2. Nessas simpáticas, por vezes sábias, outras vezes divertidas, outras ainda ocasião para destilar algum veneno (também isso é uma actividade salutar, porque a descarga das pulsões agressivas ajuda a criar o equilíbrio do indivíduo e até da sociedade), as posições e atitudes da Igreja ou dos seus homens e mulheres são um dos alvos mais apetecidos. O que, de uma perspectiva evangelizadora, é sempre bom sinal, porque significa que as opiniões, gestos, tomadas de posição, afirmações doutrinais e proclamações de projectos obtêm algum impacto na nossa sociedade mediatizada, em que só são interessantes as coisas de que se fala.
3. Há dias um leitor de um jornal insurgia-se contra o facto de o programa dois da Radiodifusão Portuguesa ter transmitido as cerimónias de Fátima, em vez de a habitual música erudita que é seu (louvável) timbre. Entendia o cidadão que, na sua qualidade de ateu, tinha o direito de não ouvir a referida transmissão. Certamente não protestaria por ouvir uma Missa de Mozart, uma Cantata de Bach, um motete Haydn, uma oratória de Haendel, a Missa Solene de Beethoven ou o Requiem de Verdi ou de Berlioz, ou as composições para órgão de Messiaen, ou outras obras primas da cultura musical. Esquece-se o simpático comunicante que esses homens faziam da música a expressão máxima da sua fé. Há que respeitar a opinião das pessoas, mas deve exigir-se também o respeito pelas convicções dos demais, que neste caso, até são a maioria. Ninguém deve impor aos semelhantes as suas convicções religiosas, embora toda a religião seja por natureza missionária; mas pior do que isso é tentar obrigar o próximo a não ter convicções.
4. Um outro leitor levantava a sua voz contra o facto de o senhor Arcebispo de Braga ter emitido alguma opinião pessoal sobre o problema da regionalização. Que não podia ser, que o Arcebispo não tinha o direito de criticar um órgão de soberania, que não lhe cabia afirmar que o que se tem passado com a discussão ou debate da regionalização constitui um espectáculo confrangedor, que estava a meter foice em seara alheia. Quer dizer, um homem, por ser bispo, perde a categoria de cidadão. O leitor sente-se com o direito de criticar o bispo, mas não reconhece ao bispo o direito de criticar o que entende estar mal.
A outro nível, o Bispo, enquanto homem da Igreja e em nome da sua doutrina, não poderia pôr em causa os vícios da sociedade, as estruturas políticas ou a acção dos políticos, particularmente dos deputados enquanto membros de um órgão de soberania.
Dito de outra maneira: a Igreja para a sacristia, já! Censura imediata a todas as tomadas de posição da Igreja sobre os problemas do mundo contemporâneo! Os Bispos que falem só dos problemas religiosos! Cale-se já a voz da Igreja nos meios de comunicação, porque para isso há competentes jornalistas, distintos políticos, membros de órgãos de soberania, pessoas que mandam cartas aos directores dos jornais! Abaixo a evangelização, viva a livre opinião dos livre pensadores, que não deixam a liberdade dos outros pôr pé em ramo verde.
Estamos perante uma nova e sub-reptícia forma de censura: a televisão pública não pode falar de religião, porque (no entender desses comunicantes) ela não existe na sociedade. A rádio pública não pode transmitir as cerimónias de Fátima, porque elas não existem, não estava lá ninguém, o meio milhão de pessoas que rezaram em comum não são nada comparados com o ateísmo militante (estranha coisa esta de se militar pela negação) de um senhor respeitável! Viva o direito à negação!
5. Todas estas estranhas formas de proceder constituem a face visível de um "iceberg" que se instalou na nossa sociedade. Não tem nada de novo, não deve amedrontar quem quer que seja, mas está instalada em tudo, na mentalidade fabricada pela nova dogmática da laicidade. A laicidade, porém, não é a afirmação de nehuns valores nem princípios: é a negação dos valores e princípios de outrem. Afirma-se, assim, pela negação. Como pode a negação construir algo de positivo? Como pode apresentar ou sugerir dinamismos de criação e de construção à sociedade moderna? Uma dialéctica de destruição apenas pode contribuir para uma certa mentalidade moderna, que perpassa pelas concepções de uma certa juventude, não só de hoje mas das últimas décadas: a contestação (não do mal, mas de tudo), o espírito de destruição, pelo qual se prostitui a natureza, se conspurcam as ruas, os rios e os mares, se deita fogo aos montes e se matam os homens em nome de fictícias independências individuais ou colectivas.
6. Esta inquietação de calar as vozes que proclamam o Bem e apelam à Verdade é um dos mais graves sintomas do nosso tempo. O cristianismo não tem medo de quem o queira amordaçar. Os imperadores romanos já o fizeram, menos talvez do que as formas evoluídas dos tempos modernos. Nenhuma verdade tem medo dos que a querem calar.
Os que pretendem calar os outros são os que têm medo
da verdade.
| C.F. |
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