Pacheco de Andrade



Fogos florestais

A recente Nota Pastoral dos bispos portugueses sobre os incêndios surge no limiar de mais um período em que o país rural vê o fogo reduzir a sua floresta. Pode dizer-se que quase se tornou uma calamidade cíclica o mar de chamas que aterra as populações e as lança no desespero e na miséria.

Perante a crescente dimensão dos fogos florestais e a modesta eficácia dos meios para os prevenir e combater, criou-se uma mentalidade fatalista que encara a próxima estação numa base de cálculos sobre o percurso que as chamas farão desta vez. O vasto cemitério de cinzas em que parte da floresta portuguesa se transformou despiu muita da nossa paisagem do que ela tinha de belo e atraente. Faz pena ir por essas estradas fora e ver o que antes era verdura convertido num tapete escuro e ardido.

A nota do episcopado contempla vários aspectos que contornam esta realidade dos incêndios, e põe em evidência que ela «faz pensar em actos de terrorismo ou aventuras de nenhuma sensibilidade, nem pelas pessoas nem pela terra». O descuido, a imprudência e as altas temperaturas de Verão são causas já conhecidas dos fogos. Mas, para além disso, há o crime motivado pela ganância do lucro, pelos baixos interesses que acabam por ser um atentado à propriedade legítima, à vida das populações e à própria Natureza.

Aqui chegados, ocorre perguntar se os governos têm feito tudo o que estava ao seu alcance para prevenirem e reduzirem a avalanche de prejuízos que, todos os anos, desaba sobre a nossa floresta. Por vezes, há a impressão de que tem havido, apenas, uma preocupação circunstancial para acudir conjunturalmente às situações, e de que não se estrutura uma frente de prevenção e combate. O Verão não tarda a chegar. Naturalmente, com as temperaturas a subirem. Oxalá que, desta vez, sem a má companhia dos fogos.


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