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A Câmara Municipal do Porto condecorou, no sábado, o Arcebispo-bispo do Porto D. Júlio Tavares Rebimbas, com a Medalha de Honra da Cidade. Este, que é o mais alto título que o Município atribui, foi-lhe dado pelo modo como, ao longo de 15 anos, exerceu o múnus de Bispo numa Igreja com uma presença de qualidade na sociedade civil. |
A sessão solene ocorreu no Salão Nobre da Câmara na presença das mais altas individualidades civis, académicas, militares e religiosas, e ainda com a participação do Coro da Sé Catedral do Porto. Depois de uma intervenção de fundo do Cón. Dr. António Taipa, presidente do Cabido Portucalense, foi lida a Acta da sessão de 29 de Abril em que foi atribuída, por unanimidade, a Medalha de Honra da Cidade, conferindo a D. Júlio o título de Cidadão do Porto. Em seguida, o Dr. Fernando Gomes, presidente da Câmara, colocou em D. Júlio a medalha de ouro e enquadrou este acto (texto em caixa) numa linha histórica que vem já desde tempos anteriores à Nacionalidade, pondo em realce o papel que o Bispo sempre tem desempenhado na Cidade. No fim, D. Júlio agradeceu, lembrando que apenas cumprira o seu dever (texto à parte).
O gesto do Município foi considerado digno de justificado apreço pelo Cón. António Taipa, pois no Bispo, se presta homenagem a quantos, ao longo de quinze anos e por ele mandatados, deram corpo a um projecto pastoral de serviço ao Homem, numa perspectiva cristã. Uma tal referência aponta para a solidariedade, amizade e amor até dar a vida, e atira a Igreja «para o Homem como sua meta». E a Igreja presta esse serviço ao Homem.
de forma organizada, como corpo a que o Bispo preside e de que é o primeiro responsável.
Confessando desde início que não tinha pretensões nem projectos especiais a não ser o de «cumprir a vontade de Deus que o chamou a estas terras», D. Júlio, nascido e residente nesta diocese do Porto até aos 17 anos (quando foi criada a diocese de Aveiro), aqui voltou em 1982 para ser «um novo elo duma rica e nobre Tradição episcopal». Coube-lhe realizar «sonhos» como os das Causas de beatificação de D. António Barroso, do Pai Américo e de D. Sílvia Cardoso e de criar condições para a co-responsabiliade através dos Conselhos Pastorais, de novos ministérios como o dos Animadores das Assembleias Dominicais na Ausência do Presbítero e do Diaconado permanente. Ele soube apelar ainda à dinamização da Pastoral da Caridade, acudindo a situações de emergência e incentivando a construção de centros paroquiais.
O Cón. Taipa lembrou também a sua acção na instalação definitiva da Universidade Católica no Porto, tendo destacado a Teologia e Ciências Religiosas e, agora, a Escola das Artes. D. Júlio fez construir ainda a Casa Diocesana do Seminário de Vilar, um sonho confiado por D. António e assumido pelo Conselho Presbiteral, que todos vêem e admiram, e onde agora «se pensa Deus e o Homem», se reflecte a vida e a história e onde «crescem os homens para a vida» na sociedade e na Igreja. Soube incentivar a renovação das instalações dos seminários e de outras casas, e a construção de igrejas, capelas e centros paroquiais.
«Homem simples e discreto», D. Júlio privilegiou a relação directa com as pessoas em quem sempre acreditou e co-responsabilizou. Dotado «de invulgar intuição dos problemas», foi um Bispo que sempre gostou de aparecer como «um pai e um amigo» e que sempre testemunhou «um profundo amor à Igreja», uma indomável Esperança e «uma notável capacidade de sofrimento e de doação, vividas na paz e na alegria da consagração total ao Senhor para serviço dos homens». E o Cón. Taipa concluiu manifestando «a vaidade e orgulho», bem como a profunda admiração, respeito, amizade e obediência que sentem quantos colaboram com o Arcebispo-bispo a quem o Porto quis homenagear de forma tão solene.
disse D. Júlio em resposta ao gesto de condecoração como Cidadão do Porto
«É de concluir, antes mesmo de começar, que não vou fazer nenhum longo e profundo discurso: nem a saúde e o assunto mo permitiriam.
Simplesmente vou agradecer o gesto significativo de me ser outorgado, pela Câmara Municipal do Porto, a Medalha de Honra da Cidade e guardá-la como uma das maiores honras da minha longa vida.
Costuma dizer-se, e já autorizadamente foi escrito, que o homem «é ele e a sua circunstância».
Cada um avalia-se pelo que é, pelas suas atitudes e condutas, tendo em conta a sua geografia e história, a densidade da sua vida e do ambiente cultural que o rodeia. É, de facto, ele e a sua circunstância.
Também o homem é para as ocasiões, no uso da sua liberdade, como me disse oportunamente o meu saudoso Antecessor.
O Porto traz na sua história a alma dos seus Bispos, os que foram e marcaram, a seu medo, a Cidade e toda a Igreja Portucalense. Agora, que a Cidade é Património Mundial, revê-se o País nela espelhado, como, desde o princípio, na sua raiz, houve nome Portugal.
Quinze anos de Bispo se passaram no Bairro da Sé que, com os cinco da minha adolescência, somaram vinte anos de Porto.
O Papa, na memorável visita pastoral que fez à Cidade da Virgem, das várias vezes que me viu, posteriormente, em Roma, ou noutras paragens, não se lembrava do meu nome como é óbvio, mas apontava-me e dizia: Porto, Porto...
Foi honra estar no Porto, é bom ser do Porto.
A Câmara Municipal, eleita pelo Povo, quis, por unanimidade e certamente por magnanimidade, dar-me o maior galardão e confirmar-me cidadão do Porto. Obrigado! Muito Obrigado!...
Agora, no último estádio da vida, só me resta ser grato e dizer a palavra do Evangelho de São Lucas: - «quando tiverdes cumprido o que vos mandaram fazer, dizei: - somos empregados inúteis; fizemos o que devíamos fazer».
A todos vós, o meu muito obrigado!»
- lembrou o Presidente Fernando Gomes no solene
acto de gratidão ao Bispo do Porto
«A História do Porto não pode ser contada sem uma referência marcante ao papel do seu Bispo. O Porto cresce e afirma-se, antes da Fundação da nacionalidade, por força de um inegável dinamismo económico e sob a orientação que lhe é conferida como senhorio episcopal.
A diocese ganha, no entanto, uma outra importância quando D. Teresa, à frente dos destinos do Condado Portucalense, entrega os destinos da Cidade ao bispo francês, D. Hugo, doação mais tarde confirmada por D. Afonso Henriques. A partir deste ano o Porto emergiu definitivamente para a história, nas vésperas do nascimento de Portugal.
Quando D. Hugo, no longínquo ano de 1113, chegou ao Porto, encontrou um pequeno centro cercado de muralhas e, ainda, não ocupado, totalmente por casas de habitação. Tudo era ermo, à excepção de algumas choupanas espalhadas pela Ribeira, S. Nicolau e Miragaia. Por outro lado, zonas como Cedofeita, Foz, Aldoar, Ramalde, Nevogilde, Paranhos e Campanhã, ficavam muito longe, atrás de outeiros e bosques, ao passo que Sto. Ildefonso se resumia a uma pequena ermida. Apesar de pequena, a Cidade estava organizada, possuindo uma sociedade civil com autonomia para gerir o seu espaço e resolver os seus conflitos. O Bispo soube reconhecer estas prerrogativas quando se tornou senhor da Cidade e concedeu carta de foral aos moradores, numa clara atitude de respeito pelos seus súbditos e de indiscutível perspectiva de futuro.
Ao procurar enobrecer-se com o engrandecimento da Cidade, disputando domínios às dioceses de Braga e Coimbra, D. Hugo reforça o seu poder e favorece o Porto, que vai atrair um grande afluxo de habitantes e dilatar o seu espaço territorial. Estimulado pelas trocas comerciais, como encruzilhada obrigatória para o circuito mercantil,, o Porto transforma-se na capital de uma vastíssima região económica. É neste período de convivência pacífica entre o poder episcopal e o poder civil, que o Porto cresce e se afirma. O Bispo soube compreender as vitalidades do burgo que recebera das mãos de D. Teresa e ajudou-o a crescer.
Mas a situação evoluiu e os interesses deixaram de ser coincidentes. A Cidade ganhava poderio económico e sentia-se na legitimidade de reclamar o seu próprio poder, entrando em sucessivos confrontos com o episcopado, que procurava defender as suas prerrogativas. Na sequência destes conflitos, o Porto, que continuara a crescer, passa para o domínio da coroa, transformando-se em senhorio régio. Apesar disto, o Bispo continuará a constituir um cargo com importância determinante na vida da Cidade.
Todo o Bispo colocado no Porto, desde que detentor de uma pesonalidade forte, foi destinado a ficar na história. A sua influência social e o papel evangelizador foram-se sedimentando ao longo dos tempos, num trabalho de dignificação institucional que visou, sempre, contribuir para a consolidação e engrandecimento da diocese.
Uma leitura lúcida e atenta da história do Porto, encontra, naturalmente, exemplos em que o poder episcopal foi exercido contrariando o espírito geral de uma Cidade votada às causas da liberdade e das lutas por uma participação cívica.
Grande parte dos bispos teve, porém, uma actuação relevante, quer no desempenho das suas funções religiosas, quer na execução de tarefas cívicas de vasto alcance comunitário, promovendo a construção de igrejas, preservando monumentos, fomentando a assistência às classes sociais mais desfavorecidas.
O Porto guardou sempre um lugar especial para o seu Bispo e ganhou novas energias quando o sentiu ao seu lado. Assim aconteceu com D. António Ferreira Gomes, que em período difícil da nossa História recente soube incarnar os valores da Cidade e identificar-se com ela.
Ao ousar levantar-se contra a ditadura e pugnar, claramente, pelos ideais da Liberdade e da Democracia, numa Cidade, que se afirmava como principal baluarte da oposição ao regime ditatorial, a coragem e a firmeza do seu Bispo foram determinantes. D. António Ferreira Gomes ousou enfrentar o sistema, numa atitude inédita em que a Igreja se dissociava, pela primeira vez, do poder estabelecido.
Soube ser interveniente e corajoso, denunciar e rasgar cumplicidades que minimizavam o papel da Igreja, soube ser livre e solidário num país sem liberdade.
Por isso o Porto o sentiu como uma das suas mais ilustres figuras e lhe atribuiu o seu mais alto galardão - a medalha de honra da Cidade.
Os tempos são hoje, felizmente, outros. Vivemos num Estado livre e democrático em que as instituições funcionam e em que os cidadãos são livres de se exprimir e intervir na vida pública. Por isso mesmo, época propícia a protagonismos fáceis que depressa se fizeram sentir. Tempos de tolerância e ainda por isso susceptíveis de permitirem, mesmo que legitimamente, uma frequente visibilidade pública.
Não é este, porém, o caso de D. Júlio Tavares Rebimbas. Arcebispo Bispo do Porto era-lhe fácil o acesso à ribalta do mediatismo. Mas não quis esse caminho. Bem ao contrário, dirigiu a diocese com uma postura d simplicidade e de abnegação, optando por uma actuação serena e discreta, mas imbuída de uma grande profundidade. D Júlio afirmou-se pela sobriedade, promoveu a solidariedade social, estimulou o trabalho em prol dos mais desfavorecidos, agiu sem qualquer ânsia de protagonismo, com uma humildade evangélica sem limites e dignificou o papel da Igreja.
D. Júlio Tavares Rebimbas teve uma postura exemplar. Ao chegar a hora do legítimo descanso, o Porto sente-se orgulhoso do seu Bispo e quer colocá-lo na galeria dos seus mais ilustres.
Sabemo-lo avesso a homenagens. Mas a Cidade deve-lhe uma palavra e que hoje aqui lhe trago. Queremos apenas dizer-lhe muito obrigado».
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