Recreativa:

Alguns livros

CAMINHOS DE SANTIAGO

A peregrinação realiza uma parábola autêntica da vida, solicitando a totalidade do homem, das suas faculdades e dos seus desejos, ao que o carácter colectivo vem dar maior intensidade e mais ampla gama de sentimentos. Por isso ela se afirma como criadora de sentidos e de memórias, estruturados numa dupla geografia: a que consolida em sinais, monumentos e povoações os caminhos percorridos; a que sonda e formula os cabos, tormentas e certezas da experiência espiritual do peregrino - escreveu José Maria Cabral Ferreira em Peregrinar, texto incluido em Caminhos Portugueses de Peregrinação a Santiago.

Tudo isto surge neste livro editado pela Xunta de Galicia e pelo Centro Regional de Artes Tradicionais (Porto) em 1995, um livro-documento indispensável para conhecer os itinerários portugueses do Caminho de Santiago e, em consequência, permitir uma melhor identificação com a cultura em que a peregrinação se desenvolveu.

Um grupo ilustre de colaboradores deu corpo a esta magnífica iniciativa, permitindo-nos salientar, por ser um dos mais lidos e perseverantes colaboradores da Voz Portucalense, o trabalho de Arlindo de Magalhães Ribeiro da Cunha responsável pela Identificação dos Caminhos e pela Coordenação da Investigação.

Este precioso livro, cuja qualidade de impressão se deve destacar, não se limita a identificar, milimetricamente, diríamos, os itinerários jacobeus, como também, através de abundante fotografia (sempre de excelente qualidade), resume toda a simbologia distintiva dos itinerários para Compostela: a calçada, a escultura, a arquitectura, a toponímia. (1)

De resto, e tendo presente a experiência que Arlindo de Magalhães adquiriu em várias deslocações a Compostela pelos caminhos portugueses, todos os itinerários conhecidos são apresentados em forma de jornada diária (passe o pleonasmo) distinguindo os trajectos Porto-Barcelos-Valença, Porto-Braga-Ponte de Lima (onde entronca no itinerário anterior), Viseu Chaves, bem como o denominado caminho leonês ligando Alcanices a Segirei por Bragança, Soeira, Vilar de Ossos e Frades.

Dois outros aspectos enriquecem especialmente este livro: por um lado são dados à estampa cinco notáveis estudos sobre os caminhos e, por outro, além de diversas informações úteis, apresenta-nos, sistematicamente, a rubrica Saber mais onde se destacam algumas especificidades ligadas às povoações, à arquitectura, à fauna, a personagens históricas, etc., por onde seguem os caminhos.

Os cinco estudos mencionados são da autoria de José Maria Cabral Ferreira - Peregrinar -, José marques - O culto de S. Tiago em Portugal e no antigo Ultramar Português -, José Mattoso - O Tempo Hispânico a Invenção de São Tiago -, Arlindo de Magalhães - A Compostela, por caminhos e caminhos... -, e Carlos Alberto Ferreira de Almeida - Caminhos Medievais no Norte de Portugal.

Dentro desta temática deve ainda referir-se a monografia de Arlindo de Magalhães A Caminho de Santiago (Da Serra do Pilar a S. Pedro de Rates), publicada em 1992, profusamente anotada, onde é minuciosamente descrito, com recurso a abundantes anotações e fotografias, o itinerário que constitui as duas primeiras jornadas do caminho jacobeu do Porto para Valença. Esta monografia é a primeira incursão de Arlindo de Magalhães no tema dos Caminhos de Santiago, matéria que estudou demorada e pacientemente no terreno, percorrendo literalmente passo a passo cada caminho, cada ramificação, fotografando e anotando tudo quanto lhe surgia ligado a Santiago, o que faz deste Padre do Porto um dos maiores especialistas em temas jacobeus.

Fruto, aliás, deste interesse é um outro livro que me apraz registar - S. Gonçalo, História ou Lenda? - e que constitui, no dizer de Amaro Gonçalo(2), um olhar sério e sereno (...) que ultrapassa de longe o <<edificante>> para ser caminho de busca onde o Autor se guia mais por acenos do que por certezas, mais por sinais do que por evidências.

O livro sobre S. Gonçalo surgiu no pensamento de Arlindo de Magalhães no decurso dos estudos sobre os Caminhos de Santiago, por ter encontrado frequentes associações, senão mesmo confusões, entre os dois santos. O Autor questiona em título (e é esse o escopo do livro) a historicidade de S. Gonçalo, mas deixa claro que a historicidade da sua figura pode ser uma questão secundária ao lado da realidade inquestionável da magnitude do seu culto, concluindo: Tenha sido padre diocesano, cónego de Santa Maria em Guimarães, beneditino ou dominicano, tenha - quase por certo - passado de uma condição a outra, nenhuma destas hipóteses esbate a riqueza e o vigor da sua figura.

Uma derradeira palavra para a forma como Arlindo de Magalhães trabalha os seus textos. A leveza da frase e a agilidade do texto são uma das características deste autor. Apesar de, escudado em Torga e Aquilino, recusar a designação de escritor(3) e de preferir ser apodado de escrevedor, Arlindo de Magalhães prima pela objectividade, pela precisão e pela síntese de que resulta uma prosa clara, limpa, fácil de apreender e que propicia um verdadeiro prazer de ler.

(Caminhos Portugueses de Peregrinação a Santiago. Itinerários Portugueses. Ed. Xunta de Galicia, Galicia-Norte de Portugal Comunidade de Trabalho, Centro regional de Artes Tradicionais, Comissão de Coordenação da Região do Norte. 1995.

Arlindo de Magalhães, A Caminho de Santiago (Da Serra do Pilar a S. Pedro de Rates). Ed. Associação de Amizade de S. Pedro de Rates. 1992.

Arlindo de Magalhães, S. Gonçalo, História ou Lenda?. Ed. Amarante Magazine, 1995.)
Bernardino Chamusca


(1) Armindo Ferreira, Nota de Apresentação in A Caminho de Santiago (da Serra do Pilar a S. Pedro de Rates).

(2) Amaro Gonçalo, Pároco de S. Gonçalo - Amarante - Uma pessoa de verdade. O autor e a figura in S. Gonçalo, História ou Lenda?

(3) Na sessão de apresentação do livro sobre S. Gonçalo, acto que ocorreu em 24/02/96, na Sacristia da Igreja da Serra do Pilar, Arlindo de Magalhães declarou textualmente: Eu não sou um escritor. Consigo pôr algumas coisas por escrito, é verdade, mas não sou escritor. Quando muito sou um escrevedor. Algumas coisas que tenho escrevido saem-me de observar os passos da ida ou são-me pedidas pela vida, não porque tenha seja o que for a ensinar mas porque de qualquer modo tenho carregado esta vocação de pedagogo.


Doutor Arlindo Cunha

No dia 13 de Junho defendeu tese de doutoramento em Teologia Dogmática na Universidade Pontífícia de Salamanca, Espanha, o P. Arlindo de Magalhães Ribeiro da Cunha, padre da diocese do Porto e colaborador da «VP». A tese teve como orientador o Prof. Francisco Martín Hernandez e foi-lhe dado o título «S. Gonçalo de Amarante, um vulto e um culto». Depois de ter sido, ao longo de anos, educador no Seminário Maior do Porto, o P. Arlindo foi como presbítero para o mosteiro da Serra do Pilar, V. N. de Gaia, onde fez crescer uma comunidade com características especiais no que diz respeito ao acolhimento de cristãos desenraizados de suas paróquias, catecumenato e apelo à coerência do testemunho de vida cristã. Ao longo de quatro anos o P. Arllindo esteve em Salamanca, tendo a comunidade da serra do Pilar sido entregue a uma equipa de leigos, devidamente instituídos nesse ministério pelo Arcebispo-bispo do Porto, D. Júlio Rebimbas. Mas, nem por isso, deixou de ter o apoio do Presbítero, muitas vezes em todas as semanas. O Doutor Arlindo Cunha vai prosseguir estudos agora em Madrid, no Instituto Superior de Pastoral, pertencente também à Universidade de Salamanca, onde fará especialização em Teologia Pastoral.


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