Pacheco de Andrade

Quase uma instituição


Muito se tem falado do perdão da dívida dos clubes à Fazenda Pública. Pena é que em matéria que tanto daria que discutir, mas a sério, se tenha enveredado por um eventual colheita de vantangens políticas junto do eleitorado. Os representantes da nação, de cuja honestidade pessoal não se duvida, comportam-se, por vezes, como jogadores que fazem batotas com o árbitro. E um erro frequente dos deputados é pensarem que a inteligência pode ser substituída pela esperteza e o rigor da análise pela habilidade dialéctica e que os eleitores são palermas.

Fala-se das dívidas dos clubes de futebol, e é justo que se fale. Mas não é justo nem sério nem politicamente leal que, no mesmo lugar onde se travam tão lúdicas discussões, ninguém corra a cortina de silêncio que tapa o escândalo de uma evasão fiscal que atinge centenas de milhões de contos, e que penaliza, todos os anos, aqueles que trabalham por conta de outrem. Precisamente os que auferem menos pelo seu trabalho. Segundo estudo recente do Sindicato dos Trabalhadores de Impostos, os donos de café e restaurantes pagaram, em média, no ano de 1994, e no de 1995 ainda menos, 12 contos de impostos por ano, os comissionistas não pagaram nada, os advogados 101 contos, os médicos descontaram 105 contos, os arquitectos e engenheiros 140, os construtores civis 33 contos e os comerciantes 32. Aqueles que cumprem impediram que estes números fossem ainda mais baixos. A explicação dada pelo sindicato é a de falta de pessoal para fiscalizar. Já nem se fala de falta de honestidade. Esta, porém, pratica-se não só para com o Estado.

Também para com aqueles que, do seu bolso, pagam por si e por esses faltosos. Um pecado social de que, talvez, muitos cristãos não se darão conta.


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