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PRAÇA DE S. PEDRO

«O sacrifício da unidade»

Domingo, 29 de Junho. Basílica de São Pedro. No grande vazio deixado pela ausência da costumada delegação do Patriarcado de Constantinopla (a primeira vez desde há 21 anos), ecoam, densas de significado, com palavras bem pesadas, as intenções da Oração dos Fiéis. Toda uma teologia, todo um programa.

Em russo, pode-se por João Paulo II, «Bispo de Roma, para que, como Pedro foi o primeiro a experimentar a misericórdia de Deus, acolhendo o convite a confirmar os irmãos na unidade, assim ele anime todas as Igrejas e comunidades cristãs em direcção àquela comunhão fraterna de fé e de vida que caracterizou por tantos séculos o Corpo indiviso de Cristo». A segunda intenção é em grego: «Por todas as Igrejas do Oriente e do Ocidente, reconhecidas a Deus pela recente Assembleia ecuménica de Graz, e por todos os que actuam a favor da unidade e imploram a sua consecução, para que, próximos do dealbar do novo Milénio, decididamente e com uma consciência amadurecida, estejam cada vez mais dispostos ao «sacrifício da unidade».

Para este «sacrifício da unidade» - a disponibilidade para renunciar ao que for possível é preciso passando com Cristo pela inevitável agonia que crie finalmente condições para a plena comunhão dos cristãos - o Papa e a Igreja Católica Romana desejarão sem dúvida viver a sua quota-parte, juntamente com todos os outros Pastores, Igrejas e comunidades, numa aproximação convergente para aquele futuro que só Deus conhece e que, humanamente falando, se apresenta ainda distante.

A inesperada recusa de Bartolomeu I de enviar a habitual delegação do patriarcado Ecuménico de Constantinopla às celebrações de S. Pedro e S. Paulo, em Roma, vem na sequência da também imprevista ausência deste Patriarca da Assembleia ecuménica de Graz. Segundo os elementos disponíveis, não pode deixar de surpreender a animosidade desta dura reacção motivada pelo facto de, na preparação do previsto (mas não concretizado) encontro do Papa em Viena com o Patriarca Alexis II de Moscovo), o Vaticano não ter envolvido também o Patriarcado Ecuménico.


Novos temores e medos inconscientes

É conhecida a rivalidade que desde sempre contrapõe o Patriarcado de Constantinopla ao de Moscovo, visto praticamente como uma cisão da unidade do mundo Ortodoxo. Uma animosidade que a nova situação criada com a dissolução da União Soviética não ajudou a dissipar, antes pelo contrário.

Da parte da Igreja Católica, na sequência dos importantes passos de aproximação dados por Paulo VI e pelo Patriarca Atenágoras, as relações com o patriarcado de Constantinopla encontravam-se, aparentemente, no bom caminho. Embora, na realidade, uma parte significativa das Igrejas Ortodoxas não atribuam ao Patriarcado de Constantinopla mais do que a importância meramente simólica de uma relíquia histórica, sem influência decisiva do ponto de vista hierárquico e canónico, ainda assim a veneração ligada a esta sede poderia, do ponto de vista da caminhada ecuménica, revelar-se de especial importância. Até por isso, Roma não se poupou a esforços em relação à Sede patriarcal de Fanar (Istambul). As honras sinceramente prestadas a Bartolomeu I, na sua visita a Roma, há dois anos, assim como, recentemente, em Milão, onde participou a convite do Cardeal Martini nas celebrações ambrosianas, testemunham bem uma deferência que fazia supor uma real aproximação, que prometia dar frutos, a seu tempo, na comunhão Ortodoxos-Católicos.

Agora, este volte-face. Como afirmou o Papa no Angelus de 22 de Junho, não obstante se tenha criado, com o movimento ecuménico, uma nova situação entre os discípulos de Cristo, a verdade é que «às vezes insurgem perturbações inesperadas, nascem novos temores, serpenteiam medos inconscientes».

No que diz respeito ao Patriarcado de Moscovo, embora seja sem dúvida decepcionante o adiamento do previsto encontro do Papa com Aléxis II, o tom das mensagens e dos comunicados que acompanharam esta decisão revelam algum progresso. Não fechando as portas e reconhecendo expressamente o interesse do encontro do Patriarca de Moscovo com o Papa, na prática prevê-se a concretização, não muito distante, desde passo que se pode revelar importante.

A recriminação, frontalmente repetida em Graz pelo próprio Patriarca de Moscovo, de um alegado «proselitismo» da parte da Igreja Católica na Rússia, exigirá da parte de Roma, um redobrado esforço de discrição e de respeito, para ajudar a superar preconceitos que até podem ter tido, mesmo no passado recente, algum fundamento.
Pacheco Gonçalves
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