A avaliação final foi, mais uma vez, francamente positiva, acreditando-se que, com a publicação das Actas do Simpósio, prevista para Dezembro, a Igreja portuguesa ficará com elementos suficientes para promover uma verdadeira renovação dos modos de exercer o ministério sacerdotal. Um ulterior tema poderia ser o da Missão, num mundo que reclama a capacidade de sair dos habituais ambientes de acção.
A sessão de Abertura teve a presidência do Núncio Apostólico, Mons. Edoardo Rovida, e a palavra do presidente da Conferência Episcopal, D. João Alves. Do seu contacto com padres ao longo de décadas, D. João sublinhou que «o padre como homem de Deus... só se realiza e sente feliz... se mantiver, na Fé, uma efectiva e constante ligação com Jesus Cristo e por Ele com Deus», aparecendo como «um seduzido e apaixonado de Deus,...a face visível de Deus», e sendo o seu estilo o de «contemplativo na acção». Deve,entretanto, entender que foi tomado «de entre os homens» para a eles ser enviado «como sacerdote e pastor», falando-lhes «não tanto pelas palavras como pelo testemunho simples». E, em tempos de mudança e em diálogo com o Bispo, há-de abrir-se à cooperação dos leigos e ao trabalho vicarial ou de região de modo a ter condições para «ser homem de Deus, consciente e feliz» que se dá em alegria às pessoas de hoje «com as suas contradições».
D. Augusto César fez também uma saudação e o Secretário Geral, Carlos Azevedo, do Porto, apresentou o programa e, de tarde, o tema: «Os estilos de vida do padre ao ritmo das mudanças culturais: dimensão histórica». Seguiu-se a conferência «O presbítero nas tensões do mundo contemporâneo», por Saturnino Gamarra (de Vitória, Espanha), que no dia seguinte falou ainda dos «Problemas da vida espiritual de um presbítero», seguindo-se uma mesa-redonda em que participaram os padres Constantino Alves (Setúbal), Rui Osório (Porto), Francisco Alves (Évora) e Peter Stilwell (Lisboa), tendo por moderador o Doutor Manuel Pinto, da Universidade do Minho.
Na 3ª-feira, de tarde, foram apresentadas algumas comunicações livres: «Chamados para chamar: a vida do padre e as vocações» (P. Jorge Guarda, Leiria), «Psicologia do padre e equilíbrio em Jesus Cristo» (P. Barros Oliveira, claretiano), «Santidade de vida e ministério sacerdotal» (P. M. Sousa e Silva, Braga). O P. Georgino Rocha (Aveiro) falou depois das «Implicações práticas da espiritualidade "diocesana"» e o P. João Peixoto (Porto) de «Como celebrar a Eucaristia na multiplicidade de tarefas».
Depois de uma reflexão sobre a prática espiritual, a 4ª-feira teve por tema «as atuitudes evangélicas», com intervenções de Saturnino Gamarra («Perspectivas evangélicas para a vivência feliz do celibato», P. Leonel Oliveira, Porto («A atitude obediente»), comunicações livres dos padres Francisco Valadão, de Angra («Vida fraterna e missão»), Georgino Rocha, Aveiro («O padre diocesano («O padre diocesano e a missão Ad Gentes») e Hugo de Azevedo, do Opus Dei-Coimbra («A formação dos presbíteros na justiça»).Seguiu-se uma Mesa-Redonda moderada pelo Prof. Doutor Walter Osswald e com intervenções dos drs Aura Miguel (Rádio Renascença), José Maria Azevedo (CCR Norte) e Isabel Varanda (Teologia-Braga).
A 5ª-feira foi dedicada à partilha de bens e de vida, com intervenções dos padres Lúcio Nunes, de Portalergre e Castelo Branco, e Manuel Felício, de Viseu, sobre o «Sistema de sustentação do clero e incidência na vida espiritual, e do P. António Francisco dos Santos, de Lamego, sobre a «Educação para a partilha». Seguiu-se uma mesa-redonda sobre «Formas de vida em comum:caracterização, valores e limites» em que intervieram os padres Luís Arranz, de Évora («A distribuição do clero»), Manuel Pinheiro, de Braga («Comunhão de vida e de bens: para que o mundo acredite»») e Manuel Crespo, do Porto («Padres em Pastoral Operária»). O P. Carlos Paes, de Lisboa, falou depois sobre «Unidade e qualidade de vida na experiência pastoral» e o P. Joaquim Vilar, de Viana do castelo, sobre «Conselho Presbiteral: espaço de corresponsabilidade e de comunhão colegial.
A manhã de sábado foi de apresentação e votação das conclusões (nesta página, ao fundo), tendo encerrado o Simpósio com uma Mensagem (pág. 8) e Eucaristia na Basílica, presidida por D. Augusto César, que é Bispo de Portalegre e Castelo Branco.
Em cada dia houve ainda oração
de Laudes e Vésperas, e Eucaristia, momentos que foram
avaliados como bem positivos. Em cada dia, à noite, o Terço
na Capelinha das Aparições e, na 5ª-feira,
depois da Procissão eucarística e na Basílica,
um Concerto de Coro e Órgão pelos participantes
no Curso Nacional de Música Litúrgica, mormente
Filipe Veríssimo, Miguel Farinha, Jorge Amaral, M. Luísa
Godinho, Fernando Pinto, José Cruz, M. Conceição
Godinho, Cidália Gonçalves, A. Manuel Jesus, Rui
Carreira, Tadeu Filipe, José Farinha, José Pereira,
Vítor Moreira, Ângelo Cardita, Artur Oliveira, Cristina
Lima, Gabriel Gonçalves, Susana Silva, Pedro Caetano, João
Ferro, Nuno A. Silva, Jaime Branco e A. Jesus Ribeiro.
Inquérito
No decorrer do Simpósio foi feito um inquérito aos participantes, sendo a resposta livre e anónima. Responderam 246 e disseram que a sua vocação despertara (129) em criança; na adolescência (55), em jovem (49) e na idade adulta (15). Consideraram que a formação no Seminário foi boa (123) e cerca de metade dos inquiridos diz que é precisa uma formação permanente que seja organizada a nível diocesano. Entre as preocupações manifestadas ressalta o aspecto espiritual (121), seguido da relação com o mundo (76). O aspecto afectivo é preocupação de 39 e apenas oito referiram a questão económica. A vida em comunidade é desejada por 192 mas 37 querem viver sozinhos. A maioria esmagadora (222) dizem-se realizados e apenas seis desiludidos; 225 sentem-se plenamente integrados e onze não. Entre as prioridades da Igreja em relevo ficou a Catequese (552) e depois a acção no mundo e a Liturgia, a opção pelos pobres e a valorização dos ministérios laicais. Os padres manifestam-se optimistas (127) em relação à atitude da Igreja no futuro, ainda que o olhem com preocupação. Manifestaram concordância com a disciplina da Igreja 121 e 74 em desacordo em questões de autoridade, nomeações, orientações litúrgicas e organização diocesana e cinco em relação à questão do celibato.
É clara a manifestação
de alegria da vida sacerdotal e uma firme opção
pela evangelização e catequese, bem como uma grande
atenção aos problemas do mundo. A vertente espiritual
é a que mais preocupa os padres, numa manifesta ânsia
de «configuração com Cristo» vivida «no
ministério de salvação da humanidade»
à maneira do Bom Pastor.
1. Neste final de milénio, a sociedade vive cheia de sinais que apaixonam e desconcertam Época em que se impõe um caminho sem transcendência e com ânsias de profundidade espiritual, tempo de cultura do divertimento e carregado de depressões, momento social sem valores éticos claros e simultaneamente criador de princípios universais, hora de privatismo exagerado e exigente de transparência. Nesta situação, o estilo de vida
do padre há-de ser de alguém
simples, próximo e solidário que sabe estar no aqui
e agora da história como testemunha, sem se render ou conformar
ao tempo, sem se defender nem agredir, adoptando uma forma evangélica
assumida: apaixonado por Deus e pela pessoa humana, bem definido
na sua identidade e em diálogo de escuta.
2. Ao longo da história e a cada
época cultural corresponde um estilo de vida do padre,
decorrente de uma concepção de Igreja. Numa Igreja
sacramento de comunhão, o padre é sinal pessoal
de Cristo Bom Pastor quer na missão de levar a Boa Nova
ao mundo, por uma presença educadora e solidária,
quer na função de presidir à celebração
da fé com os crentes pela festa de Deus connosco, quer
ainda na condução da comunidade no serviço
a cada um. Tudo se realizará numa relação
valorizada com o Bispo, presbitério e com os leigos.
3. O estilo de vida do padre seja evangélico,
partindo de uma identidade baseada na fé e no sacramento
da Ordem, em união com Cristo e com Deus Pai e no Espírito.
Esta identidade tem incidências existenciais num processo
contínuo de estruturação da sua personalidade
para significar a pessoa de Cristo Bom Pastor, em amor de paixão.
A experiência de Igreja, na diversidade de meios sociais
e de campos de acção pastoral, marca o seu ser como
carisma de totalidade. O padre tente viver esta experiência
em relação profunda a partir de Outro e dos outros,
numa atitude religiosa de gratuidade que muda a sua concepção
de vida e de pastoral.
4. A vivência da espiritualidade
eclesial do padre no seio do presbitério de cada diocese
tenha implicações concretas: comunicação
em diálogo aberto, discernimento comunitário, animação
das diversas vocações, programação
pastoral, de ascese vivida, presidência à celebração
e à oração, compromisso corresponsável
em toda a missão evangelizadora e disponível para
a cooperação missionária entre as Igrejas
diocesanas, e «ad gentes».
5. A Eucaristia seja celebrada como
verdadeiro cume de toda a acção pastoral e fonte
de vida nova em Cristo para edificar a comunidade e que os padres
não se reduzam a funcionários do culto, «celebrantes
de missas», apesar da crescente escassez de padres e da falta
de um sistema remuneratório eficaz. Só assim será
momento de vivência feliz, como centro de cada dia, na inteireza
do ministério.
6. Reconhecendo as grandes dificuldades
práticas de vivência ordenada da sexualidade em nossos
dias, no mundo em geral, assumimos com liberdade o celibato como
valor colocado ao serviço profético do Reino, modo
sublime de viver a relação inter-pessoal e forma
de ser e amar pré-anunciadora dos novos tempos.
7. O valor da obediência entendida
na fé, sendo de dimensão comunitária e fraterna,
vivida por gente livre, conduza a decisões debatidas, consensualizadas,
homologadas, onde cada um se submete à harmonia da comunhão
de Santos.
8. Haja nos padres uma relação
justa e de soberana liberdade com os bens, tais como: o tempo,
o trabalho e emprego, a segurança social, a saúde,
a cidadania, o ambiente, o poder, o saber e o dinheiro. A forma
livre de usar os bens ao serviço da comunidade, apesar
de muitas vezes ser incompreensível, também entre
nós sofre de defeitos, de acumulações sem
partilha.
9. Alegramo-nos com os esforços
já feitos em ordem à criação de novos
sistemas de sustentação do clero. Dão credibilidade
à vivência de uma relação evangélica
com os bens materiais. Criam liberdade interior e mais disponibilidade
para o trabalho, com a tranquilidade que liberta de preocupações
económicas com o futuro e evidenciam maior transparência.
As Fraternidades do clero testemunham uma educação
para a partilha, a
incentivar o espírito que as
bem-aventuranças traduzem.
10. Fomentem-se, e já a partir
do Seminário, cada vez mais formas de vida e de trabalho
em comum. Estas experiências esbatem o isolamento e as tensões,
abrem espaço ao diálogo, favorecem a pastoral de
conjunto, permitem a correcção fraterna, ocasionam
maior eficácia pastoral e proporcionam o equilíbrio
psicológico pelo acolhimento fraterno, facilitam um enriquecimento
pessoal mútuo, são sinal de verdade evangélica
para a comunidade. Reconhecemos, entretanto, a validade do testemunho
de tantos padres que, embora sós, vivem integrados e felizes
no meio do seu povo, e em comunhão no presbitério.
11. Promova-se a unidade de vida do presbítero, no meio da fragmentação e dispersão que o cumprimento das múltiplas tarefas ocasiona. Assim se contrariará um activismo não finalizado gerador de desânimos e cansaços.
A fonte de unidade está em Cristo
pela contemplação do plano amoroso de Deus Pai,
na oração e na vida quotidiana. A sensibilidade
à condição humana aí unificada motivará
criatividade pastoral, alegria e esperança continuamente
descobertas.
12. Seja o Conselho Presbiteral um órgão
vivo de governo, gerador da comunhão da Igreja diocesana.
Num tempo propenso a sinais visíveis, este Conselho será
um momento de afirmação do presbitério, onde
ninguém se pode dispensar de participar. Através
de uma séria preparação, da capacidade de
escuta, da vontade de colaborar com opiniões fundamentadas
e de uma maior comunicação, o Conselho Presbiteral
há-de ser revalorizado na sua dinâmica própria.
13. Estude-se a criação
de uma estrutura nacional que seja lugar de reflexão das
questões de vida do padre, incluindo a formação
permanente.
14. Reformulem-se as estruturas pastorais
nas paróquias e sobretudo revigore-se a experiência
do trabalho vicarial ou arciprestal em ordem a estarem adaptadas
às reais condições de vida dos actuais presbitérios.
15. Cada um dos presentes, animado pela vivência deste acontecimento eclesial, propõe-se levar a frescura renovadora aqui experimentada aos seus presbitérios e às suas comunidades. Em cada diocese dê o Delegado Diocesano continuidade ao trabalho iniciado.
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