Recreativa:

PONTAPÉ DE CANTO

Duas linhas sobre corrupção

A palavra corrupção tem sido o termo mais utilizado na imprensa desportiva nos últimos tempos. A palavra corrupção associada às relações de dirigentes desportivos com determinados árbitros tem sido o mote mais glosado a nível nacional, pouco espaço deixando para os partidos políticos ou para os "dantas" que por aí surgem de tempos a tempos.

Não sei se há ou não corrupção no futebol, embora admita que, como em qualquer outra actividade humana, ela é possível.

O que sei e custa a compreender é que, até hoje, apenas têm sido trazidas para a praça pública suposições, deduções, suspeições... Até o único caso que até hoje foi levado a julgamento - o famoso caso Guímaro - parece, de acordo com o que se lê na Imprensa, que não vai provar existência do crime. Veremos...

As declarações sobre a corrupção chovem de todo o lado. Mesmo um alto ex-dirigente desportivo, juiz de Direito, veio admitir aos microfones da Rádio Comercial que há corrupção no futebol português, nomeadamente ao nível da arbitragem.

Mais uma vez, pela transcrição das declarações que li num jornal desportivo, apenas se falava de "bois" em geral sem lhes dar o nome. Ora, o que tem faltado é gente que "chame o nome aos bois"... guardadas as devidas distâncias!

E é isto que espanta: se as pessoas envolvidas no fenómeno desportivo que é o futebol sabem de ciência certa que há árbitros corruptos, dirigentes corruptos, resultados fabricados, cheques que andam de mão em mão para pagar favores... denunciem os seus autores, apontem-nos a dedo ao Ministério Público, à Polícia Judiciária.

Mas, até hoje tudo se tem ficado pelas suspeitas e por deduções mais ou menos ocas.

De duas uma: ou as alegadas acusações não têm fundamento em factos concretos ou os autores dessas acusações têm medo de ir até ao fim no caminho da denúncia. Se não têm fundamento não devem fazê-las vir a público, pois inquinam o ambiente desportivo com um insuportável clima propício às guerras de palavras, onde a honorabilidade das pessoas é sistematicamente lançada à lama.

Se têm medo e possuem factos concretos peçam a protecção das autoridades, entreguem-lhes as provas e deixem-nas agir.

Se não possuem provas, se ouviram umas "dicas" e não investigaram, se não concluem a investigação jornalística adequada, melhor é ficar calados, pois a simples suspeição não é sinónimo de jornalismo sério, isento, eticamente irrepreensível. E neste domínio não se pode defender e praticar a velha frase de que "para vilão, vilão e meio"...

A moralização do ambiente desportivo passa, antes de mais, pela seriedade da informação, pela recusa da notícia anónima, por um autocontrolo na publicação de entrevistas e de declarações explosivas, cujo fundamento fáctico se esboroa à mais simples tentativa de análise séria e isenta.

A luta contra o clima de suspeição que se instalou passa, antes de mais, pela contenção verbal de todos os intervenientes no fenómeno futebolístico. E essa contenção tem um agente privilegiado: o jornalista, na dupla função de informador e formador da opinião pública


Resultados

Entretanto, o futebol continua a jogar-se e a apaixonar o povo; da jornada do passado fim de semana, permitimo-nos destacar dois factos: a vitória do F.C. Porto em Alvalade, por 1-0, relegando o Sporting para o 3º lugar na classificação, e a vitória do Benfica sobre o Salgueiros (1-0), permitindo aos encarnados isolarem-se no primeiro lugar, com mais dois pontos que os portistas.

Em semana de competições europeias, esperamos que todas as cinco equipas portuguesas possam conseguir um êxito tão vistoso como em Setembro quando todas seguiram em frente, vitoriosamente, nas respectivas provas.
Bernardino Chamusca


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