![]() |
Perto de um milhão de jovens de todo o mundo acolheram com entusiasmo o apelo do Papa João Paulo II lançado em Paris, França, no decorrer das XII Jornadas Mundiais da Juventude que ali decorreram desde 18 a 24 e tiveram por tema: «Mestre, onde moras? - Vinde e vereis!». |
Cerca de cinco mil jovens, de todas as dioceses de Portugal e alguns mesmo timorenses que ali se deslocaram com o apoio da Santa Sé, associaram-se a muitos mais, idos de 160 países, que acolheram o apelo do Papa: «Derrubai as barreiras da superficialidade e do medo, reconhecendo-vos como homens e mulheres novos, regenerados pela graça baptismal». Com firmeza, João Paulo II apelou para que descubram a pessoa de Jesus e os valores que Ele propõe, em vez de se perderem em dogmatismos e falsas interpretações lançadas por quem optou por semear a dúvida, a insegurança e o medo do futuro.
Tais apelos surpreenderam a sociedade e a própria Igreja francesa que, ao contrário de medos anteriores, classificaram a visita do Papa como «um acontecimento marcante». Ele, de facto, dominou a comunicação social, com destaque para a Televisão, obrigando mesmo a alterar a programação já feita. Entre nós, é digna de registo, a excelente transmissão que a TVI fez em directo, na manhã de Domingo, dia 24.
Ao contrário do que alguns maliciosamente
anunciavam, a mensagem do Papa não foi alarmista, moralista
e retrógrada, mas entusiasmou os jovens e esta foi
mesmo a Jornada que teve maior representação internacional.
João Paulo II apelou aos jovens para que se decidam a construir
um mundo verdadeiramente novo, baseado no respeito pelo outro,
no diálogo e mesmo no amor, particularmente em relação
aos que mais sofrem.
De olhos no futuro
Os jovens de cada língua comum saudaram o Papa num verdadeiro espectáculo de apresentação, a que João Paulo II respondeu com um olhar vivo e interpelante de quem, aos 77 anos, continua a acreditar que os jovens poderão dar um tom novo a uma sociedade que vai envelhecendo nos seus sonhos e realizações. Apesar da idade e do cansaço, o Papa «galvanizou» os jovens com um apelo que faz esquecer velhas imprecações contra os males dos tempos modernos.
A significativa «ocupação» da capital francesa pela juventude marcada pelo sinal de Cristo e o clamor que dali foi lançado para todo o mundo constituiu, de facto, a maior manifestação religiosa realizada em Paris depois da Guerra. No dia 24, no encerramento das Jornadas, seriam um milhão de pessoas, entre as quais jovens de 160 países, 500 bispos e seis mil padres que saudaram os apelos do Papa para que, decididamente, todos tratem de construir «a civilização do amor» na linha das propostas de Cristo.
A partir de Longchamp, João Paulo II tocou, mais uma vez, nalgumas feridas deste tempo, o que vai exasperando os detentores dos poderes que comandam a sociedade de hoje, «um mundo com grandes diferenças de riquezas, (...) um mundo superficial, condenado à morte». Aos membros da Igreja recomendou que sejam «activos e responsáveis» e sirvam os irmãos «que sofrem, são humilhados pela miséria ou pela injustiça e estão privados dos seus direitos». E convidou-os a empenharem-se «para que cada pessoa possa viver bem e ser reconhecida na sua dignidade».
Aos jovens pediu que vão «até
ao extremo do amor, na dádiva», inventando em cada
dia «os meios de servir os irmãos» e sendo
intervenientes na escolha de caminhos para o futuro da humanidade.
Nesse sentido, insistiu que vivam o dia a dia «com lucidez
e esperança, sem angústia e desânimo»
e acrescentou: «A humanidade precisa de vós.
Decidi-vos a aperfeiçoar as vossas qualificações
profissionais, a fim de exercerdes o vosso ofício com competência
e, ao mesmo tempo, não vos descuideis de aprofundar a vossa
Fé, que iluminará as decisões que ireis tomar».
E explicou que a dedicação aos outros «transfigura
a existência e manifesta que a esperança e a vida
fraterna são mais fortes do que qualquer tentação
ou desespero».
Reconciliação
Aos dez jovens representantes dos cinco continentes que foram baptizados, no sábado, o Papa disse que o Baptismo «transforma a existência humana numa história de amor» com Deus, ajudando a viver «uma vida recta e fiel ao Senhor» em que a Palavra de Deus se torna «a regra da Fé e da acção». Nessa linha, apareceu depois a condenação de intolerâncias como o massacre de S. Bartolomeu, em 24 de Agosto de 1572, e o apelo ao respeito pelas pessoas e pelas diferentes tradições religiosas. Advertiu o Papa que os cristãos também «cometeram actos que o Evangelho reprova».
À Igreja apelou para que saiba contribuir para «uma melhor qualidade da vida pública, numa atenção privilegiada aos mais pobres da sociedade». E também à ousadia de saber acolher uma juventude que, sem complexos, afirma a sua Fé e manifesta acreditar na mensagem da Igreja, mas sente dificuldade de se inserir nas estruturas paroquiais ou mesmo nos tradicionais movimentos.
Entre outros locais, João Paulo II visitou o Palácio dos Direitos do Homem, no Trocadero, procedeu à beatificação de Frederico Ozanam (que será celebrado em 9 de Setembro), fundador das Conferências de S. Vicente de Paulo, na Catedral de Notre Dame, e apontou Teresa de Lisieux como doutora da Igreja, o que acontecerá oficialmente em 19 de Outubro, em Roma, no dia mundial das Missões. O Papa visitou ainda a Catedral da Ressurreição de Evry, a sul de Paris, uma obra de Mario Botta, feita em tijolo cor de rosa e sem campanário.
O primeiro ministro Lionel Jospin, protestante, valorizou
a experiência francesa de laicidade, liberdade religiosa
e livre expressão da liberdade de consciência e enalteceu
o exemplo de Ozanam que contribuiu para «a reconciliação
entre a Igreja e a República». Sublinhou os apelos
do Papa aos jovens propondo-lhes um ideal de vida, razões
de esperança e valores inspirados na Fé capazes
de os motivar para o compromisso social. E manifestou que a França
se sentia feliz por ter acolhido os jovens de todo o mundo desejando
que eles encontrem «no serviço da Paz, da Fraternidade
e da Partilha um sentido para a vida».
Cadeia de fraternidade
Muito significativa a cadeia de fraternidade que os jovens fizeram à volta de Paris, no sábado, demonstrando que não temem apresentar-se como crentes diante do mundo. Reagindo à insegurança dos pais, estes jovens parecem identificar-se mais com a firmeza dos avós, acolhendo as interpelações do Papa como uma lufada de ar fresco, perante tantas análises catastróficas feitas pelos analistas de hoje. Sabiamente, o Papa apelou ao empenhamento social, não com discursos, mas com o exemplo de pessoas concretas, como é o caso da coragem do universitário Frederico Ozanam, da ousadia da jovem carmelita Teresa de Lisieux, ou do médico defensor da vida Jérôme Lejeune. Eles respondem melhor à solidão que os jovens de hoje vivem, numa sociedade que rompeu com a cultura que lhe deu origem e agora «oferece» o refúgio da droga, o abuso sexual e a violência como caminhos para preencher o vazio afectivo e o sem-sentido da vida.
Também aqui os jovens ousaram mostrar a sua sensibilidade, exprimir expectativas e aplaudir quem, de forma coerente, lhes aponte caminhos de futuro.
Esperançosa e firme foi também a mensagem do Conselho Pontifício para os Leigos, secção Jovem, que se ali reuniu de 14 a 18 e congregou delegados de 140 conferências episcopais e de 40 movimentos, num total de mais de trezentos representantes. Houve momentos de oração e mesmo contemplação, de análise das dores e das esperanças deste tempo, de abertura ecuménica e de esforço de unidade, de atenção aos mais pobres e de empenho na evangelização, seja no mundo da Cultura e dos meios de Comunicação, ou na defesa da vida.
A Jornada incluiu diversos encontros de preparação feitos em cinco santuários europeus: Paray-Le-Monial e Lisieux (França), Altotting (Alemanha), Beauraing (Bélgica) e Loreto (Itália). De 15 a 17 de Agosto, houve momentos de reflexão, no dia 18 foi a concentração em Chartres e Reims, e depois a caminhada para Paris. Momentos altos foram uma vigília de oração no Palácio dos Desportos e, de 20 a 24, diversas celebrações.
| F. L. |
| Primeira Página | Página Seguinte |