- afirmou o bispo de Dili em Oslo
D. Carlos Ximenes Belo, Bispo de Dili (Timor-Leste), a quem, de parceria com José Ramos Horta, líder da Resistência timorense no exterior, foi atribuído o Prémio Nobel da Paz de 1996, dedicou tal galardão ao povo de Timor-Leste. Admitindo embora que sob a admnistração do regime indonésio, Timor-Leste conheceu um certo desenvolvimento, D. Ximenes fez questão de sublinhar que nenhum desenvolvimento pode ser verdadeiramente apreciado se não tiver a participação responsável do povo na sua concepção e execução e sem o respeito pela liberdade e dignidade das pessoas.
As afirmações de Ximenes Belo pertencem ao discurso que pronunciou no salão nobre do Município de Oslo, capital da Noruega, agradecendo a atribuição do Nobel da Paz e expressando a sua concepção do ministério episcopal que lhe está confiado. Mais política foi a intervenção de Ramos-Horta que apresentou um verdadeiro programa de acção que, sob medição da ONU e a ser aceite pelo regime indonésio, conduzirá a uma consulta popular que traçará o destino político da nação maubere.
Aliás, a nota «política» mais saliente foi dada no discurso de abertura da cerimónia proferido pelo presidente do Comité Nobel norueguês, Francis Sejersted, ao afirmar que a anexação de Timor-Leste pela Indonésia não pode ser declarada como um facto consumado: «A História nunca estabeleceu nada como facto permanente. A História move-se continuamente», declarou, acrescentando com ênfase: «Se algo aprendemos na década passada foi que os regimes mais repressivos são os mais frágeis. (...) Há forças na História mais poderosas que a mais poderosa força militar. A violência e o terror não conduzem à paz. Até que alguém ganhe a coragem de quebrar o círculo vicioso da violência não nascen oportunidades para uma paz duradoira».
E referiu-se mesmo ao alheamento das grandes potências nos últimos vinte anos dizendo que «raramente o cinismo dos políticos mundiais foi claramente demonstrado» tendo conduzido mesmo «a uma forma excepcionalmente brutal de neocolonialismo». E falou dos duzentos mil que morreram em consequência da ocupação indonésia e das violações que continuam a ocorrer. E elogiou os dois laureados pela constante busca de uma solução pacífica ou de reconciliar, mediar e atenuar o conflito.
O Bispo de Dili, por sua vez, num discurso cheio de referências à doutrina da Igreja sobre o desenvolvimento dos povos, não esqueceu a situação dos Direitos Humanos em Timor-Leste, afirmando que é preciso «um sincero esforço para mudar a gravíssima situação dos Direitos Humanos em Timor-Leste», pedindo às autoridades indonésias que colaborem com a Igreja local que criou uma «Comissão de Justiça e Paz que está sempre pronta para cooperar com as autoridades na resolução dos problemas».
Ximenens Belo esclareceu que fala destas coisas «como alguém que tem a responsabilidade de testemunhar aquilo que viu e ouviu», como «líder espiritual, não como um político que, de facto, não sou». E acentuou a dado passo do seu importante discurso: «Como homem, como ser humano, não posso ficar indiferente ao que se relaciona com o homem. Como membro de um povo tenho de partilhar o destino desse povo, assumindo completamente este mandato mesmo sabendo os riscos que tal atitude envolve. (...) Como membro da Igreja assumo a missão de esclarecimento e denúncia de todas as situações humanas que estejam em desacordo com o conceito cristão e sejam contrárias aos ensinamentos da Igreja».
Neste contexto, D. Ximenes afirmou que «o povo de Timor-Leste não é intransigente mas está disposto a perdoar e a superar a situação de amargura. Ele anseia pela paz, na sua comunidade e na região e para isso deseja construir pontes com as suas irmãs e irmãos indonésios para encontrar formas de conseguir a harmonia e a tolerância».
O Nobel da Paz não se esqueceu de elogiar, na sua intervenção, a atitude da ONU em todo este longo e doloroso processo e lembrou outros povos que, como o timorense, «buscam a paz e a dignidade», nomeadamente na Irlanda do Norte, no Tibete, no Médio Oriente e Afeganistão, na zona dos Grandes Lagos, na Áftica do Sul e na Birmânia.
A caminho da autodeterminação?
Por sua vez, Ramos Horta, que iniciou o seus discurso em língua portuguesa, fez uma intervenção marcadamente política com uma forte evocação do líder da Resistência timorense, Xanana Gusmão. Apresentou um plano de paz do Conselho Nacional da Resistência Maubere (CNRM), explicando sucintamente as medidas previstas nesse plano que, na sua opinião e se for aplicado, levará à autodeterminação de Timor-Leste.
Entende Ramos Horta que, se tal plano se concretizar, a nação timorense beneficiará pelo facto de se situar num cruzamento de culturas - melanésia, malaio-polinésia e católica latina («um legado de Portugal»).
Agardecendo o papel de Portugal no processo
difícil de negociações com a Indonésia,
Ramos Horta teceu depois fortes críticas aos países
ocidentais: «Consideramos repugnante que os países
occidentais que mais discursos retóricos fazem sobre os
Direitos Humanos sejam os mesmos que fabricam a maioria das armas
que mataram mais de vinte milhões de pessoas no mundo em
desenvolvimento desde a II Guerra Mundial».
Mundo volta-se para Timor?
À cerimónia de entrega do Prémio Nobel, que foi presidida pelos monarcas noruegueses, o rei Harald V e a rainha Sonja, compareceram, além do Cardeal Roger Etchegaray, presidente da Comissão Pontifícia Justiça e Paz, e de D. Januário Ferreira, secretário da Conferência Episcopal portuguesa, inúmeras personalidades da vida política portuguesa e dos países de língua oficial portuguesa, nomeadamente o presidente da República, Jorge Sampaio, o primeiro-ministro, António Guterres, os presidentes da Guiné-Bissau e de Moçambique, Nino Vieira e Joaquim Chissano, respectivamente, o ex-presidente Ramalho Eanes (Mário Soares, engripado, teve de ficar em Lisboa), o Duque de Bragança, D. Duarte Pio, Freitas do Amaral e outras personalidades, como a activista barsileira Lucélia Santos (a «escrava Isaura» da telenovela).
Durante a tarde, D. Ximenes Belo, Ramos Horta, António Guterres e Jorge Sampaio, participaram num programa de cerca de uma hora que a cadeia de televisão norte-americana CNN dedicou, em emissão mundial, a Timor-Leste. O Presidente da República manifestou profundo apreço pelo Bispo de Dili, rebateu as teses indonésias e garantiu que Portugal tudo fará para que se criem condições de paz em Timor.
Tudo está agora preparado para que o mundo se volte um pouco mais para Timor. Seguir-se-ão muitos encontros, seja de Ximenes Belo, seja de Ramos-Horta. E todos eles terão uma repercussão que nunca fora experimentada.
Quem tenha a memória fresca há-de
concluir que tudo isto nasceu daquela teimosia de João
Paulo II apenas ter aceitado ir à Indonésia, se
Timor fosse incluido no itinerário da visita, como aconteceu.
E os discursos que na ocasião fez nas Flores, em Timor
e aos bispos indonésios, bem como a decisão de manter
D. Ximenes dependente directamente da Santa Sé encontram
agora uma mais profunda explicação. Mas, como em
muitas ocasiões acontece, foia prisão de Xanana
e o sangue dos mártires de Santa Cruz que fez acordar
a consciência internacional e que os olhares se voltassem
para Timor.
Galardoados com o Prémio Nobel
da Paz
O Prémio Nobel da Paz foi atribuído a primeira vez, em 1901, a J.H. Dunant, da Suiça. Desde então, muitas têm sido as individualidades e instituições distinguidas, das quais referimos: Instituto de Direito Internacional do Gand, T. Roosevelt dos Estados Unidos, Secretariado Internacional da Paz, Cruz Vermelha Internacional (1917), Comissão Internacional de Nansen para os Refugiados, Cruz Vermelha Internacional (1944),"The Friend' s Service Council e "The American Friend Service Committee", A. Schweitzer, de França, Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, G. Pire, O. P., da Bélgica, Cruz Vermelha Internacional e Liga Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha (1963), M. Luther King (1964), dos Estados Unidos, UNICEF, Organização Internacional do Trabalho, Le Duc Tho, da R. D. do Vietname e Henry Kissinger, dos Estados Unidos, Andrei Sakharov, da Rússia, Amnistia Internacional, Menahem Begin (Israel) e Anwar Sadat (Egipto) (1978), Madre Teresa de Calcutá (1979), A. Perez Esquivel (Argentina), Office of the United Nations High Comissioner for Refugees (Genebra), L. Walesa (Polónia), D.Tutu (África do Sul), MIPGN (Médicos Internacionais para a Prevenção da Guerra Nuclear), Forças Militares da ONU, Dalai Lama (Tibete), Mikail Gorbachev (Rússia), Rigoberta Menchu (Guatemala), Joseph Roblat (Inglaterra) e, agora, D. Ximenes Belo e Ramos Horta, de Timor-Leste.
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