Pacheco de Andrade

É preferível ser humano


Decorreu já a primeira semana dos seis meses que o actual Governo concedeu aos imigrantes clandestinos para legalizarem a sua permanência no nosso país. Trata-se de uma medida que veio civilizar a desumanidade de uma situação que o ministro Dias Loureiro tinha tratado com insensibilidade metálica.

A partir de agora, e com a dilatação do prazo para a sua inscrição legal, os milhares de imigrantes que, até hoje, correram o risco de ser extraditados ficam com uma porta aberta para se integrarem na sociedade em que vivem. Registe-se que não só lhes foi concedido mais tempo para legalizarem a sua estada em Portugal como também houve o cuidado de pôr à sua disposição quem os ajude a preencher uma documentação complexa que a ignorância o analfabetismo de muitos deles tornavam intransponível. Os quarenta e cinco postos de atendimento que foram abertos por todo o país denotam uma vontade séria de resolver este problema, que vem de longe.

É o fim de uma grave injustiça que, por sua vez, gerou, ao longo dos anos, uma série de injustiças igualmente graves. A clandestinidade dos imigrantes não é saudável para ninguém e constitui um factor de insegurança social para todos. Com esta abertura do Governo, os imigrantes que até aqui não fruíam de direitos nenhuns adquirem o estatuto de cidadania, têm ao seu alcance «um melhor acesso à saúde, ao ensino e à habitação», ficam socialmente mais protegidos, e deixam de ser os trabalhadores impunemente explorados por empresários sem escrúpulos que os chantageavam com a ilegalidade da sua situação. E é caso para perguntar: porquê, antes, tantas dificuldades para reconhecer que as pessoas são pessoas, e para lhes dizer isso?


Primeira Página Página Seguinte