a força do verbo. Concluo com as palavras de Margarida Vieira Mendes: "Explorar a ordem da língua portuguesa e ajustá-la à ordem do mundo, da história e do destino individual, ou achar nela fundamento e inspiração para entender estas, eis o que o orador Vieira toda a vida intentou com os seus discursos. Entregar-se à realidade primeira da língua, ou seja, à sua "verdade", significa regressar a uma idade onde nem a linguagem nem a memória eram autónomas, mas o veículo e o depósito da realidade". (Colóquio / Letras, nº 110-111, Julho-Outubro de 1989).
| C. F. |
- As comemorações deste tricentenário iniciaram-se com um Colóquio internacional na Faculdade de Letras de Lisboa, nos dias 21-23 de Janeiro, tendo como tema "Vieira escritor: o estado da questão". Várias teatralizações e representações de Sermões de Vieira estão previstas por diversos actores e grupos teatrais. Para Junho está previsto o lançamento de um CD com Sermões ditos por actores da Cornucópia; para Julho o lançamento de um CD-ROM da "Obra Completa de Vieira"; encontros e seminários estão programados nas Universidades de Yale, São Paulo e Rio de Janeiro; finalmente, um Congresso na Universidade Católica em Lisboa, no mês de Novembro.
Recordação ao padre Ângelo Perreira Pinto
- Queria dizer-te que sou um admirador incondicional das tuas crónicas na VP. É sempre a primeira coisa que leio... - dizia sorrindo benevolamente.
- À falta de melhor, quando mal nunca pior... - respondia eu, para não dizer nada.
Era assim a espontânea simplicidade do padre Ângelo. Sempre uma palavra de estímulo, sempre uma risada sonora quando ironizava sobre as coisas, lançando mão de um invulgar sentido de humor. Sempre uma atenção aos pormenores da vida, às sensibilidades das pessoas, às pequenas inquietações do quotidiano. Mesmo quando queria pedir um favor, torneava as palavras com imaginosos contornos.
Na hora da partida, há que recordar o trabalho pastoral, nas múltiplas actividades que dinamizou na paróquia, ao longo de vinte e tal anos. A escola de música, os grupos corais, o aperfeiçoamento litúrgico, os escuteiros, a pastoral social. O mais lindo do seu funeral foram certamente as lágrimas silenciosas que escorriam pela face das moças e dos rapazes de mãos dadas ao longo do cortejo litúrgico.
É fácil chorar diante da morte. As lágrimas não eram de tristeza mas de saudade. Aquele que partira, queriam-no ali, com os seus sessenta e três anos ao lado dos quinze ou desasseis; com a sua experiência sorridente partilhando a ilusão perante a vida.
Na hora da partida importa meditar no sentido da morte e nas esperanças da vida. Na semente lançada e no tempo passageiro. E no grande mistério que é a vida do homem que trabalhou com esperança, que fez a sementeira cujos frutos serão as virtudes futuras.
Caiu à terra a semente que irá germinar.
| C. F. |
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