Recreativa:


AIND e AID terão medo
da imprensa de inspiração cristã?


A «Rádio Renascença», a «TVI - Televisão Independente» e a «ARIC - Associação das Rádios de Inspiração Cristã», representada através da Federação Portuguesa das Rádios Privadas, abandonaram a Confederação Portuguesa dos Meios de Comunicação Social de que eram membros fundadores. Esta atitude foi tomada em consequência da obstinada oposição da «AIND - Associação de Imprensa Não Diária» e da AID - Associação de Imprensa Diária» à entrada da «AIC - Associação de Imprensa de Inspiração Cristã» naquela Confederação.

A AIC preenche os requisitos estatutariamente estabelecidos para a apresentação da candidatura cuja admissão se traduziria num significativo alargamento da representatividade desta última, pois representa quase duzentos órgãos de imprensa, a maioria de carácter regional, com uma tiragem média mensal de cerca de dois milhões de exemplares.

A RR, a TVI e a ARIC consideram que a injustificável oposição da AIND e da AID à adesão da AIC viola frontalmente o espírito que presidiu à constituição da Confederação Portuguesa dos Meios de Comunicação Social e afecta gravemente aquele mesmo espaço de diálogo e cooperação na defesa de interesses comuns a que aderiram, pelo que consideraram inviabilizada a sua permanência nesta instituição.

A representação e a defesa dos interesses da RR, TVI e ARIC, junto dos poderes públicos e dos parceiros sociais, concretizar-se-á, de ora em diante, através da «NOVA - Federação dos Meios de Comunicação Social de Inspiração Cristã», que igualmente representa a AIC e o Departamento de Ciências e Comunicação da Universidade Católica Portuguesa, organização fundada antes ainda da própria Confederação de que agora se desligam.

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Casa das Artes


Desta vez não é título de filme, é nome de uma sala de cinema aberta ao público na Cidade. Tem uma característica: ali só passa cinema de qualidade, e europeu em grande percentagem. Acredito que não dê lucro, comercialmente falando. Mas esse é um risco assumido por quem carrega a responsabilidade da sua programação: trata-se de um serviço público, em nome da cultura, e pensando na cultura, no caso cinematográfica, ao povo que somos nós, os portugueses, e concretamente os portuenses que não dispomos dos serviços da Cinemateca Nacional ou do Palácio Foz, como os da capital. Mas há pior que nós. Os das Braganças, Viseus e Bejas que se contentem com as aventuras do Ace Ventura.

Velho que sou nas artes do espectador, lembro-me muito bem. Há muitos, muitos anos, era uma vez e eu ainda rapaz, cinema de qualidade que eu saiba, era no Cine-Club do Porto, no da Boavista, e no Seminário da Sé. Por muito que esta afirmação espante muita gente. Um dia, ainda hei-de falar do cinema de primeira água que passava no Seminário. Ainda agora, está em Lisboa, em reposição claro, um célebre filme de Orson Welles, O Sabor do Medo, de 1957, com pompa e circunstância: pois eu e a malta do meu tempo vimo-lo no Seminário da Sé, sim senhor! Por essa altura, havia também as Tardes Clássicas do Batalha, à sexta-feira, se me lembro. Público em geral que quisesse ver cinema de qualidade, era ali.

Depois, veio o Estúdio, lá em cima, no Centro Social do Perpétuo Socorro. Começou com garra, mas teve de render-se que, nem em nome da cultura, se pode deitar dinheiro fora. Ainda não havia estas coisas modernas do mecenato, com benesses nos impostos. Ficamos todos mais pobres quando fechou, eram os tempos da invasão da pornografia.

A seguir foi a Sala Bebé. Anos a fio, era o único sítio onde se apanhava cinema de qualidade, e cinema europeu; mas vergou-se também às leis do mercado.

Veio a seguir o vazio. Até que, lá pelas secretarias de Estado da Cultura, se lembraram de que investir na dita de um povo é dos maiores serviços que se pode prestar ao Zé. Não sei se já repararam que a maior parte dos filmes que por aqui comento passam na Casa das Artes. Mas ainda há muita gente que me pergunta onde é que isso fica.

A Casa das Artes é um serviço valiosíssimo prestado à cidade do Porto: sem ela, todos seríamos mais pobres. Um parêntesis se me permitem: só não entendo porque é que os seus responsáveis não prestam um outro serviço a este país, deixando-se de audiências e mandando fechar o esgoto que é a Televisão Pública nº 1 (a nº 2 parece que melhorou um bocado, mas ainda é cedo para ser verdade).

Falava da Casa das Artes, Cinema de estreia, cinema em reposição, retrospectivas de todo o tipo, mas sempre cinema de alta qualidade, é ali. E mesmo que se não trate sempre de obras-primas, é cinema incontornável a quem esteja minimamente atento a esta forma de arte. Ainda o ano passado, que se celebraram 100 anos sobre o nascimento do Cinema, as únicas projecções que de algum modo assinalaram o evento foram projectadas naquele écran.

Vi esta semana naquela casa um filme de 1991, de Krzysztof Kieslowski, um cineasta polaco recentemente falecido, de cuja obra, tecnicamente admirável, se exala um perfume tão intenso como o da música de um compatriota seu que dava pelo nome de Chopin. A dupla vida de Véronique se chamava a película; quando passou comercialmente chamava-se A vida dupla de Véronique. Não é a mesma coisa, não, senhor! Vida dupla, em português, inclui um juízo moral, e Dupla vida não. Não é das melhores obras de Kieslowski, é verdade. Mas cinema de rara beleza, uma espécie de parábola internacional sobre esta coisa de uns terem de sofrer e morrer para que outros possam viver ou prosperar, pessoas ou povos.

E, se não há Casa das Artes, no Porto isto não se podia ver. Nem que seja só por um dia.

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