| Recreativa: |
A actual vantagem dos portistas não tem sofrido contestação. Vencendo nos campos do Sporting e do Benfica, num e outro lado de forma categórica e sem a mais leve sombra de "pecado", os portistas têm demonstrado uma superioridade flagrante que se revela na categoria individual dos seus jogadores, no colectivo da equipa e numa direcção do clube que, aqui e ali pecando, talvez por excesso de regionalismo, tem conseguido contratar excelentes atletas, formando um grupo de cerca de 30 jogadores de craveira muito igual e manter a equipa imune ao clima, por vezes hostil, que se vive no futebol nacional.
Se mérito há (e é inegável) dos jogadores, destacando-se a excelente temporada de Jardel (o brasileiro que, com 16 golos, comanda o pelotão dos melhores marcadores), Edmilson, Artur, Drulovic, Zahovic, Aloísio, Jorge Costa, Sérgio Conceição, Hilário (o jovem guarda-redes que já é considerado uma revelação), mérito há também do treinador Oliveira que, tendo-se notablizado como jogador no Porto e no Sporting, tem demonstrado saber chefiar e gerir os grandes jogadores de que dispõe, mantendo uma coesão que parece faltar por outros lados. Oliveira, que entrou nas Antas sob desconfiança de uma boa parte dos sócios portistas e até da Comunicação Social, já demonstrou que tem não só o "feeling" dos mestres do futebol como a sorte dos audazes. A carreira do F.C. Porto na Taça dos Campeões Europeus, onde segue sem derrotas, perfilando-se como um sério candidato à vitória final, é uma clara confirmação não só da classe dos seus jogadores como da capacidade de Oliveira como treinador.
Por seu turno, o Sporting, agora no segundo lugar da classificação, depois de ter ultrapassado o Benfica, deu, sob o comando de Octávio, um grande passo para se afirmar como sério candidato ao outro lugar português na próxima Taça dos Campeões. Depois de um início de campeonato bisonho, sob o comando do belga Robert Waseige (quem se lembrou de contratar este desconhecedor do futebol português?), a equipa do Sporting, feita de um misto de juventude e veterania (Sá Pinto, Dominguez, Oceano, Hadji, Pedrosa, De Wilde, Pedro Martins, etc.), tem vindo a demonstrar que, no próximo ano e com mais alguns bons valores, vai ser uma difícil concorrente do F. C. Porto à liderança do futebol da I Divisão.
Refira-se ainda que o Sporting, gerido agora por um homem da banca, José Roquete, deu os primeiros passos para se constituir como sociedade desportiva, acautelando o futuro, em que a equipa de futebol, que já iniciou a preparação dos próximas épocas, vai ser a trave mestra do projecto.
Menos feliz tem sido a carreira do Benfica. Dirigido por Manuel Damáio, um homem que se tem enredado na compra a venda de jogadores, os que entram nem sempre de valor claro, os que saem de valor confirmado, o clube da Luz está claramente em declínio, pelo menos no que concerne ao futebol. Perdendo na Luz de forma categórica com o Porto, num momento em que a vitória sobre o clube das Antas colocaria as duas equipas quase lado a lado, o Benfica entrou num ciclo de maus resultados que teve como consequência directa a saída do treinador Autuori e a entrada de Manuel José.
A 16 pontos do F. C. Porto, resta ao Benfica acautelar
a próxima temporada e tentar minimizar os maus resultados
recentes mediante uma boa carreira na Taça das Taças
e na Taça de Portugal.
Clima indesejável
De resto o futebol português, ou antes, os homens do futebol português, tem-se visto enredado em suspeitas e mais suspeitas, num clima em que a palavra corrupção, mais do que os factos comprovantes dessa corrupção, tem sido profusamente utilizada. Nem sempre o apontar do dedo teve correspondência na verdade factual, excepção feita à condenação do árbitro Guímaro, decisão, todavia, não transitada em julgado, já que foi interposto recurso. O que temos hoje é um conjunto de gente desavinda, dirigentes, árbitros, jornalistas, uns e outros na mesma roleta, todos eles, quase sem excepção, falando demais, não medindo - parece... - o alcance das acusações mútuas, trocando "mimos", enfim, uma verdadeira "república das bananas" em que todos querem ter razão e onde é difícil ser juiz.
É lamentável o clima que se instalou: dirigentes que ontem se diziam amigos são hoje reconhecidamente inimigos que nem se falam; assume-se que a "verdade" é efémera e que o que agora se afirma, amanhã se infirma com a mesma veemência, campeando a dissimulação e a mentira descarada; fazem-se juízos de valor unlilaterais, sem qualquer respeito pela opinião contrária; lança-se mão da panóplia das técnicas televisivas para crucificar o árbitro que em campo apenas teve um ângulo (o seu) de visão e teve de decidir no mesmo segundo em que os factos aconteceram; desenterram-se "cadáveres", com o seu cortejo de "vermes", para se denegrir a imagem alheia ou para se provar que quem fez aquilo ontem é capaz de fazer isto hoje...
Basta!
Não há dúvida que é preciso arejar a casa, branquear as paredes, enterrar as "ossadas" dos casos passados e perdidos, esquecer "fantasmas" de outros tempos, enfim, recomeçar... com base numa verdade simples: deixem os jogadores jogar, os árbitros arbitrar, os dirigentes dirigir e que a Justiça seja rápida, imparcial, clara, enfim, justa.
| Bernardino Chamusca |
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