Liturgia:

A MESA DA PALAVRA

6º Domingo - 4 de Maio


Leitura dos Actos dos Apóstolos Actos 10, 25...48

Naqueles dias, Pedro chegou a casa de Cornélio. Este veio-lhe ao encontro e prostrou-se a seus pés. Mas Pedro levantou-o, dizendo: «Levanta-te, que eu também sou um simples homem». Pedro disse-lhe ainda: «Na verdade, eu reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável». Ainda Pedro falava, quando o Espírito desceu sobre todos os que estavam a ouvir a palavra. E todos os fiéis convertidos do judaísmo, que tinham vindo com Pedro, ficaram maravilhados ao verem que o Espírito Santo se difundia também sobre os gentios, pois ouviam-nos falar em diversas línguas e glorificar a Deus. Pedro então declarou: «Poderá alguém recusar a água do Baptismo aos que receberam o Espírito Santo, como nós»? E ordenou que fossem baptizados em nome de Jesus Cristo. Então pediram-lhe que ficasse alguns dias com eles.


Salmo Responsorial Salmo 97

O Senhor manifestou a salvação a todos os povos.

Cantai ao Senhor um cântico novo
pelas maravilhas que Ele operou.
A sua mão e o seu santo braço
Lhe deram a vitória.

O Senhor deu a conhecer a salvação,
revelou aos olhos das nações a sua justiça.
Recordou-Se da sua bondade e fidelidade
em favor da casa de Israel.

Leitura da Primeira Epístola de São João 1 Jo 4, 7-10

Caríssimos: Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Assim se manifestou o amor de Deus para connosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que vivamos por Ele. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados.


Aleluia. Aleluia.

Se alguém Me ama, guardará a minha palavra.
Meu Pai o amará e faremos nele a nossa morada.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo

segundo São João Jo 15, 9-17

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor, mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai. Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis frutos e o vosso fruto permaneça. E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai eu meu nome, Ele vo-lo concederá. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».

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Domingo VI da Páscoa Ano B
4 de Maio de 1997

Deus é amor:
quem ama, permanece em Deus!

Uma Leitura Dos Textos Bíblicos


1. «O Espírito Santo difundia-se também entre os pagãos»

O episódio deste domingo - habitualmente apelidado de Pentecostes dos pagãos - situa-se depois da visão do pagão Cornélio em Cesareia (Act 10, 1-8) e da subsequente visão de Pedro em Jope (Act 10, 9-16) que ajudou o apóstolo a superar o particularismo judaico ligado às prescrições alimentares (cf. Lev 11). Pedro, porém, não descobre de imediato o sentido da visão, senão depois de aceder ao convite para se deslocar a Cesareia, porque um pagão, «o centurião Cornélio, um homem justo, que teme a Deus» o queria, por revelação divina, «ouvir expor os acontecimentos» (Act 10, 22).

O texto que temos em mãos inicia-se exactamente com a chegada de Pedro junto de Cornélio. De seguida omite a compreensão do sonho por parte de Pedro: a superação das prescrições judaicas acerca da pureza ritual, eliminava o principal obstáculo ao contacto assíduo entre os judeus e os pagãos. O v. 34, início do discurso de Pedro, explicita a abertura do cristianismo aos pagãos, já que «Deus não faz acepção de pessoas». Depois do discurso kerigmático de Pedro, o Espírito é derramado sobre os gentios que escutaram a palavra de Pedro. Para a conversão, não bastava a pregação apostólica. O dom do Espírito manifesta que a iniciativa do chamamento à salvação continua a ser de Deus, o Qual, aliás, despertara Cornélio para o anúncio de Pedro.

Neste contexto - visão de Pedro, convite do pagão Cornélio, auditório composto por gentios - acentua-se o carácter universal da salvação oferecida por Deus, trazida por Cristo e realizada ali no dom do Espírito, sem distinção de pessoas, raças ou povos, na linha preconizada no Pentecostes, em que judeus, vindos de todas as nações, ouviam falar os apóstolos na sua própria língua (cf. Act 2, 5-6). Na efusão do Espírito de Act 10, os sinais andam próximos dos do Pentecostes: o dom das línguas e o louvor. Os destinatários da efusão são, no entanto, diferentes para salientar e confirmar que a salvação não tem fronteiras, tal como Pedro, o apóstolo dos judeus reconhece, admitindo Cornélio e a sua família na Igreja mediante o Baptismo.

Depois da aceitação do sucedido pela Igreja de Jerusalém (cf. Act 11, 18) estava, no plano dos princípios, aberto o caminho para a acção evangelizadora de Paulo, o apóstolo dos gentios, se bem que a tensão entre o ambiente judaico e a abertura aos gentios ainda se haveria de fazer sentir de forma acentuada (cf. Act 15).


2. «Deus é amor»

O centro temático desta perícopa joânica é sem dúvida o amor. Depois de falar do amor cristão - amor «com obras e em verdade» (1Jo 3, 18), como referia o texto o domingo anterior - o autor procura fazer o ponto da situação: a origem do amor está em Deus; o amor de Deus manifesta-se em seu Filho Jesus Cristo.

Podemos dividir este fragmento em duas partes a partir desta distinção temática referida e do jogo literário das antíteses:

- vv. 7-8: Nesta parte, diz-se que a origem do amor cristão se encontra em Deus, «porque Deus é amor». Esta não é, contudo, uma definição essencialista de Deus, mas uma definição dinâmica e histórico-salvífica: a actividade mais específica de Deus é amar ocupando-se e preocupando-se com o homem; o amor de Deus manifestou-se na história humana de variadas formas e de maneira suprema em Jesus Cristo. Esta definição histórico-salvífica abre caminho para a segunda parte.

- vv. 9-10: O amor de Deus manifestou-se em Jesus Cristo. O envio do Filho é expressão do amor do Pai. A prova suprema deste amor de Deus pelos homem em Jesus Cristo acontece no sacrifício voluntário da cruz, no qual Cristo assume em si a linguagem sacrificial vetero-testamentária (cf. Ex 19, 36-37), sendo «vítima de expiação pelos pecados». Na cruz Ele desvela totalmente o amor de Deus: amor de entrega concreta, palpável e vitalizadora.

3. «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos»

O texto de hoje continua a alegoria da vide da leitura evangélica do domingo anterior. Contudo, a centralidade da vide é agora substituída pelo amor. Neste fragmento podemos distinguir duas partes:

- A comunicação continua do amor que tem a sua fonte no Pai e a sua manifestação suprema em Jesus Cristo (vv. 9-13). A origem do amor de Cristo pelos homens encontra-se no amor com que o Pai O amou. Assim notamos um movimento do Pai para o Filho que depois se transforma em movimento do Filho para os discípulos: o amor de Jesus continua no amor dos discípulos. A comunicação deste amor desagua num apelo: «Permanecei no meu amor» (Jo 15, 9b; cf. Jo 15, 4), convidando o discípulo a penetrar no coração do mistério de Deus, que é amor. A referência aos mandamentos, como garantia da permanência no amor, ultrapassa o domínio do sentimento para colocar o amor no âmbito da sintonia de vontades na obediência. A alusão à alegria pela revelação do amor possibilita a interiorização deste mandamento sob o signo da alegria, também comunicada de Cristo para os discípulos num mesmo e único movimento. Esta alegria resulta evidentemente da fidelidade efectiva dos discípulos à permanência no amor, mediante o amor aos outros. A vivência do projecto de Jesus Cristo é caminho efectivo de felicidade. O v. 13 ao evocar a morte de Cristo como acto supremo do amor torna-se o centro desta passagem: o amor de Cristo pelos homens na sua morte é insuperável e absoluto, motivando a fidelidade quotidiana do discípulo ao amor fraterno.

- O amor orientado na perspectiva dum fruto que permanece e da oração escutada pelo Pai (vv. 14-17). O amor de Cristo pelos seus no acontecimento pascal, transforma por pura graça os amados. Os discípulos já não são servos, mas amigos. Não executam ordens cujo significado não atingem, mas a obediência resulta do amor oferecido e acolhido, a fidelidade decorre da descoberta da fonte do amor. Neste único mandamento do amor está superado o legalismo judaico que escravizava nas suas múltiplas prescrições e está canonizada uma lei nova que bebe da frescura da fonte. A vivência do mandamento do amor está orientada na perspectiva dum fruto que permanece e da oração escutada pelo Pai. A referência à oração coloca o fruto na perspectiva da comunidade dos discípulos. Neste sentido, o fruto esperado e permanente será a irradiação da fé e do amor dos discípulos no mundo, mediante o amor fraterno: «O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».

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A caminho do grande Jubileu

«Se alguém Me ama, guardará a minha palavra»

A mensagem deste domingo desenvolve o tema do domingo precedente. «Deus é amor» (1Jo 4, 8). O amor cristão parte, portanto, do Pai e dirige-se primariamente para o Filho, e d'Ele para os discípulos, que o são se permanecem neste fluxo de amor centrado em Jesus. Essa corrente de amor permite superar todas as fracturas e discriminações, segundo o exemplo da primeira comunidade cristã (cf. Act 10, 25-26.34-35.44-48). É verdadeiro amor cristão, se «dá fruto» (Jo 15, 16). O testemunho de amor dos cristãos deve tornar-se anúncio de salvação para que o mundo inteiro «creia, acreditando espere, e esperando ame» (Dei Verbum, n. 1).

(Comité Central para o Grande Jubileu, A caminho..., p. 22)

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SUGESTÕES LITÚRGICAS

1. A Páscoa é uma festa longa. Os cristãos têm, sem dúvida, motivações de sobra para viver a intensidade festiva da Páscoa. Nós é que, infelizmente, vamos perdendo os hábitos de celebrar a ponto de até da festa nos cansarmos. A liturgia quer deixar impresso, não teórica mas praticamente, de forma experimental, que a festa é o nosso destino. Não é, pois, por acaso, que a oração Colecta apela a um renovado fervor festivo, a um viver a Páscoa até ao fim com aprimorado afecto.

2. «Como o Pai me amou, também Eu vos amei»: a Cruz é o testemunho supremo deste amor. Por isso ela abre sempre a procissão de entrada e, colocada junto do altar, está sempre presente à assembleia reunida. Neste tempo pascal há a tradição de adornar a cruz com beleza e nobreza, como trono e fonte de vida que é. Mantenhamos este uso. Valorizemos também os sinais de reverência que a Liturgia prescreve em relação ao crucifixo (inclinações, incensação). E façamos bem com beleza e amor os «sinais da Cruz» previstos durante a celebração (início, ao Evangelho e fim).

3. Estamos no «mês de Maria». Esta devoção, com profunda ressonância popular, não deve ser ignorada, nem deve ser concorrente do tempo pascal. Esforcemo-nos por harmonizá-la com o tempo litúrgico. Os exercícios de piedade, particularmente o terço, deverão ressaltar a participação de Maria no mistério pascal e no acontecimento do Pentecostes, propondo-a como modelo acabado da Igreja e do cristão. As devoções poderão também proporcionar momentos privilegiados de instrução religiosa. A recitação do terço poderá ser concluída com a leitura de um texto bíblico ou patrístico ou de algum documento do Magistério de cariz mariano ou sobre temática candente. Os cânticos poderão ser seleccionados entre os propostos pelo NCT nn. 702 a 724; 314-316, 340, 341; 347-349, 359, 461-464, 480, 481; 616634, 647-653.

4. Leitores: 1ª Leitura Pede-se que o leitor faça distinção entre a narração e a fala de Pedro.

2ª Leitura Não oferece dificuldades especiais.

Evangelho O diácono (ou, na sua falta, o presbítero) esteja atento para evitar as cacafonias e atenuar as sibilantes. A solenidade e a vibração íntima deste discurso testamento de Jesus pede um tom de voz e um ritmo correspondentes.

5. Sugestão de cânticos: Entrada: Anunciai com voz de júbilo, F. Valente, BML 106, 66; Ó Páscoa gloriosa, F. Santos, NCT 165; O Senhor ressuscitou, M. Luís, NCT 176; Salmo Resp.: Diante dos povos, F. Santos, BML 46, 14; Aclam. ao Ev.: Se alguém Me tem amor, F. Santos, BML 11, 10; Comunhão: Vós sereis meus amigos, F. Lapa, BML 100,64; Vós sereis meus amigos, M. Luís, NCT 128; O Teu Corpo, F. Santos, BML 24, 16.
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