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Havia uma natural satisfação no rosto do Cardeal Ratzinger ao comunicar estes dados aos jornalistas, numa conferência de imprensa realizada há dias para a apresentação da edição russa do Catecismo. Uma obra que tem dado, literalmente, muito que fazer ao Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e seus colaboradores, das diversas línguas, encarregados duma supervisão final das diferentes traduções. A este propósito, o Cardeal pôs em relevo a importância que assumem as traduções de um texto deste tipo, do ponto de vista da inculturação da fé, nas várias áreas geográficas e culturais.
No que diz respeito à edição russa agora apresentada, foi sublinhada a dimensão ecuménica da iniciativa. As relações entre a igreja Católica e a Igreja Ortodoxa Russa tem passado por momentos de tensão. O patriarcado de Moscovo acusa os católicos de proseslitismo indevido numa região onde a história e a cultura sempre contou com um cristianismo de tradição ortodoxa.
Mons. Tadesz Kondrusiewicz, bispo católico nomeado como "administrador apostólico para os católicos da Russia europeia", cuidou de evitar que a edição russa do Catecismo Católico viesse a constituir mais uma pedra no sapato nas já difíceis relações com os ortodoxos. A seu pedido, o Patriarca de Moscovo e de todas as Russias, Aléxis II, designou um teólogo ortodoxo, Innokentij Pavlov, para colaborar na tradução.
Esta empresa apresentava especiais dificuldades, até porque praticamente não existia, em russo, uma tradição já afirmada de terminologia religiosa e católica. É verdade que a situação está a mudar graças à actividade do Colégio Teológico para Leigos "São Tomás de Aquino", de Moscovo, e do Seminário Maior "Maria Rainha dos Apóstolos", de San Petroburgo. Uma parte dos professores destes estabelecimentos de ensino teológico católico aos russos até há pouco em diaspora, ou mesmo estrangeiros. Foi naturalmente a uns e a outros que se fez apelo ao constituir, em 1993, a comissão para a tradução russa do Catecismo, que integrou leigos e padres, alguns de vários outros países, quase todos em ligação com o Centro Jesuíta russo de Meudon, nos arredores de Paris. A empresa foi financiada pelo Cardeal John O'Connor e pela sua arquidiocese de Nova Iorque. Deu também um contributo decisivo a organização católica "Ajuda à Igreja que sofre".
Na Russia e nos outros países
da ex-União Soviética, a difusão do Catecismo
será assegurada por uma organização católica
russa "Biblioteca Religiosa" e pela Biblioteca Nacional
(russa) da Literatura Estrangeira.
Alterado o texto sobre a pena de morte
A grande surpresa foi ouvir da voz do Prefeito da Congregação da Fé a informação de que a versão oficial latina contará com uma significativa alteração do texto inicial, de 1992. Será eliminada a passagem que tentava justificar a pena de morte "em casos de extrema gravidade, se outros processos não bastarem". É sabido que, esta posição do Catecismo da Igreja Católica tinha suscitado reacções de perplexidade e de critica mesmo no interior da própria Igreja, e até ao nível das Conferências Episcopais.
A nova versão adoptará a posição defendida por João Paulo II na Encíclica "Evangelium Vitae", de Março de 1995, que considera praticamente inexistentes os casos em que a sociedade não teria outro recurso que não fosse a pena de morte para "colocar o agressor em estado de não fazer mal". A Encíclica recorda que os Estados dispõem hoje em dia de muitos outros meios para o combate à criminalidade e sublinha que uma intransigente defesa da vida é um dos maiores deveres no presente e no futuro.
Esta alteração do texto original - assegurou o Cardeal Ratzinger - será a única a ser introduzida agora na versão latina, e impunha-se pelo facto de ter havido efectivamente sobre o ponto em questão um inegável progresso doutrinal.
| Pacheco Gonçalves |
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«O ano escolar começa no início de Fevereiro. No mês de Janeiro feitas as matrículas. Por onde passei, vi a corrida de alunos e pais numa ansiosa procura de uma vaga na rede escolar. Os jornais destes dias dão conta do problema. Segundo a revista Tempo, o Ministério para a Coordenação da Acção Ambiental, publicou, em 1996, um relatório com números preocupantes: 57% da rede escolar está paralisada e apenas um terço das crianças consegue matrícula.
O Notícias de hoje, 20 de Janeiro, apresenta as explicações do Secretário de Planificação do Ministério da Educação: «Estamos a programar um crescimento controlado, mantendo a frequência média por turma». O ensino obrigatório vai até à 7.ª classe. Mas enquanto o Estado dispõe de 408 mil vagas para a 1.ª classe, menos que o necessário, oferece só 57.200 para a sexta. É esse gargalo do funil que faz as famílias pular, obriga as autoridades a fazer turmas grandes demais e abre as portas à corrupção (directores de escola que exigem dinheiro acima do legal). Os pais reclamam, regateiam, mas acabam pagando, colaborando com a corrupção, como estão dispostos a pagar o «cabrito» para o professor dar nota ao seu filho, no fim do ano. É caro, pagar a cada professor! E como é anti-educativa esta exigência, apesar do salário baixo pago pelo Estado! Uma Superiora de mosteiro falava-nos como é difícil as suas postulantes terminarem os estudos. Quem não se entrega e não paga um salário extra, mesmo que saiba, tem muita dificuldade em passar! Na Ilha de Moçambique houve greve por causa disso, no fim do ano passado. Mas a vingança foi terrível!
A presença na área da educação é uma das prioridades da Igreja em Moçambique. Todos ouvimos falar da Universidade Católica, para a qual contribuíram também os cristãos portugueses. Mas há um esforço enorme para assumir escolas secundárias, onde o governo falha mais. E tive a alegria de ver e ouvir falar de muitíssimas escolas organizadas pelas comunidades cristãs nos locais mais remotos do país. Na Missão de Iapala, as Irmãs de S. João Baptista coordenam escolas para três mil alunos. Em Micane, as Irmãs do Sagrado Coração atingem mil. E assim acontece em tantos outros lugares que não entram nas estatísticas oficiais.
Como funcionam estas escolas comunitárias? O povo constrói a casa da escola, as Irmãs ou um professor coordena e prepara os monitores. Os alunos pagam todo o material gasto. Ser monitor é um ministério eclesial como o de Catequista ou Ministro da Eucaristia, o seu trabalho é gratuito. A escola funciona à tarde, depois que alunos e monitores vieram do serviço. Certamente que os alunos se lembrarão de oferecer um presente ao seu professor: pode ser um relógio, a maior parte das vezes será ir limpar o seu campo. Receberá, pelo menos, o respeito de todos, até dos mais velhos. A partilha aprendida na Igreja é mola da promoção. Em muitos lugares também os muçulmanos participam.
Este esforço do povo e da Igreja não pretende substituir a acção do Estado. Mas também este já não proíbe estas iniciativas. À medida que pode, o Ministério da Educação toma conta das escolas ou passa a substituí-las. «Temos como responsabilidade assistir entre esses alunos como se estivessem na pública. Eles não são responsáveis pelo facto de estarem lá. Não podem ser discriminados», diz o secretário do Ministério. Esta é uma mudança fundamental para um governo que, no tempo do marxismo, quis varrer a Igreja e hoje pede o seu apoio para realizar uma das suas tarefas fundamentais. Está disposto até a pagar as despesas e entregar a direcção à Igreja, para garantir uma educação que inclua valores, e não só ensino.
Em Nampula está a nascer a Associação dos Professores Cristãos. O objectivo é organizar os cristãos para darem testemunho, pelo apoio mútuo para a melhoria do ensino e para o combate à corrupção.
Além da Igreja, outras entidades têm colaborado para o crescimento da educação. A Acção Agrária Alemã é uma das ONGs com mais actividades em Moçambique, exactamente para a construção de escolas. Penso que aí está um campo para actuação dos jovens portugueses que queiram doar alguns anos da sua vida ao desenvolvimento deste povo, sem complexos de superioridade que o africano rejeitaria, mas com espírito de fraternidade e vontade de servir. Honestidade e competência profissional podem criar um novo ambiente na escola.
Mas há outro aspecto da educação que está a ressurgir, o tradicional. Abrange aquele conjunto de conhecimentos acumulado pelo povo banto ao longo dos séculos e que é transmitido pela família e pela tribo, sobretudo em ocasiões especiais, como a iniciação que faz da criança para ser um adulto com os deveres e direitos de membro da comunidade. Tudo isso foi recriminado pelo governo marxista, como obscurantismo. Mas agora a tradição reaparece e manda, para preservar os valores e a identidade do povo. Aqui se coloca um novo problema para o cristão. A religião tradicional é o esteio principal, o cerne da cultura banto. Como cristianizar a iniciação, onde se transmitem os valores da cultura? Não é fácil, mas a experiência começou. Mães e pais cristãos estão a fazer a iniciação dos jovens da sua comunidade, purificando a tradição, usando mais higiene, incluindo uma visão cristã da vida. Será um caminho para inculturar o Evangelho?
O futuro de um povo nasce de todo esse conjunto de esforços em que as pessoas se confrontam umas com as outras e em que tradição e modernidade são sujeitas a uma simbiose que dará uma identidade bem própria ao progresso deste país.
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