II Assembleia Ecuménica Europeia, em Graz, Áustria

Unidade já acontece ?

A pequena cidade de Graz, a sul de Viena, viu-se invadida, de 23 a 29 de Junho, por dez mil participantes, entre os 700 delegados das Igrejas cristãs, na II Assembleia Ecuménica Europeia que ali decorreu sob o tema «Reconciliação, dom de Deus e fonte de vida nova», dando continuidade ao encontro realizado em 1989 em Basileia, Suíça.

A celebração de abertura, numa das praças da cidade, revelou a unidade «possível» em cânticos, textos e orações, bem como em mensagens a que nem faltou o Patriarca de Constantinopla. João Paulo II, na mensagem que enviou, disse ser necessário «purificar a memória histórica, marcada pelas feridas de um passado confuso e, por vezes, violento». Nos dias seguintes, houve encontros, debates e momentos de oração e de festa, para além de encontros culturais, preparando para a celebração de Envio e Bênção que ocorreria no Domingo, dia 29. Na 5ª-feira, realizou-se uma recepção oficial num belo castelo, tendo sido realçado que o diálogo, a amizade, a cooperação e a solidariedade têm hoje uma importante incidência religiosa, política e social.

Uma delegação de 15 pessoas representou Portugal e espera-se que dê continuidade, entre nós, a esta II Assembleia: D. Jorge Ortiga, bispo auxiliar de Braga e presidente da Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé, e o padre Felício, secretário, e ainda P. Rego, da TVI, Luísa França e Margarida Saco, da Pax Christi, Aurora Cristas e Margarida Correia, das equipas de Nossa Senhora, Lisete Baltasar e Ercília Pinto, da comunidade Cristo-Betânia, a Ir. M. Teresa Jardim, da FNIRF, e o P. Tony Neves, da CNIR, e ainda o P. Agostinho Vítor e o Dr. João Duque, de Braga, Teresa Gonçalves, do Pontifício Conselho para o Diálogo Interreligioso, e o Dr. J. Francisco Cruz, da comissão ecuménica do Porto e focolarino. Ali estiveram ainda seis delegados das Igrejas do COPIC (Igrejas Lusitana, Presbiteriana e Metodista), bem como outros participantes e jovens que deram apoio à organização.

A participação de Alexis II, patriarca de Moscovo, dos cardeais Martini, bispo de Milão, e Vlk, presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, e de Jonh Arnod, presidente da Conferência Europeia das Igrejas, bem como de de figuras como Frei Roger Schultz, de Taizé, e de Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, permitiu dizer que a unidade já acontece e tem traçado um irreversível caminho.

Alexis II lembrou que «ser construtor da paz, como Deus manda, é um ministério a que o cristão deve consagrar toda a sua vida», como acontecerá com quem se dirigiu a Graz. E acrescentou que isso continua a ser importante 50 anos após a guerra e vencidos que estão tantos limites dos direitos humanos, pois aumentam as tensões entre as Igrejas cristãs do Oriente europeu, pela chegada de missionários que se lançam num «proselitismo sem freios». E concluiu que, apesar desses problemas, as Igrejas da Europa oriental «estão a unir os seus esforços» sentindo-se chamadas «ao ministério da reconciliação... como discípulos de Cristo, para que o mundo creia e a sua acção de construtores da paz dê frutos».

O Cardeal Martini acrescentou que, na linha da Assembleia de Basileia, «a reconciliação é verdadeiramente um dever de todo o povo de Deus», o que comporta «um forte compromisso ecuménico, ligado ao dever missionário que nos define como Igrejas», ainda que seja um caminho exigente e penoso». Jonh Arnold concluiu que foi «um passo temerário, talvez mesmo uma provocação, escolher como tema a reconciliação», numa Europa que ainda não está reconciliada consigo mesma.

Mais optimista, o Cardeal Vlk disse acreditar no milagre da reconciliação que ultrapasse «o medo do diálogo e o medo do encontro». E também Chiara que apontou uma espiritualidade de comunhão, alicerçada no diálogo.


Das palavras aos actos

Entre as comunicações, salientem-se as de Karekin I, representante dos católicos orientais da Arménia, dizendo que, mais do que nos discursos, a credibilidade assenta no testemunho de reconciliação, e também o formal apelo ao diálogo de George Carey, arcebispo Primaz Anglicano.

Karekin salientou que é indispensável acreditar que «a comunhão das Igrejas tem de assentar na diversidade e não no monolitismo» e que esse caminho se percorre no diálogo, tendo em conta o que já foi feito. O mesmo tema abordaria Chiara ao salientar que a presença de Focolares no Leste nada tem a ver com «proselitismo», pois o Movimento é ecuménico e tem no mundo membros de 300 Igrejas diferentes, incluindo a Ortodoxa.

George Carey e Carlo Martini manifestaram ainda que, na linha do caminho já percorrido, não deve protelar-se demasiado o momento do Encontro ecuménico, acreditando que a Assembleia de Graz chegará, mais facilmente do que a de Basileia, à diversidade das comunidades cristãs e que estão a ser dados passos decisivos para a realização de um Concílio Universal. Nesse sentido, será conveniente traçar caminhos de uma espiritualidade verdadeiramente ecuménica e que, para além dos teólogos, também os bispos se envolvam na caminhada ecuménica.

No Domingo, solenidade de S. Pedro e S. Paulo, João Paulo II rezou, no Vaticano, pela unidade dos cristãos e abençoou a Madre Teresa de Calcutá que participara na celebração numa cadeira de rodas. Lançou, para além disso, um apelo à Paz em Brazzaville, capital do Congo, onde, nos últimos dias, terão morrido em confrontos militarescerca de duas mil pessoas.


Mulheres

Uma forte presença de mulheres chegou a Graz, tendo mesmo sido elaborado um programa diário de debates sobre a espiritualidade feminina, a intervenção das mulheres na política, a reconciliação entre israelitas e palestinianas, as mães bósnias e croatas que, em conjunto com as sérvias, rezam pelos seus filhos. Apesar dos delegados com direito a voto serem maioritariamente do sexo masculino, apareceram também testemunhos femininos marcantes como o de uma romena ortodoxa que passou seis anos nas prisões comunistas, ou de outras que são ministros na Igreja Anglicana ou trabalham em movimentos ecuménicos.


Uma flor

Edwin Hassink, o artista holandês que elaborou o logotipo da Assembleia, explica-o assim: «Vejo braços estendidos e protectores que se reconciliam. Velo a oferta preciosa do amor e do calor - a força que nos leva a estender as mãos uns aos outros. Vejo os braços protectores dos pais que abrigam escrupulosamente uma força amada, viva. Uma flor que começa a florir. Uma força que leva os homens a erguerem os braços no ar, cheios de graça e de gratidão. Um círculo quase perfeito para simbolizar o amor e que simboliza a vontade de criar (de novo) a comunidade. Uma pessoa que procura o diálogo de todo o coração».

(Texto elaborado a partir das comunicações de J. Francisco Cruz e Tony Neves)


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