Liturgia:

A MESA DA PALAVRA

Domingo VIII da Páscoa: Pentecostes
Ano B

18 de Maio de 1997


Leitura dos Actos dos Apóstolos Actos 2, 1-11

Quando chegou o dia de Pentecostes, os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar. Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem. Residiam em Jerusalém piedosos, procedentes de todas as nações que há debaixo do céu. Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu- se e ficou muito admirada, pois cada qual os ouvia falar na sua própria língua. Atónitos e maravilhados, diziam: «Não são todos galileus os que estão a falar? Então, como é que os ouve cada um de nós falar na sua própria língua? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene, colonos de Roma, tanto judeus como Prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus».


Salmo Responsorial Salmo 103

Enviai, Senhor, o vosso Espírito e renovai a face da terra.

Bendiz, ó minha alma, o Senhor.
Senhor, meu Deus, como sois grande!
Como são grandes, Senhor, as vossas obras!
A terra está cheia das vossas criaturas.

Se lhes tirais o alento, morrem
e voltam ao pó donde vieram.
Se mandais o vosso espírito, retomam a vida
e renovais a face da terra.

Glória a Deus para sempre!
Rejubile o Senhor nas suas obras.
Grato Lhe seja o meu canto.
e eu terei alegria no Senhor.


Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Gálatas Gal 5, 16-25

Irmãos: deixai-vos conduzir pelo Espírito e não satisfareis os desejos da carne. Na verdade, a carne tem desejos contrários aos do Espírito e o espírito desejos contrários aos da carne; são dois princípios antagónicos e por isso não fazeis o que quereis; mas se vos deixais guiar pelo Espírito, não estais sujeitos à Lei. As obras da carne são bem conhecidas: luxúria, imoralidade, libertinagem, idolatria, feitiçaria, inimizades, ciúmes, discórdias, ira, rivalidades, dissenções, faccionismos, invejas, embriaguez, orgias e coisas semelhantes a estas, sobre as quais vos previno, como já vos disse: os que praticam estas acções não herdarão o reino de Deus. Pelo contrário, os frutos do Espírito são: caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, temperança. Contra coisas como estas não há lei. Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne com as suas paixões e apetites. Se vivemos pelo Espírito, caminhemos também segundo o Espírito.


Aleluia! Aleluia!

Vinde, Espírito Santo,
enchei os corações dos vossos fiéis
e acendei neles o fogo do vosso amor.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João Jo 15, 26-27

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quando vier o Paráclito, que Eu vos enviarei de junto do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai, Ele dará testemunho de Mim. E vós também dareis testemunho, porque estais comigo desde o princípio. Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis suportar por agora. Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos conduzirá à verdade plena, porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que há-de vir. Ele Me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso vis disse que receberá do que é meu e vo-lo anunciará».

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UMA LEITURA DOS TEXTOS BÍBLICOS


1. «Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar»

O Pentecostes assume-se como relato programático dos Actos. Tal como Jesus recebeu o Espírito Santo no início da sua vida pública no Baptismo (cf. Lc 3, 22), também os discípulos são «baptizados» no Espírito antes da expansão do evangelho a todos os povos. Na Sinagoga de Nazaré, Jesus refere que o «Espírito do Senhor está sobre mim», ungindo-o no início da sua vida pública. Agora o Espírito é derramado sobre a comunidade dos discípulos, capacitando-os para a missão.

O dia do Pentecostes, cinquenta dias depois da festa da Páscoa, era inicialmente uma festa agrícola, ligada à ceifa do trigo e à oferta a Deus dos primeiros frutos das cearas; após o exílio adquiriu um sentido histórico-salvífico: recordava a chegada do povo ao monte Sinai, a aliança e o dom da lei.

Na sua narrativa, Lucas serve-se de elementos que lembram o quadro teofânico que antecede o dom da lei no Sinai (cf. Ex 19): «um rumor semelhante a uma rajada de vento» (v.2); «uma espécie de línguas de fogo» (v.3). São imagens para dizer o inefável: não se trata de vento, mas dum rumor «semelhante» ao duma rajada de vento; nem se viram mesmo línguas de fogo, mas «uma espécie de línguas de fogo». Estas imagens do Espírito fazem do Pentecostes um novo Sinai, uma nova aliança que reúne toda a humanidade como novo povo de Deus, tal como o Antigo Israel se encontrava reunido no sopé no Sinai.

Esta reunião universal está bem patente no facto dos discípulos começarem a falar outras línguas (v. 4) e da multidão os ouvir falar na sua própria língua (v.6). Não sabemos muito bem de que fenómeno ou fenómenos se trata: um fenómeno de dicção? uma espécie de louvor carismático? um fenómeno de audição? Mais do que a explicação do fenómeno, fica a intenção teológica de Lucas: a confusão das línguas, em Babel (cf. Gn 11,1-9) foi superada por uma compreensão universal suscitada pelo Espírito, o qual possibilitou a reunião dos povos no acolhimento duma aliança universal. A referência a judeus de várias origens justifica-se no ambiente da peregrinação a Jerusalém pela festa judaica do Pentecostes, mas quer sobretudo relevar a universalidade desta nova aliança que urge ser proclamada.

2.«O fruto do Espírito» (Gal 5, 16-25)

Esta perícopa paulina, situa-se no contexto da liberdade e da lei superada pelo Espírito. Toda a lei se encontra sintetizada e superada no amor que é o fruto supremo do Espírito de Deus e que liberta o crente do domínio da carne. Podemos distinguir neste texto três partes:

- Exortação à vida segundo o Espírito (vv.16-18). O crente no seu quotidiano é convidado a deixar-se guiar pelo Espírito de Deus que supera os desejos da carne, isto é, a autonomia orgulhosa do homem que o leva a erguer-se conta Deus e contra o próximo pela avidez do prazer e poder terrenos. A lei exorta, mas não liberta: é normatividade externa. O Espírito é força interior que move o homem (cf. Rom 8, 14). A vida cristã não resulta dum voluntarismo humano ao estilo pelagiano, mas antes do impulso do Espírito, que o guia e o liberta.

- As obras da carne (vv. 19-21). Paulo fornece um elenco pormenorizado das «obras da carne». Importa ter em conta que as obras da carne abrangem a totalidade do homem na globalidade das suas relações (para com Deus, para consigo mesmo e para com o próximo) e não estão afuniladas unicamente para os desvios da sexualidade. Nesta perspectiva paulina pode entender-se o pecado da carne referido ao orgulho e à auto-suficiência humana na diversidade das suas manifestações.

- O fruto do Espírito (vv. 22-25).Contraposto às obras da carne, Paulo fala do fruto do Espírito: o amor. Aqui o singular, que o texto litúrgico ignora, é significativo, porquanto é o amor agápico que refere a superação dessa autonomia orgulhosa da carne pela abertura a Deus e aos irmãos. Os outros elementos do elenco são apenas manifestações deste amor suscitado como dom ao homem pelo Espírito: a alegria conduz à paz que se exprime na delicadeza das relações com os outros, com Deus e consigo mesmo. Não há lei que se oponha a estas manifestações do Espírito. Os que se configuraram a Cristo, crucificaram as obras da carne, alcançaram a vida segundo Espírito e devem entender o quotidiano nesta fidelidade ao Espírito.

3. «O Espírito da verdade vos conduzirá à verdade plena»

Estamos no discurso de despedida de Jesus, género literário familiar ao judaísmo e ao cristianismo primitivo. À hora da morte o patriarca ou o chefe espiritual transmitia as últimas vontades, dava alguns conselhos em relação ao futuro e indicava o seu sucessor. «Sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai» (Jo 13, 1), promete aos seus discípulos o Espírito Santo Paráclito como continuador da sua obra.

O Paráclito - termo que pode traduzir-se por advogado, consolador, sem nunca esgotar o seu sentido - é o «Espírito da verdade» cuja missão é conduzir à «verdade plena». Esta verdade é o próprio Deus, tal como se manifestou na hora de Jesus: o Pai amou de tal modo o mundo a ponto de lhe dar o seu próprio Filho. Deste modo o Espírito procede do Pai e dá testemunho de Cristo. É para a comunidade a memória viva de Jesus.

O Espírito não será portador duma revelação nova. Antes manterá no tempo a novidade do amor recíproco em Deus, revelado em Cristo, e ajudará os discípulos a compreender o mistério da morte gloriosa de Cristo, perpetuando a sua presença e sua obra salvadora, desvelando este tempo novo inaugurado no Filho. O anúncio do «que há-de vir» (v.13), não é a adivinhação do futuro, mas a interpretação desta nova ordem escatológica que Cristo desencadeou pela sua missão salvadora e a comunicação dos seus dons salvíficos, esse tesouro inesgotável que O glorificará.

A «verdade plena» a que o Espírito conduzirá não é uma revelação diferente da que o Pai realizou no Filho. Tampouco se reduz a uma clarificação das palavras de Jesus. O Espírito comunicará o que Ele mesmo ouve de Jesus glorificado, o que possui dEle, não já uma doutrina a pregar, mas a evidência da comunhão dos crentes com o ser do Filho.

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A caminho do grande Jubileu

No dia de Pentecostes, no fim das Vésperas, poderia levar-se processionalmente o círio pascal para o Baptistério (cf. Celebração do Baptismo das Crianças, Preliminares gerais, n. 25).

Os cinquenta dias que culminam no domingo de Pentecostes deveriam ser celebrados na alegria e na exultação, como um único dia de festa, ou, melhor, um grande domingo prolongado por sete semanas (cf. Normas Universais sobre o ano litúrgico e o Calendário, n. 22). Este deveria ser, em cada ano, um período de Jubileu! Se, infelizmente, perdemos em grande parte o sentido da unidade da cinquentena pascal, é contudo importante descobrir, pelo menos, o seu espírito. Poder-se-ia, por exemplo, fazer renovar, às crianças que recebem pela primeira vez a comunhão, as promessas baptismais no encontro preparatório da vigília, vivido num clima de recolhimento e de oração.

(Comité Central para o Grande Jubileu,Encontrar Jesus Cristo na Liturgia, n. 26)

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SUGESTÕES LITÚRGICAS

1. Contexto

A Páscoa começou de vermelho e termina de vermelho: o vermelho do testemunho ardente do sangue derramado (Paixão - 6ª Feira Santa); o vermelho das rosas - «Páscoa das rosas» - do fruto, do fogo que purifica e ilumina, do testemunho dos cristãos transformados pelo Espírito.

A Missa tem prefácio próprio, que poderia ser cantado. Após a 2ª leitura e antes da aclamação ao Evangelho, cante-se a Sequência que é obrigatória: se não for canta, seja lida. O canto e os instrumentos, as luzes e as flores (privilegiem-se as rosas e o vermelho), a ornamentação da Igreja, o incenso, tudo deveria dar à celebração a sua verdade de apoteose pascal. E, na despedida, com o «Ide em paz…» não falte o Aleluia.

2. Leitores: 1ª Leitura Eis uma leitura difícil, por diversos motivos. Em primeiro lugar exige um tom solene. Requer, ainda, um bom controle da respiração para emitir algumas frases mais longas que perderão muito com incisos para tomada de ar. Requer também uma articulação exacta de algumas consoantes: b e v; r; «lhes concedia que se exprimissem»; «Jerusalém, judeus»; etc. Finalmente, há algumas palavras difíceis: Subitamente, Atónitos, Partos, Medos (mèdos e não mêdos), Mesopotâmia, Capadócia, Frígia, Panlia, prosélitos

2ª Leitura também para hoje há duas alternativas: a habitual (1 Cor) que se pode fazer nos três ciclos; e a que é específica do Ano B (Gal 5) e que se comenta nesta página. A 1ª hipótese apresenta algumas particularidades que devem ser sublinhadas. Após a primeira frase, surge uma unidade com 3 frases e com as expressões de valor «dons espirituais», «ministérios», «operações». Segue-se uma outra unidade à volta da ideia de «um só corpo». A leitura da carta aos Gálatas tem algumas palavras difíceis, exigindo uma preparação adequada.

3. Sugestão de cânticos: Entrada: Espírito Criador, F. Santos, BML 6, 10; NCT 179; O Espírito do Senhor, F. Santos, BML 11, 11 = NCT 180; O amor de Deus foi difundido, F. Santos, BML 84/85, 32; BML 86/87, 81; O amor de Deus foi derramado, F. Santos, BML 86/87, 81; Derramarei sobre vós, F. Santos, BML 84/85, 35; O Espírito do Senhor, M. Luís, NCT 377; Salmo Resp.: Mandai, Senhor, M. Luís, SR(B), 78; NCT 184; Sequência: Vinde ó Santo Espírito, F. Santos, BML 84/85, 48; Veni Sancte Spiritus, c. gregoriano, NCT 203; Aclam. ao Ev.: Vinde, Espírito Santo, F. Santos, BML 36, 16; NCT 188; Ofertório: Veni Creator Spiritus, C. greg., NCT 204; Vem Criador, F. Santos, NCT 541; Vinde Espírito divino, M. Luís, NCT 543; Apareceram línguas de fogo, F. Santos, NCT 544; Quando chegou, F. Santos, NCT 546; Vinde Espírito Santo, F. Santos, NCT 547; Comunhão: Todos foram cheios, M. Faria, BML 36, 17; O Espírito que procede, M. Luís, NCT 196; No último dia, F. Silva, BML 86/87, 84; Alegrai-vos no Senhor, F. Santos, BML 84, 44; Fim: O amor de Deus, M. Luís, NCT 388; Ressuscitou, aleluia!, A. Cartageno, NCT 200; Aleluia! Louvor a Vós, ó Cristo, M. Luís, NCT 168.
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