
«Para uma política humanista» foi o tema que Mário Soares tratou, com permanentes referências à sua experiência, e com clara alusão à sua fé no mistério do Homem, sua origem e destino, e no progresso humano, desde a barbárie à civilização, ou na democracia e no dever de colocar sempre a pessoa humana no centro de todas as atenções. Salientou que o caminho da Paz implica uma maior atenção ao mundo dos famintos e mais coordenado esforço no diálogo, e confessou-se humanista, com uma filosofia baseada nos valores e no respeito pelo outro. Manifestou depois a sua confiança no Homem, na sua condição e progresso, «em que alguns vêem a mão de Deus», e na busca da Paz.
João Paulo II, os cardeais Etchegaray e Casaroli, o Vaticano II, os encontros de Assis e a Comunidade de Santo Egídio, em Itália, foram pessoas e instituições referidas com grande apreço, ao mesmo tempo que criticou o anticlericalismo primário da primeira República e equivalentes atitudes «fundamentalistas» por parte de católicos.
Confessando-se «agnóstico», gostou, entretanto, de ter sido convidado para umas jornadas de universitários católicos, o que é sinal de que, uns e outros, podem dialogar e colaborar, pois têm muito de comum. Acentuou que não ignora «o mistério da vida e o mistério da nossa própria existência, da nossa própria condição de homem: Quem somos? Donde vimos? Para onde vamos? O que fazemos e o que devemos fazer na terra e para quê?». E manifestou não ter resposta para esse mistério que acompanha todo o ser humano, desde o nascer até ao morrer, «o mistério da própria existência e do próprio destino», tendo acrescentado com humildade: «Nunca fui tocado pela graça da Fé, porque a Fé, a capacidade de acreditar, de crer em Deus, na imortalidade da alma, é uma graça, quando ela é sincera e não resulta apenas de um hábito ou de uma rotina. Mas, para aqueles que são sinceros e que não foram tocados por essa graça, essa Fé é difícil de chegar, embora eu acredite..., não na existência de Deus... que não sei se existe ou não, como se manisfesta, em que consiste..., mas acredito, isto é, tenho realmente fé na pessoa humana, no Homem, na maravilhosa condição da pessoa humana. E acredito no progresso humano, da barbárie à civilização e a estádios que podem ser muito superiores».
E «por que acredito no Homem? Não encontrei a resposta, mas entendo que releva um certo espírito religioso, como lhe dissera um dia o cardeal Etchegaray, presidente da Comissão Justiça e Paz, acrescentando que esse sentimento de Fé no Homem é da mesma natureza - «e eu acredito que sim», acrescentou - que o da Fé em Deus ou, de outro modo, que «quem acredita no Homem necessariamente acredita em Deus mesmo sem o saber». E logo advertiu que não se abalançaria a tratar tal assunto por lhe faltar competência e por não ser esse o tema desse dia, mas que, o facto de ter sido convidado e ter aceite o convite prova que o diálogo entre crentes e não crentes é possível e desejado e que pode ser leal, salutar e vantajoso para todos.
Apontou, em seguida, os grandes progressos que foram feitos, desde o anticlericalismo equívoco da primeira República em que crentes e não-crentes se lançavam pedras e cada um não admitia que o outro pudesse ter uma parte da verdade. E manifestou o seu grande apreço pelo diálogo entre religiões, como desde há anos tem sido incrementado por João Paulo II sob o signo de S. Francisco, e que, às vezes, é bem difícil por causa de certas posições dogmáticas.
Mário Soares falou depois da sua participação em actividades da comunidade de Santo Egídio, «na qualidade de não crente», onde pedira aos crentes que não fizessem a guerra entre si mas tentassem encontrar «um terreno comum de olhos postos no destino do homem e nos valores do humanismo e da solidariedade entre os mais povos». E, na sequência do último tema - «A paz é o nome de Deus»- poderá concluir-se que, para um crente, a Paz é um valor tão importante como Deus e, por isso, divulgar a mensagem do Evangelho, viver com os pobres e trabalhar em favor da Paz são objectivos que subscreve «sem nenhum esforço».
Falou ainda do humanismo, da solidariedade e da busca do bem, do justo, da verdade, conceitos absolutos que emergem da consciência do Homem. E salientou que o humanismo deriva da herança judeocristã, emerge na Idade Média e que daí seguiu pelas universidades até ao iluminismo e aos humanismos do nosso século, na «era dos extremos», adjectivando-o de cristão, marxista, existencialista..., quando o mais importante será essa atitude de «caridade» ou de fraternidade em favor do Homem».
Importará, concluiu, «enriquecer ainda mais o conceito de humanismo para podermos legar aos vindouros um mundo melhor», vencendo o neoliberalismo, o culto do dinheiro e o consumismo, bem contrários ao humanismo a que será preciso voltar.
Por último falou de práticas políticas «democráticas», do respeito pela Lei e do dever de intervir na vida pública e respeitar os direitos do Homem e as minorias. Defendeu a divisão dos poderes e a possibilidade de intervir na política mesmo de fora dos partidos e referiu os novos poderes, entre os quais o dos meios de Comunicação. E apelou ao humanismo assente no reconhecimento do outro, na defesa da Paz e do ambiente, «e sobretudo na confiança no Homem e na sua condição e progresso em que os crentes vêem a mão de Deus».
As VI Jornadas tiveram a participação artística de Marta Lima e Rui Ferro, de Alice Prata e Fernando Maia, de Nelson Alexandre e de Francisco Fanhais. E intervenções do historiador Jorge Pedreira («Todos diferentes, todos iguais. um processo histórico»), do deputado Alberto Martins, da jornalista Diana Andringa e da socióloga Paula Abreu («Os cidadãos e a Política») e dos padres Bento Domingues, OP, e Agostinho Jardim Gonçalves, da Oikos, sobre Jesus «homem político» e sobre os homens gerados pela Política.
As Jornadas concluiram-se com a apresentação de conclusões, a que a «VP» dará relevo no próximo número.
| Primeira Página | Página Seguinte |