Recreativa:

Um passo em frente na comunicação social

O dia 15 de Setembro marcou o início dos tempos de emissão das Confissões religiosas na RTP2, nos termos do artº 25º da Lei 58/90, que estabelece um período de emissões diárias, até duas horas, a título de serviço público.

Estamos perante um acontecimento de especial relevância, que ultrapassa a simples área dos media, para se projectar no âmbito mais vasto da sociedade, do Estado e da cultura.

O referido artigo do diploma legal que regula toda a actividade da televisão veio consagrar, no campo religioso, o princípio constitucional da liberdade de expressão e de informação, um direito fundamental da pessoa humana.

Na verdade, o direito de informação ficaria comprometido, se dele se visse excluído um campo tão importante e decisivo como é o religioso. Por isso mesmo, o que, antes de mais, se impõe assinalar é o que se refere à valorização das comunicações sociais, que aquele acto representa.

A televisão, como, aliás, os restantes meios, deve ser o espelho da sociedade, com o seu carácter multiforme, nos diferentes aspectos, instituições, tradições, concepções de vida entre os quais ocupam naturalmente um posto especial as confissões religiosas. Num panorama sadio e sério do meio televisivo, deverá ter tratamento adequado o fenómeno da fé, juntamente com as restantes componentes sociais, como a cultural, a política, a económica e a desportiva.

As emissões televisivas, a que fazemos referência, representam pois a afirmação de uma sociedade que pretende construir-se na liberdade e no diálogo.

Outro aspecto que merece igualmente ser posto em evidência neste momento diz respeito ao espírito ecuménico e inter-religioso que presidiu a todo o processo que conduziu à concretização da norma legal. Convém recordar, a este propósito, que o protocolo que estabelece os termos práticos de presença de cada confissão religiosa nos tempos de emissão é fruto dum longo trabalho de colaboração e comunhão.

No que se refere à Igreja Católica, de implantação maioritária na sociedade portuguesa, o seu programa, intitulado precisamente ECCLESIA, e que nos termos legais ocupará a maior parte do tempo, pretende ser uma presença dialogante no «forum» da comunicação. Nesse sentido, será uma voz a transmitir a vida e a mensagem cristãs, os valores evangélicos e o testemunho vivencial das comunidades, instituições e movimentos eclesiais. Ao mesmo tempo, traduzirá o esforço por escutar o coração do homem e do mundo contemporâneos, com os seus projectos, êxitos, aspirações, alegrias e fracassos, procurando levar-lhes a luz de Cristo. Será, deste modo, um espaço ao serviço da comunhão e do progresso no seio da nossa sociedade.
D. Maurílio Gouveia,
Presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais
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Programas e perguntas no ar

Porquê programas Religiosos na RTP2?

Temos de remontar ao início dos anos 80 e ao fenómeno das televisões e rádios privadas na Europa. Em matéria de televisão a concepção até aí alimentada tinha a ver com uma espécie de socialismo duro: «as grandes unidades de produção devem estar nas mãos do Estado». E em Portugal declarava-se, com sonoros dogmas, que «a televisão é como uma central nuclear; não pode estar nas mãos de comerciantes inconscientes que visam apenas o lucro. Se tal acontecer a grande vítima será o povo».

Mas o movimento foi imparável. Acompanhei, nessa altura, o caso de Itália que, por um escorregão legislativo, permitiu a existência tresloucada de 800 canais de televisão e 3000 de rádio. Até que a purga do tempo gerou impérios de multimedia que liquidaram os mais frágeis.

A Igreja em Portugal seguiu com atenção esta eclosão e compreendeu, em primeiro lugar na expressão de D. António Ribeiro, Cardeal Patriarca de Lisboa, que era preciso adiantar-se ao inevitável: a privatização. E nesse ano propõe ao Governo um canal para a Igreja Católica. O sim foi dito, mas não cumprido. Em 1985 a proposta é assumida pela Conferência Episcopal. Entre sins, nãos e talvez, abriu-se a porta à privatização da Televisão. A Igreja acabou por perder a entrega do canal que pretendia, mas deixou aberta a um grupo de cristãos a hipótese de concorrerem, em igualdade de circunstâncias, com outros pretendentes (TVI e SIC). Entretanto a discussão entre Governo e Igreja Católica ficou aparentemente absorvida pela concessão - não dádiva - de alvará à TVI, um dos três concorrentes.

Com isto ficou a opinião pública um pouco baralhada e até convencida que tudo tinha sido concedido à Igreja. A TVI sempre sofreu, entre cristãos e não cristãos, a ambiguidade subliminar de pertença ou não, total ou parcial, à Igreja Católica. Da discussão anterior, porém, ficou uma espécie de terceira via que se traduziu, em 1990, na concessão às Confissões Religiosas «até duas horas diárias» na Televisão pública.

Para já será utilizadas apenas 30 minutos. Mas é ainda cedo para julgar com rigor o resultado de toda esta engenharia política que acabou por abrir as portas às várias Confissões Religiosas que, entre si e com a RTP, foram discutindo com o discernimento possível quanto tempo caberia a cada uma, quantas Confissões entrariam neste convénio e por fim, a parte mais complexa, definir o que é uma Confissão Religiosa.

O que agora se faz é um puro acto de justiça. Mas de alguma forma é um emendo ao incumprimento de uma promessa politicamente suspensa.

O tempo decantará muitas questões que pairam no ar.
António Rego,
Secretário da Comissão Episcopal e Director do Sec. Nac. Comunicações Sociais
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PONTAPÉ DE CANTO

Pouca Europa, muito Benfica

Em vésperas do Outono, temos tido pouca Europa e muito Benfica. Pelas piores razões.

Pouca Europa, porque na primeira ronda das competições europeias apenas o Sporting, em Alvalade, contra o Mónaco, conseguiu uma vitória (3-0). Muito Benfica, porque, com mais uma derrota (3-1) em Vila do Conde, frente ao Rio Ave, os lisboetas estão na cauda da tabela classificativa e, de uma assentada, demitiram a equipa técncia e colocaram os corpos sociais em estado de demissão.

Pouca Europa, porque se esperava mais. Esperava-se mais do Porto, que saiu derrotado de Atenas (1-0), perante o Olimpiakos; esperava-se mais do Boavista que perdeu em casa (Taça das Taçs) com uma equipa ucraniana, o Shaktior Donetsk (3-2); esperava-se mais do Benfica, apesar da crise a nível interno, batido na Córsega pelo Bastia (1-0); esperava-se algo mais do Vitória de Guimaraes que foi goleado por uma super-Lazio (4-0). Ficou pelo que se esperava o Braga que, na Holanda, frente ao Vitesse, embora perdendo por 2-1, pode rectificar o resultado em Braga, mantendo-se na Taça UEFA.

Muito Benfica, porque ninguém percebe como uma equipa recheada de bons jogadores joga tão mal, perde tantos golos, descrê e deixa-se dominar por equipas claramente menos apetrechadas como é o caso do Setúbal (derrota por 1-0) e agora do Rio Ave, que, mesmo sendo a equipa-sensação deste início de campeonato (tem os mesmos 9 pontos que o Guimarães) gasta com todo o plantel seguramente menos do que o Benfica com João Pinto, Gamarra e Paulo Nunes...

Muito Benfica e pelas piores razões, pois um treinador com a experiência de Manuel José não pode sair da cabeça baixa como o fez ao fim de um semestre na Luz, depois de ter prometido (e sucessivemente adiado) pôr os encarnados a jogar à Benfica... Não conseguiu, sai amargurado, deixa António Oliveira (Toni) em maus lençóis, pois foi quem o escolheu e levou para a Luz, deixa o Benfica com oito pontos perdidos em doze possíveis a escassos dias de um muito esperado jogo com o Sporting.

Pouca Europa - veremos até onde o Sporting e o Porto conseguem chegar na Liga dos Campeões (com melhores perspectivas, neste momento, para os "leões"), aguardar que o Benfica anule a desvantagem trazida da Córsega, ver se o Braga leva de vencida os homens do Vitesse e se o Boavista dá a volta ao resultado, já que parece não haver milagre que salve o Guimarães.

Muito Benfica - esperemos que serenados os ânimos, eleitos novos corpos sociais em fim de Outubro, os "encarnados" reencontrem o bom caminho porque faz falta ao futebol português um Benfica ao seu melhor nível.
Bernardino Chamusca
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