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"À sedução da voz, a Televisão junta a persuasão da imagem móvel e até o mistério que vem das distâncias" |
| Vasco Hogan Teves |
A caixa que mudou o mundo e se insinua na vida das pessoas até
ao jardim secreto da sua intimidade, é um instrumento válido
da socialização? Karl Popper, um liberal radical
e, por isso, insuspeito, considera-a um verdadeiro perigo
para a democracia.
Perigo que está contido nas próprias virtualidades da Televisão: seduz - o que pode significar manipula; persuade - o que pode querer dizer domina; e com o mistério que envolve, não raro mitifica e distorce a realidade. A aldeia global de que fala McLuhan torna-se artificialmente uniforme reduzindo a diversidade de culturas a uma tábua rasa de ideias feitas.
Não faltam por aí responsáveis de Televisão que, sem quaisquer pruridos, seguros da sua indiscutível impunidade, afirmem que "se deve dar às pessoas o que elas esperam; só assim se está de acordo com os princípios da democracia" (cito). E será esta talvez a raiz do problema: que ideia têm da Televisão as pessoas que a fazem? Porque é essa ideia que determina o conteúdo dos programas. Há, certamente, o referencial dos índices de audiência, mas também esses são condicionados pelo universo de escolhas que é proposto.
Um jovem no limiar da Universidade tem um capital de 15 mil horas de Televisão e 11 mil de escolaridade. Naquelas 15 mil horas terá visto 35 mil anúncios e 18 mil mortes, na sua maior parte violentas; por ano atingem-no 2.500 mensagens sexuais, apresentadas como dado bruto, sem qualquer elaboração moral, muitas vezes associadas à violência; em cada hora de emissão dedicada a crianças apresentam-se em média 25 actos violentos (John Condry). E se o universo fosse outro?
Na área da informação, é deliberadamente a "exibição impudica do sangue e do ódio, que enfraquece as resistências à violência e desgasta as defesas imunitárias preciosamente enxertadas por cerca de dois séculos de cultura democrática" (Jean Baudoin). E é a inclusão de incisos opinativos mais ou menos subrepticiamente no meio de notícias factuais. Mas não é só isso que nos preocupa. É todo o sistema de valores implícito nas mensagens que nos chegam, nos anúncios, nos programas recreativos, nos filmes... As campanhas anti-droga têm-se revelado pouco eficazes, porque, com as mensagens desfavoráveis, outras surgem, subliminares ou mesmo explícitas. Em 36 horas de emissão apuraram-se 14% de mensagens desfavoráveis à droga, 81% de mensagens favoráveis e 4% de mensagens ambíguas (John Condry).
Nomeadamente nas mensagens publicitárias: é mais fácil inculcar valores e contra-valores através dum anúncio de 30 segundos do que numa história longa e complexa. Por isso, as crianças, que são o universo mais vulnerável, têm particular apreço pelos anúncios.
A história das mentalidades, no futuro, vai ter certamente de dividir o tempo em "antes da TV" e "depois da TV". Com efeito, as crianças e os jovens, antes da Televisão socializavam-se por observação e imitação dos adultos. Agora observam e imitam a Televisão - que deforma a realidade para poder captar a atenção e mantê-la; o que é difícil, porque os espectadores facilmente se cansam. Há que recorrer à imaginação criadora. E aí começa a afastar-se da realidade. Como a Arte. Neste caso de arte televisiva, porém, com o efeito perverso de ser uma criatividade ao serviço de interesses comerciais e da suprema lei dos índices de audiência...
Um noticiário que alinha:
- empresário condenado a dois anos de cadeia porque não pagou o IVA para poder pagar aos trabalhadores;
e logo a seguir
- a lei facilitará aos clubes de futebol o pagamento dos milhões de impostos em dívida;
sugere com isto uma realidade sedutora, persuasiva, mas ilusória. Porque se as coisas se passassem assim, com este simplismo, a realidade seria mesmo monstruosa. Mas é isso que fica.
| Ernesto Campos |
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