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PONTO DE VISTA

Fragilidades legais

Agosto, tradicional mês de férias, em que o ar do campo e do mar nos tonificam a alma, foi também um mês de horrores. Os casos de crianças raptadas, violadas e mortas gelaram a Europa. Não foi só o povo belga a sentir o sofrimento dessas crianças. Também aqui, neste canto da península, ficamos abalados pelo seu martírio, até porque ao sabermos o que lhes aconteceu pensámos nos nossos filhos. Por alguma razão, quando um violador entra numa cadeia, os outros presos agridem-no e seviciam-no, porque se lembram dos seus filhos e das suas mulheres.

Do lado de lá do Atlântico, concretamente nos Estados Unidos, no estado da Califórnia, e perante a frequência destes crimes, a lei endureceu, e prevê, a partir de agora, a castração dos violadores de crianças. É uma pena bárbara, imprópria da civilização em que vivemos, e já se fazem ouvir protestos. Por sua vez, a opinião pública considera insatisfatórias algumas sentenças dos tribunais, porque as entende demasiado brandas. A lei portuguesa ainda há poucos anos não tinha por violação a de um menor do sexo masculino.

É lamentável dizer isto, mas o nosso Código Penal é responsável por algum descrédito que fragiliza, perante o conceito geral, a justiça portuguesa. Sabemos que crimes que ferem a nossa sensibilidade e que suscitam, por vezes, a reacção popular não têm uma penalização adequada à sua gravidade e ao que daí resultou. E sabemos, também, que uma condenação fica reduzida a metade, desde que o preso se porte bem. Isto para já não falar das amnistias, que acabam - frequentemente contra a vontade do próprio juiz - por tomar meramente simbólicas algumas sentenças. Entretanto, e já agora, convém que não esqueçamos que a Bélgica também pode ser cá.
Pacheco de Andrade
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