Cultura:

A Igreja e os Media

1. O novo Bispo do Porto, em entrevista à Rádio Renascença, repôs oportunamente a questão da necessidade da existência de um diário de expansão nacional (e de expressão nacional, penso) e de clara inspiração cristã. É certamente oportuna esta procalamação, avalizada tanto pela notoriedade e autoridade da pessoa que a faz, como pela oportunidade "histórica" do momento em que é proferida: quando há um acontecimento mediatizado (razoavelmente), como a entrada solene de um bispo numa diocese como a do Porto, a comunicação social tem a tentação (aliás talvez virtuosa) de prestar em poucos dias a atenção que nega às coisas da Igreja (salvo se forem, ou parecerem, ou se quiser que sejam escândalos) durante o resto do tempo.

Quem tem aqui defendido repetidamente, com moderado, ou modesto aplauso de uns e com receosas reservas de outros, em todo o caso com quase imperceptível impacto, uma tal necessidade não pode senão congratular-se com esta reposição do problema, em momento solene e em circunstâncias favoráveis.

Temos que reconhecer, com espírito de humildade, que a Igreja não tem sabido, nos tempos modernos, no clima laico e subtilmente hostil que caracteriza o submundo dos meios de comunicação, cujo deus é o sensacionalismo, mesmo quando parecem dar atenção a certos acontecimentos eclesiais, marcar uma presença que seja ao mesmo tempo de igualdade e de valorização. Isto é, respeitar as regras do mercado e da profissão, e saber introduzir nesse universo aquele "quid" de qualidade e dignidade que lhe falta. Isto é, estar na comunicação social como um bom intérprete sabe estar no mundo da música, convivendo com toda a mediocridade, mas superando-a e dando dignidade à função que desempenha. Ou como um empresário cristão deverá inserir-se na actividade económica, procurando dar corpo ao sentido da justiça social, ou como um magistrado que exerce a justiça com isenção, ou como um professor que sabe permnanecer na escola superando a simples mediocridade pelo empenhamento na prática docente, e pelo sentido formativo e educacional que inscreve na profissão que exerce.

A imprensa de inspiração cristã em Portugal, segundo o respectivo anuário recentemente publicado, é composta por cerca de mil títulos, com uma tiragem global que se aproximará dos dois milhões de exemplares. Estes números podem induzir um espectro de optimismo. Mas eles têm que ser lidos no respectivo contexto: a sua audiência é limitada e sectorizada, o seu universo de influência é o que menos necessita dela, porque já está mentalmente e espiritualmente formado, captado, motivado, movimentado. Trata-se de uma espécie de movimentação "ad intra", correntes de convecção interiores cuja capcidade de irradiação e de dilatação se confina aos limites da atmosfera em que respira. Acresce que, se muitos cristãos exibem o jornal diário, o específico desportivo ou a revista da coscuvilhice institucional em qualquer lugar sem pejo, reservam a leitura dos jornais de inspiração cristã para as situações de intimidade nos espaços reservados da casa ou da família. Não é que esta opção seja incorrecta, mas é sempre uma certa limitação.

2. É um constatação que a Igreja (e quando digo Igreja não me quero referir, como por sistema endémico e distorcido faz a nossa comunicação social limitadamente "laica", à hierarquia, mas ao universo complexo, plural e frequentemente contraditório dos cristãos católicos) se movimenta com dificuldade e com tolhimento e contrafacção de movimentos no universo da comunicação social. O projecto magalómano da televisão de inspiração cristã, logo de início, de forma míope, baptizada de independente, que se foi pelas salobas águas da independência abaixo, constitui um exemplo de como, por excesso de ambição, por uma ruinosa gestão, assente no mimetismo do sucesso fácil de modelos paralelos que não deveriam ser os seus, mostra como o que era a esperança de um oásis se tornou com excessiva rapidez, mais um dos extensíssimos desertos de ideais que são as televisões.

Outros projectos nos próprios domínios da imprensa não aguentaram a pedalada do pelotão selvático de um excesso de títulos para uma população que não possui hábitos de leitura, e os que tem são veiculados para o desporto, para as revistas "sociais" de casamentos e divórcios, modas e festas, reis decadentes e princesas deslumbrantes, vestidos e piscinas, tudo temperado com os resumos de telenovelas, vivências sentimentais verdadeiras ou fictícias de actrizes e actores, e muita publicidade que sustenta os grupos económicos que também sustentam as revistas. É a cura com os pêlos do mesmo cão.

Está claro que não é nem deve ser este o universo em que venha a mover uma publicação de inspiração cristã. E é por isso que o seu êxito popular nunca poderá ser grande, tanto mais que a nossa pequena camada da população leitora de jornais já está marcada por aquele espírito castrador que determina que coisa que cheire a religião, mesmo que se leia, é de bom senso disfarçar a atenção por ela. Ou, como dizia o diabo da Barca do Inferno, "coisa que esteve em igreja não se há-de embarcar aqui". Este diabo vicentino ainda remexe pelos meandros das frustrações culturais da nossa sociedade.

3. Tudo isto, e tudo o mais que se pudera trazer à colação, determina que o repto agora lançado mereça encontrar eco nas forças vivas da acção eclesial. A começar na própria Conferência Episcopal, continuando na Associação da Imprensa de Inspiração Cristã, passando pelas organizações ecelesiais de todo o tipo. Importa reunir vontades e forças, projectos e mãos, como diria o padre Vieira: "Dos entendimentos das mãos é que se fazem os mais prudentes conselhos; porque os conslhos prudentes, que não passam do entendimento às mãos, fazem-se de prudentes néscios". As mãos aqui traduzem o operacionalizar das tarefas, o avançar dos projectos, a oportunidade dos meios, a adequação destes aos fins, ou como agora se diz, aos objectivos. Se os fins não justificam os meios, também é verdade que a intrínseca bondade dos fins nunca se torna efectiva se não se avança com os meios,ao menos os indispensáveis.

Não será estranho para ninguém que um diário de inspiração cristã não pode nem deve ser um diário de temas religiosos, ou mesmo eclesiais. Terá que ser um diário que, sem esconder a sua identidade, fale das realidades e dos acontecimentos humanos tais como são, sem receios nem limitações. É, no netanto, sabido que a visão que é apresentada do universo dos acontecimentos não está nos factos ou situações em si, mas em duas outras coisas: a selecção e a preponderância. Por exemplo, e recente: quem tivesse ouvido as rádios e as televisões ao fim da tarde e princípio da noite de domingo passado, ficaria com a ideia de que o grande acontecimento universal foi a demissão do terinador do Benfica. Dedicaram-se horas, entrevistas, notícias mal escavacadas, instantâneos em cima da hora com profusão de toda a espécie de palavrões, eu sei lá que mais, a um tal acontecimento tão histórico e decisivo na vida do país. Nas rádios e nas televisões do país vizinho, nem uma referência. Os factos foram os mesmos. Eis como a selecção e a preponderância os relativizam entre o tudo e o nada. A vida e a morte, a existência e a ausência dependem sempre dos olhos que vêm. Também já vem escrito no Evangelho: se o teu olho é malicioso, tudo te aprece mau. Ou então, na conhecida frase de Quevedo, todo o juízo depende da cor do olhar com que se olha. É por isso que os juízos, e até os julgamentos, manifestam mais a mente que os formula do que a realidade que transmitem.

Pois é esta "cor do olhar" que deve definir "com perfil e ser" uma recta visão cristã das dos homens e das coisas, mesmo quando tal visão possa ser relativizada: toda a visão é relativa, seja ela religiosa ou "laica". A mais relativizada de todas é aquela que tem necessidade de se proclamar de "independente": não conheço maiores nem mais funestas dependências do que as daqueles que se dizem "independentes", sejam televisões, jornais, partidos políticos, movimentos sociais, até movimentos eclesiais. Quando alguém se auto-proclama independente (geralmente nunca se diz de quê, nem de quem) é sempre de desconfiar e de tentar descobrir onde se situam as suas dependências.

Agarre-se, pois, com a sabedoria das mãos, a proposta agora re-formulada em tão paradigmática circunstância. Como diria o poeta Aleixo, façam "com as mil pequeninas uma só doutrina grande". Sem que se siga necessariamente que as "pequeninas" deixem de existir.

Quando aqui defendi este ponto de vista (da união de todos para a construção de um grande jornal), alguém me terá entendido desta forma. Uma doutrina grande dará sempre força às pequeninas, e as pequeninas são como as formigas: transportam muito mais que o seu próprio peso.
C. F.
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«CINEMA»

De 25 de Setembro a 1 de Outubro


TELEVISÃO - Um dos grandes filmes que participou da corrida aos Oscars deste ano, vai ser exibido na RTP2, na rubrica Cinco Noites, Cinco Filmes, na próxima sexta-feira, 26, integrado no ciclo dedicado à filmografia dos irmãos Coen. Em «Fargo, Um Crime Imperfeito», a poderosa Frances McDormand dá uma magistral lição de interpretação como a atarefadíssima chefe de polícia, Marge, daí Hollywood ter-lhe garantido o tão merecido Oscar de melhor actriz. Além do prémio para a Melhor Realização no último Festival de Cannes, «Fargo» goza de outros méritos de peso: não só os excelentes "brigões" Steve Buscemi e Peter Stomare, como também um ritmo trepidante e uma fotografia de neve e surpresa que se convertem num antídoto eficaz contra o aborrecimento. «Fargo» é também o melhor dos irmãos Coen. Com Joel sempre atrás da câmara, Ethan ocupando-se da produção e os argumentos escritos a quatro mãos, os Coen voltam a tratar a cobiça, a mentira e o crime que impregnaram no seu «Sangue por Sangue» ou na sua «História de Gangsters». O argumento, baseado num facto verídico, gira em torno de um crime ocorrido durante o rígido inverno de 1987. Um vendedor de automóveis, Jerry (William H. Macy), contrata dois malandros (Steve Buscemi e Peter Stomare) para raptarem a sua mulher, para assim conseguir dinheiro fácil, com o resgate que o sogro se compromete em pagar. Mas nem tudo corre bem no plano de Jerry.

Galardoados em Cannes 1991 com a Palma de Ouro para o Melhor Filme e o Melhor Actor por «Barton Fink», os Coen nunca duvidaram do seu talento compartilhado nem da força das suas imagens. O elenco de «Fargo» tão pouco lhes provocou qualquer quebra-cabeças: Frances McDormand, mulher de Joel na vida real, foi a única opção possível. E desde o princípio, a mais acertada. "É a primeira vez - brinca ela - depois de doze anos a dormir com o realizador, que me dão o papel sem me fazerem qualquer pergunta". Um filme que só visto se pode perceber a trama, de tão enredada que é, bem ao estilo Coen.

Ainda integrados no mesmo ciclo, poderemos ver: «Arizona Júnior», comédia (1987), com Nicolas Cage e Holly Hunter (segunda, 22); «Histórias de Gangsters», thriller (1990), com Gabriel Byrne e Albert Finney (terça, 23); «Barton Fink», comédia dramática (1991), com John Turturro e John Goodman (quarta, 24); e, «O Grande Salto», comédia (1994), com Tim Robbins e Paul Newman. O ciclo encerra com «Fargo».

Outros filmes que ainda pode ver esta semana: «Um Índio em Paris», comédia, de Hervé Palud (França, 1994), com Thierry Lhermitte e Patrick Timsit: um jovem índio venezuelano viaja para a grande metrópole francesa (TVI, domingo, 28); «À Beira do Fim», ficção científica, de Richard Fleischer (1973), com Charlton Heston e Edward G. Robinson (RTP2, terça, 30).


CINEMA - Confesso que me ri. E ri-me como quando aos 10 ou 12 anos via algumas das melhores aparições de Jerry Lewis. Muitos de nós já ríamos com os gags de Mr. Bean na televisão, o que transformou o actor inglês Rowan Atkinson num dos maiores (e melhores) executantes do verdadeiro humor. Faltava-lhe o cinema - pelo menos no seu papel mais reconhecível de Mr. Bean, porque já o havíamos visto em «Quatro Casamentos e um Funeral» - e parece ter acertado em pleno. «Bean» é um filme de onde se destaca o melhor do personagem televisivo e algumas outras caracterizações desconhecidas.

O argumento de «Bean» é inteligente e disparatado. O protagonista é o seu famoso personagem: esse egoísta, egocêntrico, estúpido, infantil e desastrado Bean. Desta feita, Bean encontrar-se-á apanhado numa terrível crise de identidade que o leva aos Estados Unidos da América. Uma vez ali, semeará o caos (e que outra coisa poderia ele semear?) tanto no mundo da Arte como no seio de uma tranquila família americana.

O argumento está bem estruturado, a história funciona na perfeição, mas o melhor continua a ser a comicidade, a capacidade de Bean para nos despertar o menino rebelde, o caótico, egoísta, anárquico e infantil ser que todos temos dentro de nós. É impossível não ser absorvido (e disfrutar) pelos seus disparates, pelas suas barbaridades, os seus gestos, as suas tropelias e também as suas manifestações de ternura. Sim, aqui também Bean é um personagem capaz de transmitir e provocar ternura. Não em demasia, nem muito menos de mau gosto. Um filme inteligente, divertido, um convite para nos encontrarmos com o insuportável menino que um dia fomos. Comparados com Bean, até as crianças mais traquinas se parecem com anjos.

Uma deliciosa e bem disposta comédia, «Bean» foi realizado por Mel Smith e produzido pela Polygram Filmed Entertainment, estando a sua distribuição a cargo da Vitória Filme-Exclusivo Ecofilmes.
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