Oratória de Natal,
de João Sebastião Bach

Mais uma obra importante de história da música que foi apresentada pela Orquestra Clássica do Porto, com o Coro da Sé, os solistas Ana Paula Russo (soprano), Miguel Fontes, contratenor (Alto), Max Ciolek (Tenor), Mathias Girchin (baixo), dirigidos pelo maestro Jorg Staube. Tratou-se da Oratória (ou Oratório, como escrevem outros) de Natal, obra extensa e complexa que o mestre de Leipsig escreveu em 1734. O termo Oratória não foi aplicado a muitas outras obras de Bach (escreveu uma para a Páscoa e outra para a Ascenção do ano seguinte), que lhes preferiu a designação de Cantatas.

Trata-se de uma sucessão de seis cantatas, que bem se poderiam adicionar às cento e cinquenta que escreveu para múltiplas ocasiões da liturgia luterana. Estas aqui reunidas sob a designação de Oratória, porém, formam na intenção do seu autor um conjunto significante, que se destinava a preencher os dias festivos da época de Natal: para os 1º, 2º e 3º dia do Natal, para o Ano Novo, para o domingo seguinte e para a Epifania. Cada uma destas Cantatas tem a duração de cerca de meia hora e está escrita segundo um modelo semelhante: Um coro inicial, seguido de vários recitativos que contam a história evangélica (a cargo do tenor, geralmente), entremeados por várias "Áreas" para os vários solistas e "Corais", para o Coro. As áreas e os corais constituem momentos de reflexão ou de meditação sobre o sentido dos acontecimentos e do mistério da Salvação. Trata-se de textos de grande riqueza teológica, que pretendem estimular a introspecção e a oração dos ouvintes. Muitos deles têm inspiração nos próprios textos litúrgicos, outros nascem do sentido poético e da piedade do "libretista". A execução de todo o conjunto demorará cerca de três horas, que foram divididas em dois conjuntos de aproximedamente hora e meia cada, apresentados em dois dias seguidos.

As soluções musicais são muito diversificadas e a maioria de uma profunda e intradutível inspiração, denotando a adultez e a maturidade do compositor. Os corais, quer os contrapontísticos, que revoam em grandioso brilho, quer os meditativos, naquelas frases simples que encerram um profundo universo íntimo, quer os dialogais, entre o coro e a orquestra, dão um dinamismo dramático-litúrgico que nunca ninguém superou. De facto, a construção do Oratório constitui uma unidade significante de tipo para-litúrgico: os acontecimentos narrados provocam explosões interiores de alegria, de meditação, de louvor, que irrompem nessa acção colectiva que é a acção de graças.

Mais uma vez uma execução musical do conjunto Orquestra do Porto-Coro da Sé põe em acção, com a colaboração de profissionais de grande gabarito, uma obra raramente executada mesmo nos grandes centros culturais. Mais uma vez a correcção e a dignidade dos executantes recriaram uma obra do período barroco na sua quase pureza original. A grandiosidade do Coro (que não será original) não deixa de valorizar o rigor e despojamento com que o maestro director "marcou" a execução da orquestra e a prestação dos diversos solistas. Não se buscou o efeito fácil, mas a expressividade nítida e desnuda, que enriquece por aquilo que parece simples mas resulta de muito trabalho e talento.

Não foram excessivos os sete minutos de aplauso aos executantes no final de cada concerto. Eles devem transmitir-se aos agrupamentos e aos músicos participantes. Talvez sobretudo a um maestro que criou unidade expressiva no conjunto e que soube reconhecer o trabalho de cada um. Oxalá a cidade possa merecer a árdua dedicação e o entusiasmo que amadores e profissionais colocaram numa realização musical desta dimensão e desta qualidade.
C. F.


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