Cultura:

Timorite

A nossa comunicação social assume, por mérito ou por demérito (não o quero discutir agora e aqui), por pretensão mal calculada ou por uma espécie de voluntarismo excessivo e muitas vezes suicida, em relação a grande número de questões do mundo contemporâneo, uma atitude de tipo normativo e moralista, com o qual pretende impor os seus padrões de comportamento e as suas concepções superficiais e redutoras à generalidade do vulgo destinatário. O grande mal desta atitude resulta sobretudo da evidência atávica de a nossa população, mesmo a lente (entenda-se: a que lê) ser essencialmente pouco esclarecida e possuir uma mentalidade provinciana (no sentido de aceitar acriticamente todas as novidades só pelo facto de serem novidades).

Uma das temáticas em que essa espécie de doença infantil da comunuicação, que é o gosto pelo sensacionalismo e pelas ideias feitas, mais se tem manifestado ultimamente é o caso triste e digno de memória qual é a situação que se viveu e de vive em Timor.

O prisma pelo qual o assunto é geralmente tratado é o da confrontação. Raramente se procura ou se promove um espírito de diálogo. Entende-se que todos são obrigados a ter sobre o problema daquele território as perspectivas que temos nós, à distância em que estamos e com os erros de paralaxe que a nossa posição cria em relação ao objecto da análise.

Aproveita-se afrontasamente o conflito para atacar quem assume posições menos extremas e mais moderadas, enquadradas por uma visão menos particularista e mais universalizante.

Para a comunicação social o caso de Timor é um dogma, no sentido mais estaticista que esta palavra possa ter. É um preconceito instalado e indiscutível, uma espécie de tema-tabu de que apenas se conhece a versão oficial.

Transforma-se assim num trampolim para catapultar pedras de arremesso sobre entidades que têm do problema uma visão mais profunda. A torre mais visada por essa arma de arremesso é a Igreja Católica. Qualquer jornalista sabe dogmaticamente, com milimétrica precisão, qual a posição "verdadeiramente correcta" que o Papa e a Santa Sé deveriam tomar em relação a Timor. Ouvem-se ou lêem-se então enormidades como estas: que o cardeal Ratzinger fez um belo discurso em Fátima mas não se refere a Timor! Timor como dogma, está claro.

Nenhuma comunicação social se preocupa por não se falar de outro tipo qualquer de problemas, mesmo muito mais graves, mas que não competia abordar naquelas circunstâncias. Se não se falar de Timor, eis uma ofensa a todos os deuses das mentalidades informantes.

Depois da exaltação da outorga do prémio Nobel ao Bispo de Dili e a Ramos Horta (à qual nos associamos gostasamente), a nossa comunicação social ficou estarrecida quando soube que o próprio bispo Ximenes Belo se apresentou num encontro com Suharto, a quem apertou a mão, na cerimónia de inauguração de uma estátua de Cristo Rei em Dili. Fosse o Papa a fazer isso, e veríamos toda a comunicação social, os cantores do rádio, os actores da televisão e numerosos deputados da nação (os menos sensatos) protestando energicamente porque se dava apoio sacrílego ao regime indonésio.

Retive (e a comunicação social faria bem em reter igualmente e a aprender com ela) a resposta, de amplo espectro didáctico, dada por um bispo, que suponho ter sido o enviado da Santa Sé à cerimónia referida, e que soou mais ou menos assim: O Bispo Belo recebeu o Nobel porque é um homem de diálogo e porque trabalha pela paz e pela reconciliação.

Eis o problema caucionado nas suas rigorosas margens: trata-se do esforço pela paz e não pelo confrontação; é uma questão de diálogo, e não de afrontamento.

O pior serviço que se pode prestar a uma causa é transformá-la em cruzada.

A causa de Timor necessita de uma solução pacífica e dialogante. O Bispo Belo tem sempre assumido essa atitude. Se a comunicação social social soubesse assumir a mesma perspectiva, por certo prestaria ao povo timorense um serviço muito maior e melhor que as atitudes fundamentalistas e de irracional investida que a têm vindo a caracterizar e que traduzimos, talvez de forma redutora, pela doença infantil a que chamamos timorite.
C.F.
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Levi Guerra pintor

O nosso colaborador de Reflexões Livres, Levi Guerra, apresentará no sábado, pelas 18 horas e na Misericórdia do Porto a sua segunda exposição de pintura, sob a designação de «Da Imagem à Arte». No dia 10, em entrevista a «O Comércio do Porto», o Prof. Doutor Levi Guerra falou da reflexão como «essência do fenómeno investigativo» e por isso dera como nome à primeira exposição, em 1984, na Fundação Eng. António de Almeida: «Pintar também é investigar». Insistindo que investigar é «um estado permanente de querer descobrir a verdade», Levi Guerra lembra que a Arte «é uma forma superior de perceber e comunicar com o mundo», exigindo como requisitos fundamentais os de «saber olhar e saber escutar». Ela é para quem a ela se dá «um apelo permanente à projecção material de uma interioridade enamorada pelo que vai fazendo».

Falou ainda da necessidade de criar espaços de silêncio na vida, de saber «prestar uma atenção concentrada ao fluir constante e automático da imaginação», donde vêm «pensamentos em catadupa». E a arte nasce de uma tensão criadora, «que não é ansiedade mas emoção criadora e fonte de um agir perseverante». E por isso mobiliza «a globalidade do ser» e oferece-lhe «estados privilegiados de felicidade», ainda que passados longe do mundo. Denunciou a arte que se encaminha para a destruição do sentido estético e perverte sentimentos e valores. E manifestou o seu apreço pela pintura que «se lança na busca da essência do ser» e a sua opção pela transparência «como revelação do interior das coisas».

Lembra ainda que pintar é para ele um descanso e que a oração é insubstituível para nos tornarmos transparentes perante Deus, a nossa consciência, os outros e os acontecimentos que se enfrentam e vivem».

Disse por fim que não apresentara a sua obra antes para se poupar a malévolas críticas, mas que agora, com a carreira quase concluída, deixou de ter problemas de expor a sua obra de cerca de vinte anos. E finalizou dizendo que ainda poderá ser útil a alguém. «Por mim creio que é cumprir um dever de solidariedade e de partilha».

Para além disso, será inaugurada em 7 de Dezembro, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, uma outra exposição em homenagem a Abel Salazar, nos 50 anos da sua morte.
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Ruiz de la Peña

Vítima de cancro faleceu em Oviedo, no dia 27 de Setembro, Juan Luis Ruiz de la Peña, teólogo espanhol com muitos discípulos também em Portugal. O funeral, na Catedral de Oviedo, foi presidido pelo arcebispo Gabino Diaz Merchán e a participação de 120 padres e de representações das universidades Pontifícia de Salamanca, Burgos e Oviedo.

No ano passado, em Dezembro, Ruiz de la Peña tinha sido submetido a uma operação cirúrgica que lhe retirou o estômago, o baço e parte do esófago. Venceu essa dificuldade e até Julho encontrava-se bem. Depois foi perdendo peso até chegar aos 46 quilos, sem possibilidades de nova intervenção mas apenas com tratamentos de quimioterapia. Desde há tempos vivia no Seminário de Oviedo.

Nascido em 1 de Outubro de 1937 nas Astúrias, doutorou-se na Universidade Gregoriana, em Roma, tendo estudado Música em Oviedo, Madrid e Roma. Era um bom organista.

Ao longo da sua actividade docente foi professor no Seminário de Oviedo, na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha, em Burgos, e depois na Universidade Pontifícia de Salamanca, onde leccionava Antropologia Teológica. Era directror da colecção de manuais de Teologia «Sapientia Fidei», editada pela Biblioteca de Autores Cristianos.

As suas obras, em óptimo castelhano, foram traduzidas em muitas línguas. As primeiras são sobre a morte e a escatologia: «O Homem e a sua Morte» (1971), «A Outra Dimensão. Escatologia Cristã» (1975), «Morte e Humanismo Marxista» (1978), «O Último Sentido» (1980), «As Novas Teologias. Um repto à Teologia», «Teologia da Criação» (1986), «Imagem de Deus» (1981), «O Dom de Deus» (1991) e, por último, «Crise e Apologia da Fé».
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