Liturgia:

A MESA DA PALAVRA

10º. DOMINGO DO TEMPO COMUM
8 de Junho


Leitura do Livro do Génesis Gen 3, 9

Depois de Adão ter cometido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: «Onde estás?» Ele respondeu: «Ouvi o rumor dos teus passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». Disse Deus: Quem te teu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer'» Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi». O Senhor Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?» E a mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi». Disse então o Senhor Deus à serpente: «Por teres feito semelhante coisa, maldita sejas entre todos os animais domésticos e todos os animais selvagens. Hás-de rastejar e comer do pó da terra todos os dias da tua vida. Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Ela há-de atingir-te na cabeça e tu a atingirás no calcanhar».


Salmo Responsorial Salmo 129

No Senhor está a misericórdia e abundante redenção.

Do profundo abismo chamo por Vós, Senhor,
Senhor, escutai a minha voz.
Estejam os vossos ouvidos atentos
à voz da minha súplica.

Se tiverdes em conta os nossos pecados,
Senhor, quem poderá salvar-se?
Mas em Vós está o perdão
para Vos servirmos com reverência.

Eu confio no Senhor,
a minha alma confia na sua palavra.
A minha alma espera pelo Senhor
mais do que as sentinelas pela aurora.

Porque no Senhor está a misericórdia
e com Ele abundante redenção.
Ele há-de libertar Israel
de todas as suas faltas.


Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo
aos Coríntios
2 Cor 4, 13-5,1

Irmãos: Diz a Escritura: «Acreditei; por isso falei». Com este mesmo espírito de fé, também nós acreditamos, e por isso falamos, sabendo que Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há-de ressuscitar com Jesus e nos levará convosco para junto d'Ele. Tudo isto é por vossa causa, para que uma graça mais abundante multiplique as acções de graças de um maior número de cristãos para glória de Deus. Por isso, não desanimes. Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia. Porque a ligeira aflição dum momento prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória. Não olhamos para as coisas visíveis, olhamos para as invisíveis: as coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas. Bem sabemos que, se esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos dos Céus uma habitação eterna, que é obra de Deus e não é feita pela mão dos homens.


Aleluia. Aleluia.

Chegou a hora em que vai ser expulso
o príncipe deste mundo, diz o Senhor;
e quando Eu for levantado da terra,
atrairei todos a Mim.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo
segundo São Marcos
Mc 3, 20-35

Naquele tempo, Jesus chegou a casa com os seus discípulos. E de novo acorreu tanta gente, de modo que nem sequer podiam comer. Ao saberem disto, os parentes de Jesus puseram-se a caminho para O deter, pois diziam: «Está fora de Si». Os escribas que tinham descido de Jerusalém diziam: «Está possesso de Belzebu», e ainda: «É pelo chefe dos demónios que Ele expulsa os demónios». Mas Jesus chamou-os e começou a falar-lhes em parábolas: «Como pode Satanás expulsar Satanás? Se um reino estiver dividido contra si mesmo, tal reino não pode aguentar-se. E se uma casa estiver dividida contra si mesma, essa casa não pode aguentar-se. Portanto, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não pode subsistir: está perdido. Ninguém pode entrar em casa de um homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar: só então poderá saquear a casa. Em verdade vos digo: Tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e blasfémias que tiverem proferido: mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão: será réu de pecado eterno». Referia-Se aos que diziam: «Está possesso dum espírito impuro». Entretanto, chegaram sua Mãe e seus irmãos, que, ficando fora, mandaram-n'O chamar. A multidão estava sentada em volta d'Ele, quando Lhe disseram: «Tua mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura». Mas Jesus respondeu-lhes: «Quem é minha Mãe e meus irmãos?» E, olhando para aqueles que estavam à sua volta, disse: «Eis minha Mãe e meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe».

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UMA LEITURA DOS TEXTOS BÍBLICOS

O Senhor é a minha luz e salvação: a quem temerei?

«Por si mesmo e por próprias forças não há ninguém que se liberte do pecado e se eleve acima de si mesmo, ninguém absolutamente que se liberte a si mesmo da sua enfermidade, da sua solidão ou da sua escravidão, mas todos precisamos de Cristo como modelo, mestre, libertador, salvador, vivificador» (CONC. VAT. II, Decreto Ad Gentes 8).


1ª Leitura: Gn 3, 9-15 - Estabelecerei inimizade entre a tua descendência e a da mulher.

O relato, composto pelos anos 950 a.C., contém elementos mitológicos das religiões tradicionais de Canaã, Fenícia e Ugarit. No cap. III do Génesis podem considerar se três secções: o pecado (1-8); o interrogatório de Deus (9-13); e o castigo divino à serpente, à mulher e ao homem, actores da desobediência (14-19). A leitura apenas recolhe o interrogatório e a 1ª parte do castigo.

O homem, ao comer da árvore, faz uma opção consciente e deliberada: livre. Surge assim a plena luz toda a sua força negativa, a sua malícia: o encontro com Deus manifesta-a como «pecado».

Com uma narração imaginativa e antropomórfica, este encontro toma o carácter de juízo, com interrogatório e sentença. Nele se percebe como a relação entre o homem e o seu Criador, no interior das realidades criadas, foi profundamente perturbado. A dinâmica egoísta proposta pela astúcia da serpente e aceite pelo homem dá os seus frutos, penetrando a humanidade.

Há contudo um sinal de esperança na promessa de que Deus não desampara a sua obra: da linhagem de Eva sairá o Messias que triunfará definitivamente sobre o mal, o pecado e a morte.


2ª Leitura: 2 Cor 4, 13 - 5, 1 - Acreditamos e por isso falamos.

Até ao domingo 14º deste ciclo B somos acompanhados pela 2ª carta de S. Paulo aos Coríntios. Na opinião dos exegetas, ela é uma compilação de escritos paulinos originariamente independentes.

No trecho de hoje, comentando do Sl 116, 10 (tradução grega), Paulo continua a descrição da desproporção entre a condição humana dos ministros da Palavra e os efeitos que o Evangelho produz nos ouvintes. A força da Palavra está, pois, na acção da graça que Deus derrama com abundância.

«Acreditei, por isso falei»: o ministério pastoral brota da experiência de fé do evangelizador. Paulo exprime a citada desproporção por meio de cinco antíteses: arruinando renovando; aflição glória; visíveis invisíveis; passageiros eternos; morada terrestre habitação eterna.

A uma história marcada pela dinâmica do pecado das origens, contrapõe-se a força actuante da ressurreição de Cristo nas nossas vidas.


Evangelho: Mc 3, 20-35 - Satanás está perdido.

Após a sentença dos chefes do povo que definitivamente romperam com Jesus (final do Evangelho do IX Domingo) abre-se uma nova secção no Evangelho de Marcos, em que ainda predomina o ministério de Jesus junto das massas, até que, em Nazaré, também estas não serão capazes de passar da surpresa e do espanto para uma atitude de fé (6, 6). Até ao domingo XIV acompanharemos os principais momentos desta evolução.

A acção evangelizadora de Jesus provoca reacções distintas nos seus ouvintes: a multidão, os enfermos, os discípulos, os escribas e os seus próprios parentes. No trecho aparecem os dois últimos: escribas e parentes.

A resposta de Jesus à acusação dos escribas é a demonstração do absurdo da sua acusação: como pode proceder do mal a sua acção que, precisamente, consiste na luta contra o mal?

O pecado contra o Espírito Santo, neste contexto, relaciona-se com a atitude dos escribas que não reconhecem em Jesus a acção de Deus. Na reflexão judaica, havia pecados que se consideravam excluídos da misericórdia de Deus. Aqui só se exceptua a blasfémia contra o Espírito Santo, quer dizer, a recusa em acolher a misericórdia de Deus manifestada aos homens em Jesus.

Os «irmãos» de Jesus são mencionados também em Mc 6, 3; Act 1, 14; 1 Cor 9, 5 (nunca, porém, se menciona a existência de «filhos de Maria»). No uso semítico, «irmão» tanto pode ter um sentido estricto (irmão carnal) como lato (irmão = parente). Neste último sentido, amplamente documentado no AT e no NT, sempre se interpretou a expressão «irmão(s) de Jesus» na tradição católica. Esta incompreensão dos familiares de Jesus é atestada também por Mc 6, 4 e Jo 7, 5. Não basta ser parente de Jesus para se ser seu discípulo.

Quem fizer a vontade de Deus: esta é a condição do discípulo. Jesus olha a nova família que se reúne à sua volta. Oposta à desobediência do primeiro casal humano no paraíso, nasce uma nova família na obediência à vontade de Deus. Cumpre-se a promessa.

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HOMILÁRIO PATRÍSTICO

Pecado irremissível

Quando Jesus diz: «Quem pecar contra o Espírito Santo» ou «Quem blasfemar contra o Espírito Santo», não se refere a um qualquer pecado cometido contra o Espírito Santo com acções ou palavras, mas a um pecado bem determinado, isto é, àquele que consiste na obstinação do coração até ao fim da vida, pela qual alguém se recusa a receber o perdão dos pecados na unidade do Corpo de Cristo, vivificado pelo Espírito Santo.

Com efeito, logo após ter dito aos discípulos: «Recebei o Espírito Santo», acrescentou: «A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; serão retidos a quem os retiverdes». Quem, portanto, recusar este dom da graça e se lhe opor e de algum modo se mostrar mal disposto para com ele até ao fim da vida terrena, não lhe será perdoado nem nesta vida nem na futura porque é um pecado naturalmente tão grave que impede a remissão de todos os outros.

Não pode, porém, provar-se que alguém o tenha cometido, senão depois da morte. Enquanto se vive nesta terra, a paciência de Deus, como diz o Apóstolo, procura somente impeli-lo ao arrependimento (Rm 2, 4).

(S. Agostinho, Carta 185, 11, 49s)

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SUGESTÕES LITÚRGICAS

1. A família de Jesus é constituída pela comunidade daqueles que o escutam e fazem a sua vontade. É bom que a assembleia celebrante, disponível para ouvir a Palavra de Deus, tenha a oportunidade de se rever nessas palavras de Jesus. Dessa experiência de fé pode arrancar a homilia. Esta deveria centrar-se na mensagem central da Liturgia da Palavra: Em Jesus, o descendente da Mulher, o domínio de Satanás chegou ao fim.

2. Neste Domingo poderia cuidar-se melhor a preparação do Acto penitencial, contrapondo a realidade do pecado e a força libertadora da ressurreição de Cristo. Tropos para a fórmula C (Senhor, que...., tende piedade de nós) poderão ser redigidos de forma breve e incisiva a partir das ideias e expressões da 1ª leitura, do Salmo Responsorial e do Evangelho: raramente se dispõe de textos tão estimulantes. Recordemos que estes tropos se dirigem, como regra, a Cristo (e não à SS. Trindade).

3. Leitores: 1.ª Leitura: estamos perante um diálogo, a exigir uma entoação cuidada (mas sem exageros teatrais), que permita aos ouvintes distinguir as diferentes falas. 2.ª leitura: o trecho paulino está cheio de ritmo (importância das adversativas), proporcionando uma leitura viva e bem cadenciada. Exercite-se a respiração para ler as frases mais longas sem cortes inoportunos.

4. Sugestão de cânticos: Entrada: O Senhor é a minha luz, F. Santos, BML 77, 92; NCT 224; F. Silva, BML 64, 63; Salmo Resp.: Junto do Senhor, M. Luís, SR(B) 112; Aclam. ao Ev.: Chegou a hora, adapt. NCT 241; Comunhão: Apareceu entre nós, F. Santos, BML 29, 15; Grandes e admiráveis, F. Santos, BML 103, 27; Justos e verdadeiros, F. Santos, NCT 606; O Senhor misericordioso, M. Luís, NCT 607.
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