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Não se trata daqueles que dizem terem a sua fé, porque esses não têm a fé da Igreja, isto é, da comunidade dos crentes, mas trata-se daqueles que procuram ser fiéis à palavra de Deus e a buscam com sinceridade. A verdade, para nós, seres limitados, só pode ser apreendida em pequenas parcelas e nunca na sua totalidade. Assim, a união entre os cristãos deve fazer-se no essencial da fé, certamente, mas sobretudo no amor. Num mundo pluralista, como o nosso, se devemos aceitar também um justo pluralismo dentro da Igreja, é fundamental buscarmos o essencial que nos deve unir. E esse essencial é Jesus Cristo, a sua palavra e a sua praxis de amor radical ao homem, que o levou até à doação da sua própria vida.
Há uma concepção do cristianismo que acentua a descrição que o Génesis faz da criação. Deus criou um mundo perfeito - Deus viu que tudo era bom. O próprio homem, perfeito na sua natureza, era dotado de dons que ultrapassavam a mesma natureza e que a enriqueciam; vivia num paraíso, isto é, num estado de perfeição e de felicidade. Para manter esse estado de perfeição nem tinha que trabalhar; o trabalho aparece depois como castigo do pecado. Tinha apenas que obedecer a umas simples normas de comportamento, que representariam o reconhecimento da soberania de Deus. Pela sua desobediência, o homem entrou num estado de decadência, ficou sujeito ao sofrimento e à morte. Deus intervém neste processo, por meio de Jesus Cristo, para restaurar, apenas em parte, o estado original do homem. A perfeição, então, estaria no princípio. E, em virtude da obra reparadora do Redentor, só no final dos tempos o homem poderá recuperar a felicidade perdida.
Esta tem sido, para todos nós, a concepção do cristianismo que recebemos no Catecismo. Mas esta concepção coloca-nos sérias dificuldades quando temos que nos confrontar com as teorias evolucionistas, que, corrigidas de alguns excessos, são hoje consideradas cientificamente válidas.
Uma outra concepção do cristianismo entende que a criação não é um acto acabado de Deus, mas uma acção continuada, que se vai realizando no tempo e com a colaboração do homem. Segundo esta maneira de ver, a perfeição não está no princípio, mas estará no fim. A plenitude da obra criadora de Deus só será atingida no final da história. A criação está a fazer-se e só atingirá a sua perfeição quando Deus for tudo em todos. Esta concepção está mais de acordo com os profetas de Israel, que nunca falam de um paraíso perdido no passado, mas anunciam um futuro de felicidade, em que o homem será cumulado de todos os bens.
Também em Jesus Cristo não encontramos qualquer referência a um passado feliz. Ao ladrão pregado na cruz ao seu lado, promete o paraíso apenas depois da sua morte. O Reino de Deus, objecto constante da sua pregação, se é verdade que já está entre vós, é algo que não é deste mundo. É a dialéctica do já e do ainda não, própria de um movimento evolutivo a caminho da perfeição. Ele aponta para um futuro, o futuro intemporal, uma vida nova para a qual o homem terá de renascer.
S. Paulo, por seu lado, fala do homem novo, da nova criação. O primeiro homem foi criado animal, o homem novo será espiritual, por acção de Deus, que entrou na história humana pela incarnação de Jesus Cristo. Esta criação continuada é, de certa maneira nova criação, em virtude do salto qualitativo que aconteceu pela incarnação do Filho de Deus. Ela conta com a colaboração do homem, precisa mesmo dessa colaboração, quer para que individualmente ele caminhe para a sua perfeição, quer para que colabore nessa caminhada perfeccionista de toda a humanidade.
Segundo esta concepção, a incarnação deu-se não só para reparar o pecado do homem, mas também e sobretudo (porque se realizaria mesmo que o pecado não tivesse acontecido) para realizar o plano do Criador de conduzir o homem a uma união perfeita com Deus, para, de alguma forma divinizar o homem, para dar cumprimento à palavra da Escritura: Vós sois deuses. Como diz S. Paulo, Jesus Cristo está no início da criação como modelo, como Verbo do Pai e estará no seu final como plenitude para a qual caminha, ele é o Alfa e o Omega da criação.
A primeira concepção do cristianismo é pessimista. O homem possui uma natureza decaída, ferida pelo pecado e não podemos esperar muito dele, enquanto viver no tempo.
A segunda é optimista. O homem continua a fazer-se e a evoluir no sentido da perfeição, ainda que relativa, à maneira que vai construindo a sua história. Todo o mal que existe, todos os crimes de que somos testemunhas no nosso tempo poderão ter fim, na medida em que o homem é não só perfectível, como está numa caminhada de perfeição.
| Gonçalves Moreira |
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A Liturgia da Palavra
Por vezes ainda vemos alguns cristãos a participarem na Eucaristia acompanhando através do seu Missal as orações e as leituras tanto do Próprio como do Ordinário da Missa. No passado esse foi o meio encontrado pelos apóstolos da Liturgia para ajudar os fiéis a unirem-se efectivamente com o Sacerdote e com a acção litúrgica que se desenrolava no Altar numa língua desconhecida e de forma mais ao menos oculta e secreta. Para alguns fiéis, com dificuldades auditivas, essa ajuda mantém intacto o seu valor. Hoje, porém, como no Pentecostes, «todos ouvem proclamar nas suas línguas as maravilhas de Deus» e, por isso, o recurso a esses meios do passado não passa de pura inércia. A menos que se pretenda «controlar» o Padre, não vá ele ter a veleidade de se desviar do que vem no livro!
Em algumas igrejas generalizou-se a distribuição aos fiéis de folhetos com os textos próprios da Missa dominical. Por vezes, trata-se do Boletim Paroquial com outras notícias e subsídios criteriosamente escolhidos em ordem à melhor participação na Liturgia e na vida da paróquia ou comunidade local. Mas, em muitos outros casos, são publicações genéricas, com uma difusão supra-paroquial, fornecendo os textos litúrgicos, eventualmente com algum comentário.
Não ignoramos o bem que esses subsídios pode fazer, sobretudo antes e depois da celebração. Com a sua ajuda muitos fiéis, enquanto aguardam o início da Missa, já se vão recolhendo e imbuindo do espírito da Liturgia em que vão participar; outros levam-nos consigo e ao longo da semana alimentam a sua vida de piedade com os textos insuperáveis da Palavra de Deus e da oração da Igreja. Mesmo durante a celebração, essas folhas podem ajudar a assembleia a participar num canto menos conhecido.
Mas também não há quem não lhes veja inconvenientes. Esses folhetos, não podendo fornecer toda a riqueza do Missal e do Leccionário (tendo em conta as muitas possibilidades de escolha e adaptação previstas pelas normas litúrgicas vigentes), acabam por contribuir para o empobrecimento da celebração. Com um papel nas mãos, os fiéis (sobretudo as crianças) tendem a distrair-se e a distrair os outros. Se não houver um permanente serviço de arrumação, instala-se nas igrejas uma desordem dispersiva, com papéis em desalinho por toda a parte. Sobretudo, há a tendência a «desligar-se» da acção comum: em vez de prestar atenção ao leitor, olha-se para o papel; em vez de sintonizar o espírito com a voz do Orante que preside à comunidade, cada qual faz as suas «rezas»; em vez duma assembleia, obtém-se uma multidão de indivíduos, cada qual isolado no seu mundo interior, seguindo individualmente aquilo que devia ser uma acção comunitária.
A Liturgia da Palavra é a primeira mesa posta aos fiéis. Mediante o ministério do leitor, realiza-se a primacial e indispensável Comunhão da Missa: muitos formam um só Corpo ao ouvirem, em directo e simultâneo, a única Palavra que salva e a que se submetem - «obedecem» - na fé. Mas será que ouvem? Que mal se lê a Palavra de Deus nas nossas Eucaristias! Hoje os leigos que se preparam com seriedade para proclamar a Palavra de Deus de forma clara e audível - felizmente já os há - ainda constituem excepção. E é com pesar que registamos o facto de serem escassas as inscrições no Curso de Leitores da Escola Diocesana de Ministérios Litúrgicos. A situação piora se tivermos em conta que a leitura em público por parte dos ministros ordenados está bem longe de ser sempre exemplar.
Deste modo continua a alastrar como uma chaga o contra-testemunho de leituras negligentes, obscuras, desarticuladas, inapreensíveis. E assim se dificulta ou até impede a Comunhão na Palavra. Deus bem quer falar; o Seu povo bem quer ouvir; mas o porta-voz lê só para si e nega-se a Deus e ao povo, não permite o Diálogo salvífico, frustra a Comunhão.
| S.D.L. |
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«Ao aproximar-se o final deste século e do milénio, assistimos a uma expansão sem precedentes dos meios de comunicação social, com uma oferta cada vez maior de produtos e de serviços. Vemos a vida de um número cada vez maior de pessoas influenciada pelo desenvolvido de novas tecnologias de informação e de comunicação. Apesar disso, ainda existem numerosas pessoas que não têm acesso aos mass-nedia, antigos e novos.
Todos os que beneficiam deste progresso dispõem du aumentado número de opções. Quantas mais são as opções, mais difícil se torna escolher de modo responsável. De facto, verifica-se uma dificuldade cada vez maior de proteger os próprios olhos e ouvidos de imagens e sons que chegam através dos media, inesperadamente e sem convite prévio. Para os paais, é sempre mais complicado proteger os seus filhos de mensagens menos boas, e garantir que a sua educação para as relações humanas, bem como a sua aprendizagem acerca do mundo, se realizem dum modo adequado à sua idade e sensibilidade, e ao desenvolvimento do sentido do bem e do mal. A opinião pública vê-se perturbada pela facilidade com que as mais avançadas tecnologias da comunicação podem ser exploradas por aqueles que têm más intenções. Ao mesmo tempo, como não observar a relativa lentidão por parte daqueles que desejam usar bem essas mesmas oportunidades?
Fazemos votos por que a distância entre os beneficiários dos novos meios de informação e expressão, e os que até agora ainda não tiveram acesso aos mesmos, não se converta noutra obstinada fonte de desigualdade e discriminação. Nalgumas partes do mundo, há quem se pronuncie contra o que se verifica no domínio dos mass-media por parte da chamada cultura ocidental. O que os media produzem é visto como a representação de valores apreciados pelo Ocidente e, por conseguinte, supõe-se que representem valores cristãos. Na realidade, a este respeito, é o benefício comercial que se considera, com frequência, como primeiro e autêntico valor.
Além disso, parece diminuir nos meios de comunicação a proporção de programas que exprimem aspirações religiosas e espirituais, programas moralmente edificantes e que ajudem as pessoas a viver melhor a sua vida. Não é fácil continuar a ser optimistas sobre a influência positiva dos mass-media, quando estes parecem ignorar o papel vital da religião na vida das pessoas, ou quando as crenças religiosas são tratadas sistematicamente de maneira negativa e antipática. Alguns funcionários dos media - sobretudo dos sectores do entretenimento - com frequência tendem para uma imagem dos crentes religiosos sob a pior luz possível.
Existirá um lugar para Cristo nos mass-media tradicionais? Podemos reivindicar um lugar para Ele nos novos media?
Na Igreja, o ano de 1997, primeiro dos três de preparação para o Grande Jubileu do Ano 2000, é dedicado à reflexão sobre Cristo, o Verbo de Deus feito homem pelo poder do Espírito Santo (cf. Tertio millennio adveniente, 30). Por esse motivo, o tema do Dia Mundial das Comunicações Sociais é «Comunicar o Evangelho de Cristo: Caminho, Verdade e Vida (cf. Jo. 14, 6).
Este tema proporciona à Igreja a oportunidade de meditar e agir sobre o contributo específico que os meios de comunicação podem oferecer, para difundir a Boa Nova da salvação em Jesus Cristo. Também dá a oportunidade aos profissionais da comunicação de reflectirem sobre os temas e valores religiosos, e os que são especificamente cristãos podem enriquecer tanto as produções dos media como a vida de todos os que os media servem.
Os actuais meios de comunicação dirigem-se não só à sociedade em geral, mas principalmente às famílias, aos jovens e também às crianças muito pequeninas. Que «caminhos» indicam os mass-media? Qual a «verdade» que propõem? Que «vida» oferecem? Isto diz respeito não só aos cristãos, mas a todas as pessoas de boa vontade.
O «caminho» de Cristo é o caminho de uma vida virtuosa, frutífera e pacífica como filhos de Deus e como irmãos e irmãs da mesma família humana; a «verdade» de Cristo é a verdade eterna de Deus, que Se revelou a Si mesmo, não só mediante o mundo criado, mas também através da Sagrada Escritura, e sobretudo no e através do Seu Filho, Jesus Cristo, a Palavra que se encarnou; e a «vida» de Cristo é a vida da graça, dom gratuito de Deus que partilha a Sua própria vida e nos torna capazes de viver para sempre no seu amor. Quando os cristãos estão verdadeiramente convencidos disto, as suas vidas transformam-se. Esta transformação manifesta-se não tanto num testemunho pessoal que interpela e dá credibilidade, quanto uma comunicação urgente e eficaz - também através dos mass-media - duma fé vivida, que paradoxalmente aumenta ao ser partilhada.
É confortador saber que todos os que têm o nome de cristãos compartilham esta mesma convicção. Com o devido respeito pelas actividades da comunicação de cadauma das Igrejas e das comunidades eclesiais, seria um significativo êxito ecuménico, se os cristãos pudessem cooperar de modo mais estreito entre si nos mass-media, para preparar a celebração do próximo Grande Jubileu (cf. TMA, 41).
Tudo se deve centralizar no objectivo fundamental do Jubileu: o fortalecimento da fé e do testemunho cristãos (TMA, 42).
A preparação para o 2000.º Aniversário do nascimento do Salvador converteu-se, e já o era, na chave de interpretação do que o Espírito Santo está a dizer à Igreja e às Igrejas neste momento (TMA, 23). Os mass-media têm um papel significativo a desempenhar, na proclamação e difusão desta graça na comunidade cristã em si e no mundo em geral.
O próprio Jesus, que é «o Caminho, a Verdade e a Vida, é também «a luz do mundo»: a luz que ilumina o nosso caminho, a luz que nos torna capazes de perceber a verdade, a luz do Filho que nos dá a vida sobrenatural agora e para sempre. Os dois mil anos passados desde o nascimento de Cristo representam uma extraordinária comemoração para a humanidade no seu conjunto, tendo em conta o importante papel da cristandade durante estes dois milénios (TMA, 15). Seria oportuno que os mass-media reconhecessem a importância dessa contribuição.
Talvez uma das melhores ofertas que poderemos oferecer a Jesus Cristo no segundo milénio do Seu nascimento, seja dar a conhecer a Boa Nova a todas as pessoas do mundo - antes de tudo, pelo testemunho do exemplo cristão - e através dos media: «Comunicar Jesus Cristo: Caminho, Verdade e Vida». Este o desejo e o empenho de todos os que professam a singularidade de Jesus Cristo, fonte de vida e de verdade (cf. Jo. 5, 26; 10, 10 e 28) e dos que têm o privilégio e a responsabilidade de trabalhar no vasto e influente mundo das comunicações sociais.
| João Paulo II |
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