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As nossas sociedades ocidentais têm como objectivo primordial a promoção do desenvolvimento económico, na esperança de que, através dele, o homem possa ter acesso a uma vida melhor. Possuir mais é sinónimo de maior bem estar e de maior felicidade. O aumento do poder de compra, constantemente exigido nas lutas sociais, é supostamente necessário para que o homem desfrute de uma vida mais feliz.
Estamos aqui perante um equívoco: a identificação do ter com o ser. Ora a felicidade está na linha do ser e não do ter. A experiência, a nossa e a dos outros, comprova-o todos os dias. A confusão nasce de, por vezes, o ter algo tornar-se para nós num sonho que, irrealizado, nos frustra e, quando realizado, nos dá uma grande satisfação. Mas esta é passageira, como bem sabemos, porque logo partimos para outra. As condições da vida de hoje para a maior parte das pessoas do nosso mundo ocidental são muito superiores em bem estar, naquilo a que chamamos o nível de vida, às condições de vida dos que nos precederam há alguns anos atrás, mesmo daqueles que dispunham de uma maior poder económico. E, no entanto, a insatisfação continua a alimentar as lutas sociais. A busca do bem estar deveria identificar-se com o bem ser e não com o muito ter. Só que isto não convém à ordem económica que impera no nosso mundo. É preciso ter sempre mais e sempre novas coisas para alimentar os circuitos de produção e de comércio. Assim, a publicidade está voltada sobretudo para o ter e muito pouco tem a ver com o ser. Pouco interessa que as pessoas sejam incultas, desde que tenham suficiente poder de compra para esvaziar os super-mercados.
A busca do bem estar é legítima, é mesmo uma lei inscrita na natureza humana. Ao longo da história, o homem sempre procurou facilitar a sua vida, torná-la mais agradável, dominando a natureza e eliminando, quanto possível, tudo o que representa sacrifício.
Mas quando se convence de que a felicidade depende das coisas, torna-se escravo delas, em vez de as pôr ao seu serviço. Gandhi, num dia em que conseguiu fazer a barba sem o espelho que havia esquecido, declarou: sou mais livre!
Dentro dos parâmetros da ordem económica deste mundo o poder de compra de quem vende o seu trabalho é algo que precisa de uma constante actualização.
É curioso verificar que esta sociedade tem potencialidades para integrar no seu sistema os próprios movimentos de contestação. É aquilo a que Marcuse chamou de tolerância repressiva. Exemplo disto foi a forma de vestir contra todas as regras, adoptada por certa juventude contestatária, que acabou por ser assumida pela própria sociedade e tornar-se moda, com largos proveitos para algumas marcas de vestuário.
Esta luta pelo ter não obedece a regras, de modo que proporciona a vitória apenas aos mais fortes. A única lei é a da selva, a luta animal pela sobrevivência da espécie. Aqui não há lugar para a solidariedade humana e cristã.
Isto constitui, de facto, uma ameaça para a vivência dos valores evangélicos. É preciso possuir uma consciência muito forte e esclarecida da mensagem de salvação do Evangelho para contrariar a influência que em todos nós exerce o ambiente materialista desta sociedade em que vivemos. O utilitarismo comanda toda a actividade humana - que vantagens posso tirar daí? pergunta-se constantemente. O serviço gratuito ao outro vai-se tornando uma excepção.
O cristão tem de ser, hoje mais do que nunca, o fermento de uma nova postura na vida, em que os valores fundamentais que se cultivam sejam os do espírito, as riquezas que se buscam sejam as que a ferrugem não destroi e os ladrões não podem roubar. E isto não só como uma postura individualista, à maneira do que se passa neste mundo, mas pela integração numa comunidade, em que se exercite a solidariedade para com todos: pobres, marginalizados, idosos, doentes, sós...
E, para além disto, como viver a pobreza evangélica, o desprendimento, o sentido da dor e do sofrimento? Integrar estes valores na vida (e na educação dos mais novos) não é fácil para quem está inserido nesta sociedade, que utiliza os mais poderosos meios de comunicação para transmitir uma filosofia de sinal totalmente contrário.
| Gonçalves Moreira |
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Do Relatório da Congregação
para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos
A Revista Notitiae apresentou, no seu número de Junho-Julho
passado, o relatório do Secretário da Congregação
para o Culto divino e disciplina dos sacramentos, sobre os principais
problemas apontados pelos relatórios das Igrejas particulares,
nas visitas «ad limina», bem como as orientações
dadas pela Congregação. O relatório refere-se
às visitas realizadas entre 1991 e 1995 pelas Igrejas de
Angola e São Tomé, Espanha, Argélia, Tunísia,
Marrocos, França, Áustria, Uganda, Ruanda, África
do Sul, Camarões, Checoslováquia, Zimbabwe, Bélgica,
Suíça, Irlanda, Tanzânia, Escócia,
Croácia, Eslovénia, Alemanha, Portugal, Holanda,
Polónia, Hungria, Gana, Lituânia, Letónia,
Moçambique, Austrália, Papua Nova Guiné e
Ilhas Salomão, Pacífico, Nova Zelândia, Canadá,
USA, República do Congo, Nigéria, Salvador, Panamá,
Antilhas, Uruguai, Nicarágua, Guatemala, Porto Rico, México,
Equador, Cuba, Peru, Chile, Brasil, Argentina, Venezuela e Índia.
Este relatório, dada a diversidade de países e continentes,
dá-nos uma amostragem muito interessante da situação
da pastoral litúrgica no mundo. Por esse motivo, pareceu
útil reproduzir nesta coluna alguns extractos mais significativos,
para conhecimento, reflexão e orientação
dos animadores e responsáveis paroquiais da pastoral litúrgica.
Dos muitos encontros que a Congregação teve com os Episcopados em visita ad Limina percebe-se que continua a haver um grande entusiasmo pela reforma litúrgica posta em marcha pelo Concílio.
A renovação suscitada pela SC (Constituição sobre a Sagrada Liturgia) suscitou, por toda a parte, uma maior consciência e participação na Liturgia. Os relatórios quinquenais e os testemunhos dos Bispos nos referidos encontros atestam-no.
Tal progresso manifesta-se logo ao nível da organização. Dá-se atenção à estrutura da vida liturgico-sacramental, multiplicando, tanto a nível diocesano e inter-diocesano como paroquial e de cada comunidade, as comissões e os grupos de trabalho que se ocupam da animação da Liturgia, da preparação e celebração dos sacramentos.
Para além disso, diversas dioceses elaboraram Directórios sacramentais próprios, alguns dos quais já estão em segunda e terceira revisão. São sobretudo os relatórios da América Latina que fazem referência à existência de tais Directórios, nos lugares onde, por falta de clero, se recorreu mais à suplência dos leigos na preparação e administração dos Sacramentos. Para além disso, é frequentemente assinalada a existência de Planos pastorais diocesanos, nos quais a vida liturgico-sacramental ocupa um espaço relevante. Com tais esforços de programação e de coordenação, não só se conseguiu uma maior harmonia de critérios e de actuações que torna mais crível e eficaz a renovação, mas, ao mesmo tempo, criou-se uma dinâmica de participação e de formação que resultou, a todos os níveis, benéfica para toda a vida eclesial.
A Congregação encoraja tais iniciativas, convidando
à maior harmonia possível, não só
dentro da Diocese, mas da própria Província ou,
pelo menos, entre Dioceses vizinhas. Assim se poderá evitar
o rigorismo de alguns ou a facilidade de outros, que frequentemente
desorienta os fiéis e os leva a procurar noutro lado a
prática sacramental.
Este relatório que agora publicamos, tem o interesse de nos pôr em sintonia com a Igreja em todo o mundo e de nos encorajar a um trabalho persistente num sector tão vital na vida das comunidades.
| S.D.L. |
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Fiquei surpreendido, e talvez não devesse ter ficado, com as posições do Padre Mário de Oliveira na entrevista de ontem, Domingo, dia 13, na SIC. Comentava-se o resultado das respostas à pergunta lançada ao "povo" sobre se concordava ou não com o casamento dos padres.
É óbvio que as pessoas mais directamente interessadas no processo terão feito chamadas telefónicas sem qualquer controlo sobre a repetição feita pela mesma pessoa.
1.ª Observação: - Fundamentar nesta base, e com as fragilidades metodológicas evidentes, um pretenso referendo, é éticamente reprovável.
O Sr. Padre Mário é ainda um sacerdote da Igreja Católica em que, a certa altura, e não desde o princípio, foi decidido instituir-se o celibato sacerdotal. E isso aconteceu, não certamente por razões de circunstâncias sociais, nem certamente, embora se diga o contrário, por razões de pura disciplina interna, mas sobretudo por razões evangélicas posteriormente revaliadas e adoptadas pela própria Igreja na base do Evangelho, e em que Jesus disse que " há os que se fizeram castos (eunucos a si mesmos) por amor do reino dos céus. Quem puder compreender, compreenda (S.Mat. 19,12)". Há ali uma vocação sobrenatural, segundo a fé, um chamamento de Deus: " Ninguém arroge esta honra, mas sim quem tenha sido chamado por Cristo (hebre.5,4), e que, como diz o Catecismo Católico (#1579),... chamadas a consagrarem-se sem partilha ao Senhor... o celibato é um sinal desta vida nova ao serviço... do Reino de Deus.
2.ª Observação: - Quem faz uma escolha prévia livre, esclarecida e lúcida, que sabe única e indelével como é o caso da ordenação sacerdotal, não pode vir depois invocar razões de que o celibato é um estado contranatural, porque não o é. É sim um estado exigente, isso sim, em ordem à dignidade e à missão a que está destinado, e que no caso do sacerdote é uma vida santa e consagrada, como no matrimónio é a fidelidade conjugal, no Presidente da República o patriotismo sem fendas, nos responsáveis em qualquer sector da vida social uma grande dignidade de conduta em toda a sua vida pública e privada. Essa capacidade para tais exigências só o homem as pode ter, não os animais, porque só o homem tem liberdade. Assim, até os apetites sensoriais, incluindo os de natureza sexual, tomados na sua expressão "genitalista", são subordináveis à razão humana, e só são incontroláveis nos animais que, esses não tem inteligência nem vontade mas estão sujeitos às forças do instinto que é uma faculdade perfeita para a satisfação perfeita dos apetites sensoriais. Só o homem pode levar uma vida casta porque só o homem pode dominar apetites. se for normal, e por isso suficientemente humilde, poderá sempre dispor da "força" de Deus porque, quando Deus chama, põe ao mesmo tempo recursos à disposição do homem para lhe reforçarem as forças naturais que já possua. Quem os desconhece? A oração e os sacramentos. Pode lá exigir-se a algum atleta que corra a maratona sem lhe ir dando água pelo caminho?
Por tudo isto, e muito mais, não se pode invocar o Antigo Testamento, David, Salomão, o Cântico dos Cânticos para se fazer a apologia do "amor livre", como clara e despudoradamente o Padre Mário fez, o que é a todos os títulos abusivo e indigno, e ainda porque, se dúvidas houvesse, Jesus Cristo veio completar essa Lei.
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