Cultura:

Os retratos do povo

Abri as portas e deixai entrar um povo justo!
Isaías, 26, 2.

1. Dei comigo a pensar no que seria o mundo e do que seriam os homens, e de como estaria a face da terra, se se configurassem com as imagens que deles nos são apresentadas nas máquinas que mudaram e mudam o mundo. Se um filme daqueles americanos de pancadaria e tiros fosse o retrato fiel e verdadeiro do mundo que supostamente pretende retratar, e das suas formas de vida, já não se encontraria gente em todo o território americano: todos tinham já morrido. Se um país (nem sequer digo só o nosso) fosse feito à imagem que dele nos dá a comunicação social, não haveria mais que crimes, desastres, adultérios, incestos, pedofilias, agressões físicas de jogadores, agressões verbais, morais e pessoais de dirigentes políticos, guerras de propinas de estudantes privilegiados que querem, com razões que supõem ou pretendem fazer passar por boas, formar-se à custa dos mais desfavorecidos, escolas destroçadas pela violência social, hospitais que não dão resposta aos doentes, assaltos em cada esquina de cada rua, e por aí fora. Viveríamos numa sociedade em completa decadência: não se saberia ler, porque as escolas não ensinam; morreríamos todos, porque os hospitais não nos tratam; não haveria famílias, porque o que se lê delas são as separações, os divórcios e os conflitos; e a nossa vida não teria esperança porque vivíamos em perpétua decadência mental e cultural, e a dissolução dos costumes transformaria a sociedade em selva. Parece que a fé não existe, a não ser para ser censurada, quando mal interpretada. Será que estamos perdidos?

2. Recuando nos tempos, havemos de verificar que de todos eles, próximos ou distantes, medidos nos séculos ou desconhecidos da história, muitas das imagens que nos chegam não são muito diversas. Iremos encontrar as transgressões, as explorações do povo, as maldades individuais e colectivas, as mentiras, as rapinas, as perversões da sexualidade, as violências pessoais, étnicas e rácicas. Iremos até à escravatura, e passaremos pela Inquisição e por todas as não-inquisições muito mais odiosas e violentas; saberemos os desastres e as mortes necessárias para que se fizessem as grandes obras que hoje admiramos; constataremos o predomínio dos grandes sobre os pequenos e seremos acometidos de uma profundíssima desilusão.

Nada disso é novo. Já o outro, o desiludido Eclesiastes, dizia que tudo é vaidade, e que viu a injustiça ocupar o lugar do direito e a iniquidade tomar o lugar da justiça. É uma velha tendência, mas não imutável, nem definitiva, nem completamente verdadeira. Porque as sementes lançadas pelos sábios e pelos santos ainda não germinam todas, e por vezes a única que dá fruto é a última. Porque a maioria dos homens tem uma consciência, embora difusa, mas incontornável, do sentido da justiça. Porque contestamos a violência, mesmo quando somos violentos e nos aproveitamos dela. E nos aproveitamos da injustiça, mesmo quando somos as vítimas. Porque muitos são os que se aproveitam das violências: aproveitam-se os seus autores, ou pensam que se aproveitam, senão não a fariam; aproveitam-se os que a fabricam, porque dela ou da sua venda tiram lucro; aproveitam-se os que vêem, porque lhes parece divertido, e por isso até a pagam; aproveitam-se os que a contam e narram, ampliando-as à medida das suas mentes ou conceitos, porque vende edições e traz notoriedade; e até se aproveitam as vítimas, porque querem granjear as penas e a compaixão dos outros, e também não falta quem queira viver da compaixão alheia, que geralmente é um substitutivo barato do esforço próprio.

3. No meio deste universo complexo, pedras num jogo arriscado, qual é a nossa função? Aproveitar-nos das situações, ou denunciá-las? Ser violentos, ou encontrar vias de pacificação? Viver da fraude e do engano, ou ser capaz de a denunciar e contrapor-lhe alguma dose de esperança? As máquinas, ou as caixas que, diz-se, mudaram o mundo, pensam agora que o moldam à sua maneira. Na verdade, não fazem mais que escavar a sua própria perdição. Sua, delas e sua, do mundo. Vivem o tempo como quem o domina e controla, e não sabem nem sonham que o próprio tempo as vai transformando, sem que disso dêem conta; escravas de acontecimentos, submissas da marginalidade, indiferentes das grandes causas, reduzem-se a meros fabricantes de um poder efémero, mais efémero que aquele que pretendem denunciar e denegrir; vítimas da ambição e da cobiça, buscam a fama como forma encoberta de domínio; escravizam-se para dominarem; hienas dos restos de uma sociedade que vive de conflitos, e abutres dos cadáveres da própria decomposição. Talvez aí desempenhem, com a alegria e a inconsciência que se lhes reconhecem, o seu papel social: o de limparem a sociedade da própria decomposição.

4. Impõe-se uma reviravolta nos conceitos da comunicação: e essa reviravolta, que vai durar séculos, está já expressa nas palavras do profeta: Abri as portas e deixai entrar um povo justo. Como seria diferente o nosso mundo, se fossem realizadas estas palavras, ou até se déssemos passos para a sua realização!

Mostrai ao povo a justiça do povo, as virtudes do povo, a força criadora do povo, a alma generosa do povo. Mostrai-lhe a realidade do povo, e não a sua mistificação; mostrai-lhe o seu verdadeiro rosto sorridente, as alegrias e as esperanças. Deixai que entre em vós se afirme e se promova o homem justo em vez do maledicente; as plantações em vez dos incêndios; as sementeiras mais que as colheitas: abri as portas e deixai entrar o povo justo que já vive diante dos vossos olhos, e que não quereis ou não sois capazes de ver, e menos de admirar. Assim fabricareis um povo novo, ainda mais justo. A justiça inventa a justiça. Fabricar-vos-eis a vós próprios, nas dimensões novas e incontidas de um espírito simples e generoso.
C.F.
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«O CINEMA EM CASA»

De 18 a 27 de Abril


TELEVISÃO - Para os amantes do bom cinema de suspense a RTP 2, prosseguindo a sua política de proporcionar o melhor cinema do mundo, oferecendo autênticas sessões de Cinema (sem intervalos para anúncios e sem pipocas), agendou para a rubrica "Cinco Noites, Cinco Filmes" um verdadeiro manjar com cinco das melhores obras do mestre Alfred Hitchcock. O pontapé-de-saída é dado com um filme de espionagem, «Os 39 Degraus» (1935), com Robert Donat, Madeleine Carroll e Peggy Ashcroft (segunda, 21). Continua com três thrillers psicológicos: «Rebecca» (1940), com Laurence Olivier, Joan Fontaine e Judith Anderson (dia 22); «A Casa Encantada» (1945), com Ingrid Bergman e Gregory Peck (dia 23); «Difamação» (1946), com Cary Grant, Ingrid Bergman e Claude Rains (24). Termina, e para amenizar, com a comédia ligeira, «Ladrão de Casaca» (1956), com Cary Grant e Grace Kelly (25). No sábado, mas na rubrica "O Filme da Minha Vida", vamos poder ver o thriller de espionagem «Intriga Internacional» (1959), também com Cary Grant, ao lado de Eva Marie Saint e James Mason (dia 26).

Nascido em Londres em 1899, Alfred Hitchcock marca a sua presença nos estúdios ingleses desde 1922. Especializou-se no melodrama criminal e no filme de espionagem, salpicados de humor negro. A receita é simples, embora a preparação exija grande habilidade: o herói é quase sempre uma pessoa "jovem e inocente", presa numa engrenagem diabólica de que só poderá sair graças à intervenção de uma alma caridosa que confia nela. Habilidade suprema: longe de forçar a angústia, como nos folhetins de antigamente, o realizador lança sobre a trama um olhar indiferente, quase sarcástico. Trata-se de chegar a uma "apresentação em tom leve de acontecimentos extremamente dramáticos" (understatement). Um virtuosismo técnico aturdidor e muito económico nos efeitos aumenta a confusão da personagem principal - e do espectador.

Os dois filmes ingleses de Hitchcock mais perfeitos desse ponto de vista são «A Dama Oculta» (1938) e «Os 39 Degraus». Este último é o protótipo do "caso tenebroso", em que o protagonista é de facto um joguete nas mãos da fatalidade. "Tudo é sinal de perigo, tudo é ameaça...", anota François Truffaut (este realizador francês entrevistou o mestre), nesse fascinante jogo do gato e rato, em que as balas de um revólver ricocheteiam numa Bíblia enfiada no bolso de um casaco.

A co-argumentista do filme, Alma Reville, era mulher de Hitchcock e uma das suas mais fiéis colaboradoras. Sabe-se que Hitchcock costumava fazer uma curta aparição em cada um dos seus filmes. Neste «Os 39 Degraus», vemo-lo atravessar a rua em frente ao teatro, no início do filme.

Outros filmes para ver: «O Padrinho II», drama, de Francis Ford Coppola (1974), com Robert DeNiro e Al Pacino: segunda parte da saga da família Corleone (RTP 1, dia 18); «Revolta na Bounty», aventura, de Frank Lloyd (1935), com Clark Gable e Charles Laughton: primeira versão cinematográfica do célebre confronto entre a tripulação da Bounty e o seu despótico comandante (RTP 2, 18); «O Arco-Íris Negro», drama, de Mike Hodges (1991), com Tom Hulce, Rosanna Arquette e Jason Robards: uma história sobre clarividência e fanatismo (RTP 1, 19); «O Estado das Coisas», drama, de Wim Wenders (1982), com Patrick Bauchau e Samuel Fuller (TVI, 19); «Horizonte Perdido», fantástico, de Frank Capra (1937), com Ronald Colman e Jane Wyatt: grupo de exploradores descobre nas montanhas do Tibete uma civilização perdida (TVI, 20); «O Padrinho III», drama, de Francis Ford Coppola (1990), com Al Pacino e Diane Keaton: última parte da saga da família Corleone (RTP 1, 21).

VÍDEO - As propostas de vídeos não podiam ser melhores esta semana. A Lusomundo Audiovisuais editou alguns dos melhores títulos que já tive oportunidade de ver, destacando-se «Três Irmãos, Duas Tribos», realizado pelo britânico Gillies MacKinnon e com os desempenhos de Clare Higgins e Ian McElhinney. Prémio para o "Melhor Filme Inglês" do Festival de Cinema de Edimburgo 1995, conta a história de três irmãos adolescentes que conduzem a sua vida em distintas direcções: Bobby MacLean, o mais velho, pertence a um gang; Alan, o do meio, é estudante, e apaixonado pela arte; Lex, o mais novo, sente-se atraído pelos mundos tão díspares em que vivem os seus irmãos, na Glasgow de 1968 (da Warner Home Video). Outro destaque é «Escola de Ódio», de Peter Bogdanovich, com Sidney Poitier no mesmo papel que desempenhou há 30 anos em «To Sir, With Love», no qual protagonizava um professor de História em Londres. Nesta continuação, o honrado e afectuoso professor é transferido para uma escola nos arredores de Chicago, onde irá enfrentar os alunos mais conflituosos e violentos do que ele estava acostumado (Columbia-Tristar Home Video).


...E FORA DE CASA

Depois do enorme êxito de «O Professor Chanfrado» - quase tão grande como o corpo do seu protagonista -, Eddie Murphy volta a pisar o terreno da comédia de acção com «Metro», um filme dirigido por Thomas Carter. Murphy é um loquaz mediador nas negociações de resgate de reféns, com métodos de trabalho muito pouco ortodoxos, ainda que com muito bons resultados, mas que está em vias de perder o controlo. Então, dão-lhe um parceiro (interpretado por Michael Rapaport), recém formado pela Academia de Polícia, a quem ele terá de ensinar a sua arte. Os dois vão enfrentar um perigoso psicopata (Michael Wincott) num jogo mortal de gato e rato.

O filme reabilita a imagem do Eddie Murphy de «O Caça-Polícias», conferindo-lhe um personagem que permite a Murphy desenvolver todas as suas habilidades dramáticas e cómicas. Ele e o realizador coincidiram em potenciar o drama, deixando que o humor surgisse de forma espontânea, já que concordavam que a vida pode ser divertida até nas situações de grande tensão. O resultado final é um filme de polícias cheia de cenas que farão subir a adrenalina do espectador desde as primeiras imagens aéreas da baía de São Francisco.
Vasco Martins
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"Pregões de Esperança"

de D. Manuel Martins

Erguer a voz quando importa clamar, conversar quando é necessário, pregar sempre, profetizar e denunciar - de tudo isto tem sido feita a vida episcopal do Bispo de Setúbal, D. Manuel Martins. Muitas vezes essa voz profética revela-se nas páginas humildes de "A Seara", ultrapassando o âmbito territorial da Diocese setubalense para pairar sobre toda a nação portuguesa.

Em boa hora a Caritas Diocesana de Setúbal decidiu publicar em livro essas crónicas de D. Manuel, organizadas tematicamente, sem perderem a frescura do momento em que as palavras foram ditas.

Como refere o próprio Bispo de Setúbal no "Porquê?" da portada do livro, a "actualidade e a serenidade destas mensagens" ditaram o interesse na sua publicação, de modo a que os "apelos de solidariedade e de paz" e a "chamada à esperança" fiquem, nestas páginas, "para continuarem a alertar, a incomodar e, se possível, a transformar."

Dirigida a todos os "homens de boa vontade", a mensagem do Bispo de Setúbal constitui um excelente momento de meditação e uma oportunidade de reflectir sobre a realidade social e religiosa em que nos movimentamos.

Ademais tem a bondade da fácil e suave leitura, o encanto da linguagem simples, o arrojo da denúncia, o apelo da solidariedade e a proclamação da esperança. Tudo, afinal, o que importa encontrar numa voz profética que continua a marcar os dias da Igreja em Portugal.

(D. Manuel da Silva Martins, Pregões de Esperança. Ed. Caritas Diocesana de Setúbal, 1997. Distrib. Livraria Telos Editora, R. Santa Catarina, 521, Porto)

B. C.


Um livro do Dr. Ernesto Campos

Crenças e Malquerenças

A dedicação a uma causa é muitas vezes o motivo a partir do qual nos surgem interessantes testemunhos escritos que ficam para a memória, ilustrando o pensamento do seu autor e, não raro, a obra em que esse mesmo autor mergulhou.

Pensamos que está neste caso o livro Crenças e Malquerenças que o Dr. Ernesto Campos, um dos mais perseverantes colaboradores da "Voz Portucalense", recentemente fez publicar. Trata-se de textos que o autor, conhecido interventor na área da Educação e da Solidariedade Social, produziu como "nota de abertura" de um programa radiofónico (Convergência - Um espaço aberto à diferença, emitido pela Rádio Festival) em que são tratados os "muitos e diversificados assuntos, problemas e preocupações que gravitam no universo da Deficiência Mental, dos seus portadores e das suas famílias e das Instituições que se dedicam a este delicado trabalho que é o de procurar melhorar as condições de vida das pessoas com essa deficiência."

É neste âmbito que surgem os textos do Dr. Ernesto Campos ora reunidos em livro, numa edição que é da responsabilidade da Delegação do Porto da APPACDM. São textos breves, dotados de uma grande riqueza humana, por isso, capazes de penetrar até ao âmago o leitor dotado de abertura de espírito aos problemas surgidos numa área tão difícil como é aquela em que se move a referida Associação.

Nas palavras de Manuel Aires Moreira, que escreveu a introdução a este belo livro, os textos assinados pelo Dr. Ernesto Campos "são movimentos do pensamento, económicos, mas minuciosamente programados para rasgar avenidas no íntimo dos seres."

Para além da beleza própria da prosa, apetece dizer radiofónica, do Autor, esta obra foi enriquecida com desenhos do professor Escultor Joaquim Machado, um homem empenhado não apenas na tarefa de ensinar "Arte", como na nobre tarefa da solidariedade. São desenhos, ainda nas palavras de M. A. Moreira, que reflectem o "testemunho do seu pressentimento de tantas realidades invisíveis que se ocultam por detrás das visíveis."

Nesta tarefa, a de atingir o invisível olhando o visível, Crenças e Malquerenças, título do primeiro texto do livro ("as pessoas comportam-se de acordo com aquilo em que acreditam"), proporciona um grande proveito espiritual.

(Ernesto Campos, Crenças e Malquerenças. Ilustrações de Joaquim Machado. Ed. Deleg. Porto APPACDM. Porto, 1996)

B. C.


Dialogar com a morte

O problema da morte, num mundo que aprecia sobremaneira - e com razão - a vida, é cada vez menos um tabu. Sabendo todos que, para utilizar uma expressão cansada de tanto uso, "a morte é certa", podemos perguntar com François Mitterrand "como morrer?"

O mais fácil, numa primeira e fútil tentativa de evitar a resposta, é ignorar a realidade e virar-lhe as costas. Mas pressentimos que, à semelhança de algumas civilizações passadas, talvez a melhor solução seja encarar a morte de frente.

Nesta perspectiva, como nas páginas da "Voz Portucalense" escreveu Gonçalves Moreira, têm sido publicados alguns trabalhos nos quais psicólogos e médicos falam da sua experiência junto de doentes terminais e de pessoas que viveram longos períodos de "morte aparente".

Rfeerimo-nos, hoje, ao livro de Marie de Hennezel, Diálogo com a Morte, em que a autora, psicóloga de profissão, defende que "a sociedade ocidental precisa de rever as suas atitudes perante a morte, abandonando o medo e aceitando-a como uma fase do processo da vida".

A partir de experiências que viveu à cabeceira de doentes terminais, Marie de Hennezel dá-nos "uma lição de vida", um livro de que "emana uma luz" que é "mais intensa que muitos tratados de sabedoria", ainda nas palavras de F. Mitterrand.

Afinal, de acordo com o antigo Presidente da República francesa, uma pessoa que viveu longos meses de "diálogo com a morte", o "mais belo ensinamento deste livro" é este: "a morte pode fazer que uma pessoa se torne naquilo para que foi chamada a ser; ela é, talvez, no pleno sentido da palavra, uma realização".

(Marie de Hennezel, Diálogo com a morte. Trad. José Carlos Gonzalez. Editorial Notícias, Lisboa, 1997. À venda na Livraria Telos Editora, R. Stª Catarina, 521, Porto)


Dizer Deus com modéstia

Qualquer livro com a assinatura de González-Carvajal é credor de uma demorada atenção e de cuidada leitura. Pena que nem sempre as suas obras nos sejam oferecidas em português, embora se admita que o castelhano não é entrave a uma leitura que se faz com verdadeiro prazer espiritual.

Desta vez, este sacerdote madrileno conduz-nos a uma tema de flagrante interesse - quando dizemos "Deus", o que dizemos de facto? Longe do mandamento que orienta cada crente na santificação do nome de Deus, esta palavra tem sido mutilada e utilizada nos mais diversíssimos sentidos por homens que por ela mataram e se deixaram matar...

Importa, diz González-Carvajal, limpar a palavra Deus, devolver-lhe a sua integridade original. Será possível? O que podemos fazer, defende o Autor, é, sabendo-a uma palavra "profanada e mutilada", levantá-la do pó, retirar-lhe um pouco do lixo que os séculos sobre ela depositaram.

Para isso, os crentes devem adoptar uma nova práxis, fazendo associar a palavra Deus a experiências positivas e libertadoras.

O padre Carvajal é, como se sabe, talvez o mais lido autor de temas religiosos de língua castelhana. Isto porque consegue, como refere ser seu propósito, "explicar a teologia da forma mais simples possível, sem perder por isso profundidade, àqueles que com ela não estão familiarizados". Um propósito totalmente conseguido, neste caso, falando, "com modéstia", de Deus que "também é mãe."

(Luis Gonzalez-Carvajal Santabárbara, Noticias de Dios! Ed. Sal Terrae, Santander, 1997. À venda na Livraria Telos Editora, R. Stª Catarina, 521, Porto)

B. Chamusca


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