Pacheco de Andrade



Ética

Decorreu, há dias, no Porto, o 1.º Congresso Português de Ética Empresarial. Num momento em que uma lufada de neoliberalismo atravessa a sociedade ocidental e sopra, também, no nosso país, é oportuno um encontro como este entre empresários portugueses.

Estamos perante um problema cuja solução não é fácil, não porque a fidelidade a um comportamento ético, no mundo industrial, seja uma utopia inalcançável, mas porque a sociedade moderna está verminada por doenças difíceis de tratar. A actual situação em que nos encontramos herdou do passado alguns dos erros e desumanidades que hoje apresenta, mas criou, por sua vez, novos problemas, característicos de uma época em que as políticas de sucesso esquecem que na base da sociedade, e a fundamentá-la, está o homem. Porque este é tratado, cada vez menos, como um ser humano, e cada vez mais como coisa que se deita fora aos quarenta anos.

No congresso do Porto, impressionaram-me duas afirmações. Uma, a de que «as pessoas eticamente correctas vão ser, no futuro, uma minoria. Corre-se o risco de serem uma classe à margem». Outra, a de um empresário que disse não acreditar em códigos de ética, sublinhando que «sabemos que agimos com ética se sentimos satisfação com o que fizemos. Como se tivéssemos comido um doce. Se o acto foi bom para o exterior, isso já é secundário». Num colóquio no Vaticano, realizado em 1991, e em que participaram alguns dos maiores economistas mundiais, os prof.s Ignazio Musu e Stefano Zamagni, depois de ponderarem a complexidade das questões que se levantam, e de não as iludirem, concluíram que «a ideia de que o comportamento moral produz resultados negativos não tem fundamento». Não é difícil saber quem está errado.


Primeira Página Página Seguinte