| Forum: | |
Notável a hómilia do Cardeal Martini, no passado dia 7, festa de Santo Ambrósio, na esplêndida catedral de Milão. Na presença do Primaz Anglicano e de todas as autoridades locais, o Arcebispo milanês pronunciou um texto vigoroso, doutrinalmente denso, atento aos sinais dos tempos e aberto sobre o futuro.
Esta data de 7 de Dezembro comemora precisamente a ordenação episcopal do bispo Ambrósio, em 374. E é sintomático que Milão a celebre como feriado municipal, a grande festa da cidade. além do solene pontifical, e de outros festejos populares, esta é a data sempre escolhida para a abertura da estação lírica, no célebre Teatro da Ópera alla Scala. Culto e cultura portanto, numa cidade profundamente marcada, ainda hoje, por uma sede episcopal prestigiosa onde se sucederam, ao longo dos séculos, figuras eminentes, de Ambrósio a Carlos Borromeu, do cardeal Montini (futuro Paulo VI) ao actual arcebispo.
Milão é, desde sempre,
uma cidade activa, importante centro comercial e industrial,
artístico e cultural, religioso e político. Numa
Itália em certos aspectos "provinciana", a
"capital do norte" tem uma dimensão mais
"europeia", de uma prosperidade vistosa e desigual.
A Câmara Municipal está actualmente dominada pela
Liga Norte, de Umberto Bossi. Foi do Tribunal de Milão
que partiu a fulgurante operação judicial "mãos
limpas", por iniciativa sobretudo de Di Pietro,
agora ele próprio a braços com um processo que parece
ter muito de conjura visando a sua eliminação política.por
estranha coincidência, foi precisamente o dia 7 de Dezembro
que os juízes seus acusadores escolheram para lançar
a acção contra este heroí nacional, agora
já abatido do pedestal.
A celebração da catedral de Milão asssinalava, desta vez, a abertura do "Ano de santo Ambrósio", comemorando os 1600 anos da sua morte, em 397. João Paulo II publicou, a propósito, uma Carta Apostólica, "Operosam Diem", que evoca detida e sugestivamente a actualidade da figura e obra do santo bispo, texto muito oportunamente divulgado nesta ocorrência.
Na sua homilia, o Cardeal Carlos Maria Mmartini sublinhou "a necessidade, em todo o empenho público, de um sonho, um ideal, um projecto, uma utopia". E isso para dispor de um ponto de referência a partir do qual "medir o presente e graduar as intervenções possíveis, sem se deixar sufocar pelas pequenas urgências quotidianas nem exraviar pelos clamores ou pelas lisonjas dos petulantes de turno".
Claro que - recordou o Cardeal Martini
- a fecundidade de qualquer projecto está ligada antes
de mais àquele "ùnico projecto sobre o mundo
que é o projecto de Deus", tendo portanto como
horizonte a eternidade de Deus e a plenitude da revelação
do senhor no final dos tempos. Urge também um confronto
permanente com "a linguagem da cruz", que "exprime
a metodologia de todo o agir cristão" e " se
fundamenta no valor de tudo aquilo que parece não ter valor
nem eficiência: ser abatido, derrotado, sofrer injustiça"
Um agir não preocupado com a eficiência mas sim com
a qualidade das relações, inspiradas no exemplo
de Jesus, nas bem-aventuranças, com as características
da caridade apontadas por São Paulo. "só
um projecto assim merece o nome de cristão".
A salvação da sociedade
não está no retorno ao paganismo
O paralelismo entre os atribulados tempos de Santo Ambrósio e a actualidade italiana e europeia, já expressa na referida Carta Apostólica do Papa, emerge também, muito sugestivamente desta homilia de Martini. "Na sociedade romana em desintegração, era necessário reconstituir o tecido moral e social que preenchesse o perigoso vazio de valores que se tinha criado. O bispo de Milão (Ambrósio) quis dar resposta a estas graves exigências, não apenas agindo no interior da comunidade eclesial, mas estendendo o olhar aos problemas da regeneração global da sociedade. Consciente da força renovadora do Evangelho, daí extraiu ideais de vida concretos e vigorosos, propondo-os aos fieis para que deles se alimentassem fazendo assim emergir, ao serviço de todos, autênticos valores humanos e sociais". Ambrósio teve a clarividência de advertir que a salvação da sociedade não estava no retorno aos valores do paganismo, mas que se impunha " enxertar no que restava de são no tronco da romanidade...os valores do Evangelho".
Com a percepção da fé, Ambrósio sabia que este enxerto só poderia vingar "se a parte cristã da sociedade fosse capaz de exprimir vigorosamente, em todos os sectores..., aqueles modos de pensar e de agir que mostravam a novidade e a força das bem-aventuranças e a potência paradoxal da cruz". "Ele teve o dom de intuir que existia, mesmo para uma grande metrópole, a possiblidade de um encontro entre a sabedoria e probidade romana e a sabedoria da Cruz".
| Pacheco Gonçalves |
| Início |
Quem tenha lido ou escutado as reportagens sobre a atribuição do Nobel da Paz terá ficado com a ideia de que a Igreja, particularmente a portuguesa, se alheou da escolha deste ano. E isso seria ainda mais grave quando o primeiro dos premiados é justamente um bispo, D. Carlos Ximenes Belo. Como ouvi a um padre que costuma andar atento a estas coisas, «é lamentável, os bispos andam a dormir, pois deviam ter-se feito representar em Oslo». E disse outras coisas que não é conveniente trazer para aqui se não a minha carta não será publicada na Tribuna do Leitor.
Toda a gente terá ficado com idêntica impressão e muitos cristãos terão «sofrido» com a ausência de alguém da Igreja portuguesa e por notar tanta avidez por parte dos jornalistas em transformar esta atribuição do Nobel apenas num degrau mais para a independência de Timor. E, para ser mais «notícia», seria muito bom que D. Ximenes fosse impedido de entrar na sua diocese e por isso valia a pena «arrancar-lhe» o máximo de afirmações que enfurecessem o regime indonésio.
Não se deixou manipular, entretanto, o bispo D. Carlos, que ali apareceu como homem da Igreja, unido ao seu povo para quem reclama o desenvolvimento, a liberdade e a paz. E sempre manifestou a sua qualidade de bispo, de homem da Igreja que, por isso, não toma posições de natureza estritamente política. E, para que isso ficasse mais claro, entre os seus convidados do Comité Nobel da Paz, estavam pessoas que ali representavam a Igreja. Por isso lá esteve, entre os convidados especiais, um representante, o secretário, da Conferência Episcopal Portuguesa: D. Januário Torgal Ferreira. Não o viu a Comunicação Social que apenas se interessou por recolher outras impressões. É lamentável, e também o é que as comunicações ditas da Igreja nestas e noutras ocasiões semelhantes, por exemplo em visitas do Papa a tantos locais, fiquem sempre em casa à espera dos relatos que as agências façam para depois fazerem «um resumo», cortando o que lhe for menos favorável. Assim não vamos a lado nenhum e já era tempo das pessoas responsáveis abrirem os olhos para estas situações.
Curiosamente, e quase por acaso, soube que, para além de D. Januário, que conhece bem «o caso Timor» pois ali estivera há pouco tempo a pregar um retiro ao clero, e do representante do Vaticano, cardeal Etchegaray, estiveram em Oslo três bispos australianos, o bispo presidente da Pax Christi francesa, o presidente alemão da Misereor, o teólogo alemão bispo de Stuttgard Walter Kasper, o Bispo de Oslo Mons. Schwenzer, e outros esquecidos da notícia. De todos esses, entre nós nem uma linha!
| L. M, S.ª M.ª da Feira |
| Início |
| Primeira Página | Página Seguinte |