| Liturgia: | ||
Domingo XXVI do Tempo Comum - Ano b 28 de Setembro
de 1997
A primeira parte do Evangelho deste Domingo tem subjacente este antiquíssimo relato.
Há um profetismo ligado de modo estável ou transitório à «instituição»; mas também pode haver um profetismo independente dela e, nem por isso, menos autêntico. Ninguém, nem sequer uma instituição de origem divina, pode monopolizar os dons de Deus.
Tal como Jesus no Evangelho, também Moisés se demarca de ciúmes de inspiração integrista, reconhecendo e celebrando a liberdade e liberalidade divina.
2. Ai de vós, os ricos...
(Tg 5, 1-6)
Terrível e veemente invectiva contra os ricos, presumivelmente pertencentes à comunidade cristã!
São gravíssimas as culpas dos ricos: acumulação de riquezas inúteis (em vez de «investir» fazendo o bem); salários em dívida; vida luxuosa e libertina; injustiça, violência gratuita, homicídio... E tudo isto de forma continuada, contra vítimas indefesas, presumindo impunidade e até ao último instante da vida. Por isso, São Tiago carrega no tom das ameaças: «...estivestes a engordar para o dia da matança!».
O tom usado faz lembrar Amós, o profeta pastor e camponês que se levantou em nome de Deus defendendo os pobres. Importa porém sublinhar, a par da motivação ética, a inspiração escatológica («acumulastes tesouros nestes dias que são os últimos»; «dia da matança»...).
3. Quem não é contra nós,
é por nós (Mc 9, 38...48)
Jesus continua a formar os seus discípulos, com normas precisas e práticas: ser tolerantes para com os que vivem à margem da comunidade; viver na caridade e defender os pequenos do mal; estar de prevenção contra as tentações, sobretudo contra a da falsa segurança.
O dito de Jesus («Quem não é contra nós é por nós») não se pode ler na forma inversa e arvorar em bandeira de exclusões. Note-se que há uma infinita distância entre o «nós» deste rifão e o «Eu» da frase aparentemente contrária de Mt 12, 30 («Quem não está comigo está contra Mim»): sem Jesus nada podemos fazer, mas o poder de Deus manifestado em Jesus não é propriedade privada dos discípulos...
No Novo Testamento os «pequeninos» parecem ser os crentes de fé mais débil e insegura. À letra, o «escândalo» é a pedra ou obstáculo imprevisto que faz tropeçar quem caminha.
Os «pequeninos» precisam de uma mão que os segure, de um olhar que os ilumine, de um pé que apoie os seus passos vacilantes. Quando a mão em vez de firmar empurra, o olho guia para as trevas e o pé rasteira ou agride o irmão, eis o escândalo. Há aqui um apelo a que os discípulos velem pelo seu comportamento tendo em conta a influência que ele pode ter no próximo. Não aconteça que, no orgulho da auto-suficiência, se tornem causa de ruína para os «pequeninos».
«Geena»: um vale a ocidente de Jerusalém, outrora assinalado como lugar de sacrifícios humanos em honra de Moloc; no tempo de Jesus queimavam-se aí os lixos da cidade. No nosso texto, «ser lançado na Geena» está em contraste com «entrar na vida» (o termo usado é zoê em vez de bios , que no NT costuma designar a vida em comunhão com Deus).
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Toda a Igreja de Deus está ordenada segundo graus distintos uns dos outros, de modo que a integridade do corpo consagrado subsista a partir de membros diversos; entretanto, como diz o Apóstolo, todos nós somos um só em Cristo (cf. Gal 3, 28). A diversidade de funções não é de modo algum causa de divisão entre os membros, já que todos, por mais humilde que seja a sua função, estão unidos à cabeça. [...]
A todos os que renasceram em Cristo, o sinal da Cruz fez reis e a unção do Espírito Santo consagra sacerdotes. E assim, com excepção desta especial servidão do nosso ministério, todos os cristãos espirituais e racionais, devem reconhecer que são participantes da raça de reis e do ofício sacerdotal. Não será, na verdade, função régia o facto de uma alma, submetida a Deus, governar o seu corpo? E não será função sacerdotal consagrar ao Senhor uma consciência pura e oferecer no altar do coração a hóstia imaculada da nossa piedade? Pela graça de Deus, estas prerrogativas são comuns a todos.
| (S. Leão Magno, Sermão 4, 1) |
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1. A oração colecta da Missa de
hoje encerra uma frase lapidar que pensamos merecedora de destaque.
Com ela, por exemplo, se pode abrir o acto penitencial: «Senhor,
que dais a maior prova do Vosso poder quando perdoais e vos compadeceis!»
2. O tema central comum à 1ª leitura e ao Evangelho recorda-nos que o Espírito não está prisioneiro das instituições - por boas e santas que estas sejam mas «sopra onde quer»: daí o verificar-se de uma certa actividade carismática para além dos círculos das pessoas «oficialmente» qualificadas».
3. Tendo em conta que estamos no relançamento do ano pastoral, pensamos que essa ideia central da Liturgia da Palavra pode ajudar o grupo litúrgico e os demais grupos e equipas paroquiais a rever o modo como têm praticado o acolhimento: quer das pessoas, quer dos dons - carismas - que o Espírito não deixa de derramar tanto sobre os membros da equipa como sobre muitos outros ainda não devidamente reconhecidos nem enquadrados na programação pastoral.
4. Leitores: 1ª leitura: texto narrativo. A apresentação do contexto, introduz o diálogo final. A leitura culmina na fala de Moisés: uma interrogação retórica seguida de uma exclamação/voto que importa ler de modo adequado.
2ª leitura: cuidado para não cair no habitual tom de lamúria; mas também não é necessário exagerar o tom de denúncia e ameaça; basta deixar falar o texto, de si tão expressivo e veemente.
5. Sugestão de cânticos: Entrada: Vós sois justo, Senhor, F. Valente, BML 107, 89; Chegue até vós, F. Santos, BML 52, 11 ou NCT 213; Dai a paz, Senhor, Manuel Faria, NCT 214; Salmo Resp.: Os preceitos do Senhor, Manuel Luís, SR(B), 129; Aclam. ao Ev.: A Vossa Palavra, adapt. NCT 239; Comunhão: Como é admirável, F. Santos, BML 77, 93 ou NCT 257; Ide pregar o Evangelho, F. Santos, NCT 608.
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