Recreativa:

PONTAPÉ DE CANTO

A meio do campeonato,
Porto é previsível campeão

Terminou em fim de Janeiro a primeira volta do Campeonato de futebol da I Divisão. Apesar de não haver "campeões de Inverno" e de ainda faltarem 16 jornadas para se saber, oficialmente, o nome do campeão, bem se pode dizer que o F.C. Porto merece ser, desde já, considerado como a única equipa que pode, com alguma segurança, afirmar que apenas depende de si própria para se sagrar campeã. Se tal acontecer, como provavelmente sucederá, dados os 13 pontos que os portistas levam de vantagem sobre o Sporting, o FC Porto conquistará pela terceira vez consecutiva o título de campeão nacional, facto que ocorrerá pela primeira vez na história do clube.

A actual vantagem dos portistas não tem sofrido contestação. Vencendo nos campos do Sporting e do Benfica, num e outro lado de forma categórica e sem a mais leve sombra de "pecado", os portistas têm demonstrado uma superioridade flagrante que se revela na categoria individual dos seus jogadores, no colectivo da equipa e numa direcção do clube que, aqui e ali pecando, talvez por excesso de regionalismo, tem conseguido contratar excelentes atletas, formando um grupo de cerca de 30 jogadores de craveira muito igual e manter a equipa imune ao clima, por vezes hostil, que se vive no futebol nacional.

Se mérito há (e é inegável) dos jogadores, destacando-se a excelente temporada de Jardel (o brasileiro que, com 16 golos, comanda o pelotão dos melhores marcadores), Edmilson, Artur, Drulovic, Zahovic, Aloísio, Jorge Costa, Sérgio Conceição, Hilário (o jovem guarda-redes que já é considerado uma revelação), mérito há também do treinador Oliveira que, tendo-se notablizado como jogador no Porto e no Sporting, tem demonstrado saber chefiar e gerir os grandes jogadores de que dispõe, mantendo uma coesão que parece faltar por outros lados. Oliveira, que entrou nas Antas sob desconfiança de uma boa parte dos sócios portistas e até da Comunicação Social, já demonstrou que tem não só o "feeling" dos mestres do futebol como a sorte dos audazes. A carreira do F.C. Porto na Taça dos Campeões Europeus, onde segue sem derrotas, perfilando-se como um sério candidato à vitória final, é uma clara confirmação não só da classe dos seus jogadores como da capacidade de Oliveira como treinador.

Por seu turno, o Sporting, agora no segundo lugar da classificação, depois de ter ultrapassado o Benfica, deu, sob o comando de Octávio, um grande passo para se afirmar como sério candidato ao outro lugar português na próxima Taça dos Campeões. Depois de um início de campeonato bisonho, sob o comando do belga Robert Waseige (quem se lembrou de contratar este desconhecedor do futebol português?), a equipa do Sporting, feita de um misto de juventude e veterania (Sá Pinto, Dominguez, Oceano, Hadji, Pedrosa, De Wilde, Pedro Martins, etc.), tem vindo a demonstrar que, no próximo ano e com mais alguns bons valores, vai ser uma difícil concorrente do F. C. Porto à liderança do futebol da I Divisão.

Refira-se ainda que o Sporting, gerido agora por um homem da banca, José Roquete, deu os primeiros passos para se constituir como sociedade desportiva, acautelando o futuro, em que a equipa de futebol, que já iniciou a preparação dos próximas épocas, vai ser a trave mestra do projecto.

Menos feliz tem sido a carreira do Benfica. Dirigido por Manuel Damáio, um homem que se tem enredado na compra a venda de jogadores, os que entram nem sempre de valor claro, os que saem de valor confirmado, o clube da Luz está claramente em declínio, pelo menos no que concerne ao futebol. Perdendo na Luz de forma categórica com o Porto, num momento em que a vitória sobre o clube das Antas colocaria as duas equipas quase lado a lado, o Benfica entrou num ciclo de maus resultados que teve como consequência directa a saída do treinador Autuori e a entrada de Manuel José.

A 16 pontos do F. C. Porto, resta ao Benfica acautelar a próxima temporada e tentar minimizar os maus resultados recentes mediante uma boa carreira na Taça das Taças e na Taça de Portugal.


Clima indesejável

De resto o futebol português, ou antes, os homens do futebol português, tem-se visto enredado em suspeitas e mais suspeitas, num clima em que a palavra corrupção, mais do que os factos comprovantes dessa corrupção, tem sido profusamente utilizada. Nem sempre o apontar do dedo teve correspondência na verdade factual, excepção feita à condenação do árbitro Guímaro, decisão, todavia, não transitada em julgado, já que foi interposto recurso. O que temos hoje é um conjunto de gente desavinda, dirigentes, árbitros, jornalistas, uns e outros na mesma roleta, todos eles, quase sem excepção, falando demais, não medindo - parece... - o alcance das acusações mútuas, trocando "mimos", enfim, uma verdadeira "república das bananas" em que todos querem ter razão e onde é difícil ser juiz.

É lamentável o clima que se instalou: dirigentes que ontem se diziam amigos são hoje reconhecidamente inimigos que nem se falam; assume-se que a "verdade" é efémera e que o que agora se afirma, amanhã se infirma com a mesma veemência, campeando a dissimulação e a mentira descarada; fazem-se juízos de valor unlilaterais, sem qualquer respeito pela opinião contrária; lança-se mão da panóplia das técnicas televisivas para crucificar o árbitro que em campo apenas teve um ângulo (o seu) de visão e teve de decidir no mesmo segundo em que os factos aconteceram; desenterram-se "cadáveres", com o seu cortejo de "vermes", para se denegrir a imagem alheia ou para se provar que quem fez aquilo ontem é capaz de fazer isto hoje...

Basta!

Não há dúvida que é preciso arejar a casa, branquear as paredes, enterrar as "ossadas" dos casos passados e perdidos, esquecer "fantasmas" de outros tempos, enfim, recomeçar... com base numa verdade simples: deixem os jogadores jogar, os árbitros arbitrar, os dirigentes dirigir e que a Justiça seja rápida, imparcial, clara, enfim, justa.
Bernardino Chamusca


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