Cultura:

«CINEMA»

"A Tosquiadela" vence no Algarve

Portimão e outras cidades algarvias acolheram de novo o mais antigo festival de cinema que se realiza em Portugal, o FICA-Festival Internacional de Cinema do Algarve, que este ano comemorou as suas Bodas de Prata, tendo-se revelado um enorme êxito junto do público, de todas as idades, que nesta época do ano se encontra em gozo de férias por aquelas bandas.

Entre 19 e 25 de Maio, cinquenta e cinco curtas-metragens disputaram o Grande Prémio "Cidade de Portimão", mas foi no criativo e divertido trabalho do britânico Nick Park, «A Close Shave», que o olhar do Júri Internacional se fixou este ano. Tratava-se de contar, através da modelagem de plasticina, as aventuras de Wallace & Gromit. A semana passada já aqui fiz referência a alguns filmes que disputavam prémios neste certame vocacionado para a Curta-Metragem. Precisamente, alguns deles foram contemplados com prémios. Aqui fica, pois, a lista completa das decisões de cada um dos diferentes júris. Convêm acrescentar que eram atribuídos prémios em duas secções: a "A" (Profissionais) e a "B" (Independentes e Escolas de Cinema). Assim, eis o palmarés do FICA '97:

O Júri Internacional, além do Grande Prémio "Cidade de Portimão", contemplou os seguintes filmes. Na Secção A: «A Busca/Quest», de Tyron Montgomery (Alemanha), como Melhor Filme de Animação (saliente-se, uma vez mais, que este criativo trabalho com areia foi o vencedor do Oscar para a Melhor Curta-Metragem de Animação 1996, além de ter ganho o Prémio da Crítica no Cinanima, de Espinho, e o "Cartoon D'Or '96", no ano passado), e «Das Tripas Coração/De Tripas Corazon», de António Urrutia (México), como Melhor Filme de Ficção. Na Secção B: «The Chicken From Outer Space», de John Dilworth (EUA), como Melhor Filme de Animação, «Leonie», de Lieven Debrawer (Bélgica), como Melhor Filme de Ficção, e «Naturezas Mortas», de Penna Filho (Brasil), como Melhor Documentário. O Júri Internacional atribuiu também o Prémio "António Bernardo", que premeia Primeiras Obras, ao filme de animação «O Massacre dos Inocentes», do jovem cineasta português Victor Lopes.

O Júri Europeu escolheu os seguintes trabalhos: «En Garde, Monsieur!», de Didier Fontan, da França (na Secção A) e «Disgracefull Conduct», de Eva Weber, do Reino Unido (na Secção B).

O Júri da Imprensa sentiu enorme dificuldade nas suas escolhas, dada a alta qualidade da Selecção Oficial do FICA '97, com que se congratulou. Assim, na Secção A, o prémio foi para «A Viga/La Viga», de Roberto Lázaro (Espanha), e na Secção B, para «Disgracefull Conduct», de Eva Weber (Reino Unido).

O Júri da Juventude não teve dúvidas em também premiar o espanhol «La Viga», na Secção A, mas preferiu «Daughter of the Sun», de Anita Killi (Noruega), como melhor filme para jovens, na Secção B.

O Júri do Público seleccionou o excelente e sensível trabalho do mexicano Antonio Urrutia, «De Tripas Corazon», filme que esteve nomeado para o Oscar de Melhor Curta-Metragem 1996.

Foi ainda atribuído o Prémio "Adriano Morais" a Roberto Lázaro pelo seu imaginativo trabalho «La Viga», um misto de comédia e crítica sócio-política, que este ano recebeu o Prémio Goya do Cinema Espanhol, para a Melhor Curta-Metragem de Ficção.

A RTP é a primeira estação de televisão nacional a conceder um significativo patrocínio ao FICA, numa altura em que ambos festejam aniversários (o canal estatal atingiu os 40 anos de existência). Assim, cada ano será atribuído um novo e tentador prémio, designado como "Prémio RTP". O vencedor verá a sua obra ser adquirida pela televisão do Estado e posteriormente exibida na rubrica "Onda Curta", na RTP2. Nesse sentido, um júri composto por João Garção Borges (Chefe do Departamento de Séries Nacionais, Teatro e Telenovelas da RTP) e Oliveira Pinto (Jornalista da RTP), escolheu duas bastante criativas e divertidas películas: «Surprise», de Veit Helmer (Alemanha), e «Le Réveil», de Marc-Henri Wajnberg (Bélgica), filmes que despertaram no público o riso franco e as palmas mais concorridas.

Em vinte e cinco anos, foi a primeira vez que participei no Festival Internacional de Cinema do Algarve, numa altura em que a organização do certame atravessa enorme crise, por falta de apoios financeiros (do IPACA e do Ministério da Cultura) e patrocínios autárquicos, que caiem no ridículo de dizer que "...a assembleia se reuniu para atribuir um forte abraço ao director do Festival" (como se palmas e abraços pagassem dívidas!). Carlos Manuel, o Director-Geral do FICA, fez-me o convite em Novembro do ano passado, em Espinho, e desde logo manifestei interesse em estar presente na realização deste ano. E em boa hora o fiz.

Carlos Manuel sabe receber bem e não restam dúvidas de que o ambiente é de amigos e boa disposição. O festival oferece tudo (mais que muitos outros do género que se realizam no nosso país), numa zona de turismo internacional, como é o Algarve. Mas, falta-lhe muito mais. A imprensa nacional não lhe dá o devido destaque, e isso faz muita diferença. Depois, as infraestruturas de Portimão-Praia da Rocha não são as melhores: o cinema onde as sessões decorriam era distante do centro organizativo e não oferecia aceitáveis condições técnicas. Parece que no próximo ano já haverá um cinema à altura. A dúvida é se haverá FICA em 1998? Espera-se que sim, embora Carlos Manuel se sinta muito descontente e desmotivado. Se os apoios forem mais significativos, se as dívidas em atraso não tiverem de ser pagas pelo próprio bolso, a organização reconsiderará. Pelo menos já há data marcada para o próximo ano, será de 25 a 31 de Maio de 1998. E eu vou lá estar, acreditem!
Vasco Martins
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Agridoces impressões de viagem

A melhor maneira de viajar é sentir
Álvaro de Campos


1. O que dizia o poeta sensacionista, futurista e destemido, que era Álvaro de Campos, que disse quase tudo o que um poeta tem o direito de dizer, talvez não se aplique ao que devo eu agora escrever. Viajar é observar. Viajar no rio é observar as margens.

Subir o Douro é uma experiência ainda não completamente aproveitada em todas as suas potencialidades turísticas. A navegabilidade deste rio, por cara que foi, não parece devidamente rentabilizada. No entanto alguma coisa se vai fazendo, sempre mais em torno da chamada gastronomia do que de outro universo mental mais abrangente, a que se poderia chamar turismo cultural, ou turismo completo, turismo total. Ou turismo integral que, como o pão do mesmo nome, pode ter aspecto mais escuro (ao menos para alguns olhos e certas mentalidades), mas é mais saudável.

2. Subir o Douro (ou descer, que vai dar ao mesmo; também aqui se aplica aquilo que diz "o que sobe vai descendo e o que desce vai subindo") é uma curiosa experiência. As margens são geralmente deslumbrantes, sobretudo a partir da barragem do Carrapatelo, que é a mais alta e a mais grandiosa de todas as que no Douro estão implantadas. E aqui se encontra uma das razões pelas quais esta crónica tem algum sabor a doce, para além do convívio, do sol que se derrama gratuitamente nas nossas cabeças, e da chuva que é madrasta, e vem sempre quando não a queremos. O aproveitamento turístico deste rio cheio de história, de tradições, de rabelos, de sável e de lampreia, estrada entre as margens, bênção de populações seculares, pode ser útil a todos: às cidades que o acolhem e aos campos e montes que o bordejam. E até aos senhores e aos servos que lhe plantam casas à beira, para que as bafeje da sua magia aquática e terrestre, montanhosa e ribeirinha, líquida e pedregosa.

3. Eis o ponto em que as impressões se começam a transformar de doces em agras, ou acres, ou agrestes, ou agressivas. O primeiro que temos a lamentar e a alertar as entidades competentes é para o facto insólito (embora costumeiro) de em numerosos lugares as margens estarem transformadas em lixeiras. O fenómeno começa na partida e termina na chegada. Tanto de verifica numa margem como na outra, e abarca equitativamente todos os municípios envolventes: o do Porto, o de Gaia, o de Gondomar, o de Paiva, o de Canaveses, o de Baião, o de Cinfães, o de Resende, o da Régua, e como mais há, lá chegará: é questão de continuar a subir. Sabemos como a nossa gente ainda está deseducada para a deposição de detritos em qualquer lugar. É uma das mais descuidadas e descuradas dimensões da cidadania, que tanto se verifica nas míticas margens do Douro como em qualquer estrada, moderna ou mal sinalizada, daquelas que abundam pelo país: nenhum escapa à condição triste de assumir papel de depósito gratuito de lixo. É vulgar observar cidadãos comuns e invulgares, parados à beira da estrada, a despejar detritos do automóvel para as bermas e barreiras. O que é quase tão invulgar como suor de cantoneiro é ver os serviços competentes das câmaras municipais a retirar esse lixo ou a desfazer essas lixeiras. O que está sujo induz mais sujidade.

Só há duas maneiras, ambas necessárias e de igual responsabilidade, mas ambas descuradas, e gravemente, de "manter a cidade (ou aldeia que seja) limpa": uma é não sujar, a outra é limpar. Ambas competem aos cidadãos e ambas competem aos poderes públicos. Qualquer casa que não se limpe, em pouco tempo está inabitável e degradada. Com as ruas e os campos, que são a casa de todos, acontece o mesmo. As câmaras municipais não podem preocupar-se apenas com a grandeza das suas sedes, geralmente grandiosas e vistosas, não raro faraónicas (e longe de mim contestar-lhes a pertinência ou necessidade), ou com a propaganda dos bairros sociais ou dos edifícios escolares. Mais vale a casa pobre mas limpa, do que deslumbrante e porca.

Ora este á a memória amarga da minha viagem: o descuido de cidadãos e munícipes em manterem limpas as margens de um rio do qual tiram a vida e a quem esquecem nas situações de desgraça. O cidadão nacional ou estrangeiro tem o direito de não ser agredido, quer na paisagem quer nas nefastas consequências ecológicas da falta de limpeza das margens do rio.

Seria bem pequeno o adicional a investir pelas autarquias (que mais que exaltarem-se em congressos se devem preocupar por cumprir a sua missão, com atenção e humildade), para erradicarem os focos de lixo e detritos que bordejam este rio, os outros rios, as estradas e os caminhos. Quem não limpa a casa em que se deita esquece a saúde do corpo e o asseio e limpidez do espírito. E quem não possui espírito asseado também não consegue assear a casa.

4. O mesmo se diga da sempre simpática e moderníssima companhia dos caminhos de ferro: é deprimente caminhar ao longo daquelas férreas linhas, daquelas travessas alinhadas, ao som rítmico e martelado dos rodados sobre os carris, e deparar a cada batimento com montes de detritos, que ali estarão perdidos há séculos, ao sabor descuidado e inerte das responsabilidades não assumidas. Será que esse serviço não é rentável (ou rendível)? Talvez não seja, provavelmente. Mas muito mais prejuízo se sofre por não ser feito: sofre a natureza, sofrem os cidadãos, sofre o bom nome de empresas nossas, sofre o país rotulado de sujo e indecoroso.

5. Já não falo de outras agressões paisagísticas, como as casas plantadas sem qualquer gosto arquitectónico ou cuidado ambiental, ao sabor sórdido de favores e peitas, pintadas em cores de garrido mau gosto novo-rico, ou de explorações de qualquer coisa, desde a areia à pedra, em espaços desarranjados e descuidados, que fazem lembrar outra chaga ambiental e social que são os cemitérios de automóveis a céu aberto, estrategicamente colocados ao longo das estradas, com todas as bênçãos autárquicas.

Oh como eram e são limpos os campos adubados ao estrume de tojo e mato! Hoje estrumam-nos com plástico e vinil, com ferro e tintas sintéticas, com óleo e graxa de máquinas, e chamam a isto as necessidades do progresso!

6. Eis aqui como a viagem doce se tornou em amarga. E como as cerejeiras e as videiras, na sua pujante vida e renovada beleza, se vêem envoltas em matas de eucaliptos queimados ou derramados, em detritos abandonados, em ferro e aço retorcidos, e em casas vermelhas ou azuis berrantes, frutos de retorcidas mentes.

Eis como a alegria contagiante de companheiros de viagem conhecidos, reencontrados ou descobertos tem que ser afogada agora na mágoa avassaladora das agressões ambientais. Quase apetece ansiar pela "aurea mediocritas" do poeta latino, e mandar à fava todo o gasóleo dos barcos, toda a técnica das eclusas das barragens, ou até mesmo o privilégio de subir um rio cuja dimensão mítica do passado se afoga nas novas mitologias do presente.
C. F.
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