| Liturgia: | |||
5º Domingo - Ano B - 27 de Abril
Leitura dos Actos dos Apóstolos Actos 9,
26-31
Naqueles dias, Saulo chegou a Jerusalém e
procurava juntar-se aos discípulos. Mas todos o temiam,
por não acreditarem que fosse discípulo. Então,
Barnabé tomou-o consigo, levou-o aos Apóstolos e
contou-lhes como Saulo, no caminho, tinha visto o Senhor, que
tinha falado, e como em Damasco tinha pregado com firmeza em nome
de Jesus. A partir desse dia, Saulo ficou com eles em Jerusalém
e falava com firmeza no nome do Senhor. Conservava e discutia
também com os helenistas, mas estes procuravam dar-lhe
a morte. Ao saberem disto, os irmãos levaram-no para Cesareia
e fizeram-no seguir para Tarso. Entretanto, a Igreja gozava de
paz por toda a Judeia, Galileia e Samaria, edificando-se e vivendo
no temor do Senhor e ia crescendo com a assistência do Espírito
Santo.
Salmo Responsorial Salmo 21
Eu Vos louvo, Senhor, na assembleia dos justos
Cumprirei a minha promessa
na presença dos vossos fiéis.
Os pobres hão-de comer e serão saciados,
louvarão o Senhor os que O procuram:
vivam para sempre os seus corações.
Hão-de lembrar-se do Senhor e converter-se
a Ele
todos os confins da terra;
e diante d'Ele virão prostrar-se
todas as famílias das nações
Só a Ele hão-de de adorar
todos os grandes do mundo,
diante d'Ele se hão-de prostrar
todos os que descem ao pó da terra.
Para Ele viverá a minha alma,
há-de servi-l'O a minha descendência.
Falar-se-á do Senhor às gerações
vindouras
e a sua justiça será revelada ao povo
que há-de vir
«Eis o que fez o Senhor».
Leitura da Primeira Epístola de São
João 1 Jo 3, 18-24
Meus filhos, não amemos com palavras e com
a língua, mas com obras e em verdade. Deste modo saberemos
que somos da verdade e tranquilizaremos o nosso coração
diante de Deus; porque, se o nosso coração nos acusar,
Deus é maior que o nosso coração e conhece
todas as coisas. Caríssimos, se o coração
não nos acusa, tenhamos confiança diante de Deus
e receberemos d'Ele tudo o que Lhe pedirmos porque cumprimos os
seus mandamentos e fazemos o que Lhe é agradável.
É este o seu mandamento: acreditar no nome de seu Filho,
Jesus Cristo, e amar-nos uns aos outros, como Ele nos mandou.
Quem observa os sus mandamentos permanece em Deus e Deus nele.
E sabemos que permanece em nós pelo Espírito que
nos concedeu.
Aleluia. Aleluia.
Diz o Senhor:
«Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós;
quem permanece em Mim dá muito fruto».
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo
São João Jo 15, 1-8
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor. Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê ainda mais fruto. Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos anunciei. Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira, vós sois os ramos. Se alguém permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer. Se alguém não permanece em Mim, será lançado fora, como o ramo, e secará. Esses ramos, apanham-nos, lançam-nos ao fogo e eles ardem. Se permanecerdes em Mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido. A glória de meu Pai é que deis muito fruto. Então vos tornareis mais discípulos».
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1. «Contou-lhes como no caminho tinha visto o Senhor»
Paulo depois da sua conversão e duma primeira pregação em Damasco, vem a Jerusalém, significar a comunhão com os irmãos de fé e contactar com os discípulos. A sua acção evangelizadora não era entendida como um acto isolado, mas partia duma comunhão profunda com aqueles que acreditavam no mesmo Senhor Jesus. O temor dos discípulos resulta da dificuldade em acreditar que Paulo se houvesse convertido. Ele que perseguira os cristãos (cf. Act 8, 1;9, 1) dizia-se agora um deles. Barnabé, figura notável da comunidade primitiva e bem aceite pelos discípulos, nascido como Paulo na diáspora (cf. 4, 36), atesta a conversão de Paulo e a sua firmeza no anúncio do evangelho. Será seu companheiro de missão durante largo tempo (cf. Act 11, 25-26).
A firmeza atestada por Barnabé concretiza-se também no anúncio efectivo de Paulo em Jerusalém. Aí sente a hostilidade dos judeus helenistas, homens da sua língua e cultura. Ao participar da missão dos discípulos no anúncio livre e entusiástico de Jesus Cristo, Paulo sujeita-se à mesma sorte dos discípulos e do próprio Cristo. Contudo, nem sempre a confrontação directa é o meio mais oportuno, justificando-se assim a sua ida para Tarso.
O último versículo é um breve sumário da vida da Igreja nascente, tão ao gosto de Lucas. Trata-se certamente duma síntese mais teológica que histórica. Na verdade, depois de dizer o que se passou com Paulo, a paz não devia ser assim tão sólida nem as perseguições se restringiam ao apóstolo neoconvertido. Porém, Lucas quer sobretudo dizer que o Espírito continua a guiar a Igreja em toda e qualquer circunstância, assegurando-lhe a paz e o crescimento.
2. «É este o seu mandamento: acreditar e amar»
Na comunidade joânica notava-se certamente o divórcio entre conhecimento e vida. A alusão ao amor «com obras e em verdade», refere duas características do amor cristão:
- Um amor autêntico, amor concreto e efectivo, que com as obras vai além das palavras. O amor operante é o critério de autenticidade da vivência da fé cristã. A exigência cristã dum amor autêntico emerge do confronto da comunidade joânica com a gnose, que se refugiava no domínio das ideias e do conhecimento, alheando-se da dimensão existencial e praxística da fé.
- Um amor teologal: a verdade não só acentua a autenticidade do amor do crente, como sobretudo o referencia ao amor de Deus revelado em Jesus Cristo - «Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade» (Jo, 18, 37). Ser da verdade implica ser do próprio Cristo: «Eu sou o caminho a verdade e a vida» (Jo 14, 6). Jesus é a verdade porque, enquanto Deus encarnado, exprime de modo perfeito o Pai para os homens. Deste modo se entende que a verdade aluda nos textos joânicos à Palavra de Cristo, que penetra no crente em dinamismo de transformação (cf. 1Jo 1, 8.10).
A vivência deste amor operante, à medida do amor imenso de Deus que resplandece em Cristo, tranquiliza o coração do crente: Se o nosso coração nos acusa (vv 19-20), o amor de Deus é maior que o nosso coração e é causa de pacificação para a nossa intranquilidade; se o nosso coração não nos acusa, porque amamos efectivamente, então continuemos a confiar nele. O cristão, quer quando reconhece o pecado, quer quando reconhece a fidelidade, leva o seu coração a confiar em Deus: encara e assume o seu pecado, não se orgulha da sua fidelidade.
A concepção teologal do amor permitiu que João superasse a proliferação de mandamentos do judaísmo chegasse a esta síntese admirável: «acreditar no nome de seu Filho, Jesus Cristo, e amar-nos uns aos outros, como Ele nos mandou» (1 Jo 3, 23). Crer no Filho é sinónimo de amar o Pai nos irmãos; o amor ao outro resulta da fé no Filho que revelou aos homens o amor do Pai. Além disso, é o Espírito, essência do amor trinitário, que suscita a autêntica confissão de fé e sustenta o amor fraterno, pelos quais acontece a comunhão mútua e permanente entre Deus e o crente. Bem diferente era o estado dos cristãos antes da conversão e o daqueles que estavam fora da comunidade, nomeadamente os gnósticos, que não se mantinham fiéis a esta síntese.
3. «Quem permanece em Mim e Eu nele dá muito fruto»
A alegoria da vide, retirada do discurso de despedida de Jesus, fala-nos da existência em Cristo da comunidade gerada da Páscoa, valorizando a permanência dos discípulos (ramos) em Cristo (vide) como condição para que produzam fruto em abundância. A palavra chave do texto é, de facto, permanecer: os discípulos devem permanecer em Jesus exactamente como a vara para produzir fruto tem necessariamente que estar unida à vide. Para expressar esta permanência, Jesus socorre-se da alegoria da vide, expressiva no ambiente bíblico.
A vide era uma planta importante na vegetação palestinense e um bem precioso do agricultor israelita: os enviados a reconhecer a terra prometida trouxeram um ramo com uvas (cf. Num 13, 23-24); o começo da nova era pós-dilúvio é assinalado pela plantação duma vinha (Gn 9, 20). A imagem bíblica da vinha serve também para narrar a história da eleição e da aliança entre o Deus e o povo de Israel, história percorrida entre a fidelidade e o pecado (cf. Sl 80(79), 9-16; Is 5, 1-7; 27, 2-6; Jer 2, 21; Ez 15, 1-8; 19, 12).
No evangelho, Jesus retoma esta imagem bíblica: Ele é a vide de que falam os profetas, é o objecto da predilecção de Deus, é Aquele em quem se enraíza o novo povo de Israel, é Aquele que realiza plenamente a fidelidade inaugurando aliança nova, plena e definitiva. Permanecendo nele a comunidade dos discípulos, fará parte deste novo povo em que corre a seiva da vida nova.
Jesus na perícopa evangélica diz, porém, ser a vide, não de vinha. Fá-lo para destacar a sua singularidade e exclusividade, da qual resulta a vida e o fruto dos ramos. As varas não têm existência por si mesmas: valem pela vide a que se encontram ligadas. O simbolismo da unidade entre a vide a as varas não resulta propriamente do património bíblico, mas é retirada do horizonte humano e natural de compreensão desta imagem campestre.
A referência à poda/purificação diz respeito ao estado dos discípulos antes da sua resposta de fé, um estado em que não podiam produzir fruto e também à necessidade continua dos cuidados do agricultor para que o fruto abundante não deixe de aparecer. A purificação provém de Deus, o agricultor que arranca e que poda, graças à Palavra revelada em Cristo. Aparentemente existe uma tensão entre os dois autores da poda (vv. 2 e 3). Tal não acontece de facto, exactamente pelo facto do Pai estar na origem de toda a palavra de Jesus (cf. Jo 12, 49) e do acolhimento do homem (cf. Jo 6, 44-45; 17, 6).
É também possível fazer uma leitura sacramental do texto, relacionando-o com a Eucaristia: «Eu sou a verdadeira vide» / «Eu sou o pão da vida (Jo 6, 35). Contudo, o nosso texto carece das palavras beber e vinho, que tornariam esta leitura mais evidente. Assim, o horizonte sacramental não é um objectivo imediato, mas resulta apenas eventualmente um segundo nível de compreensão: a comunidade ao escutar este texto na assembleia litúrgica pode alcançar uma inteligência mais profunda do sacramento que celebra - «Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele» (Jo 6, 56). O propósito do texto presente situa-se, porém, num tempo anterior, na realidade que o sacramento celebra, e num tempo posterior, dito nos frutos abundantes que produzem os ramos da única Vide.
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«Jesus fala duma comunhão mais íntima entre Ele e os que O seguem: Permanecei em Mim, como Eu em vós (...). Eu sou a cepa e vós os ramos (Jo 15, 4-5). E anuncia uma comunhão misteriosa e real entre o seu próprio Corpo e o nosso: Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue permanece em Mim e Eu nele (Jo 6, 56)».
«A finalidade da missão do Espírito Santo em toda a acção litúrgica é pôr em comunhão com Cristo, para formar o seu Corpo. O Espírito Santo é como que a seiva da Videira do Pai, que dá os seus frutos nos sarmentos».
«Jesus diz: Eu sou a cepa, vós as varas. Quando alguém permanece em Mim, e Eu nele, esse é que dá muito fruto, porque, sem Mim, nada podeis fazer» (Jo 15, 5). O fruto a que se faz referência nesta palavra é a santidade duma vida fecundada pela união a Cristo. Quando cremos em Jesus Cristo, comungamos nos seus mistérios e guardamos os seus mandamentos, o Salvador vem em pessoa amar em nós seu Pai e seus irmãos, o nosso Pai e os nossos irmãos. A sua pessoa torna-se, garças ao Espírito, a regra viva e interior do nosso agir. É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei (Jo 15, 12)».
| (Catecismo da Igreja Católica, nn. 787; 1108; 2074), p. 22 |
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1. No 5º e 6º Domingos de Páscoa, lemos excertos dos Discursos da Ceia. No contexto literário, estão antes da Paixão; mas o contexto pascal é o que lhes convém, pois é o Senhor Ressuscitado a falar à sua Igreja através do Discípulo amado.
2. Depois da imagem do Bom Pastor, a liturgia apresenta-nos a da Videira. Assim se exprime um crescendo da união dos cristãos com e em Cristo, união essa na qual se exprime todo o dinamismo vital da Páscoa e que se celebra nos Sacramentos Pascais: Baptismo, Confirmação, Eucaristia.
3. À medida que nos vamos afastando do 1º domingo, importa velar por que a festa não decaia. O hábito cria rotina. A festa exige intervenção interior forte. A música é um dos elementos mais capazes de a potenciar: o canto em primeiro lugar, mas também, se possível, a música instrumental. Como o Aleluia, o toque dos instrumentos foi lançado na Vigília pascal durante o canto do Gloria, e prolonga-se por todo o tempo pascal. A Páscoa é o tempo do júbilo e da exultação de toda a criatura: o homem, em primeiro lugar, com o Aleluia; mas toda a criação, representada nos timbres instrumentais, acompanha, intensifica e prolonga a exultação da humanidade.
4. Leitores: 1ª leitura Deverá estabelecer-se uma separação (pausa, com mudança de tom de voz) antes de: «Entretanto, a Igreja gozava de paz». A articulação (vogais, ditongos e consoantes) é indispensável numa boa leitura. A pronúncia deve ser correcta. Cuidado com a palavra pregar: a pronúncia dar-lhe-á o sentido justo, abrindo o e: prègado.
2ª leitura O texto deve ser considerado em três secções, demarcadas pelas palavras: «Meus filhos»; «Caríssimos»; «É este o seu mandamento».
5. Sugestão de cânticos: Entrada: Cantai ao Senhor, M. Faria, BML 51, 15; F. Silva, NCT 211; Na sua dor os homens encontraram, M. Luís, NCT 173; Salmo Resp.: Eu Vos louvo, Senhor, F. Santos, BML 46, 13; Aclam. ao Ev.: Diz o Senhor, adaptação NCT 187; Ofertório: Regina Coeli, C. Gregoriano, NCT 205; Comunhão: Eu sou a verdadeira videira, F. Lapa, BML 95, 61; Jesus Cristo Crucificado, M. Luís, NCT 195; Reconhecei neste pão, M. Luís, NCT 197; Sempre que comemos o pão, F. Santos, NCT 198. Vésperas II: F. Santos, BML 80, 71-76.
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