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Um novo ponto crítico

"Estude em paz as ciências sem se meter em Filosofia ou Teologia. Foi o conselho (e advertência) que a autoridade me repetiu durante toda a minha vida. (...) Mas tal atitude é psicologicamente inviável e até directamente contrária à maior glória de Deus". T. de Chardin

Um tempo que faz do desporto uma ciência, da moda uma arte e do ensino uma indústria, é um cotovelo da história pela radical mudança de mentalidade que contém. Legalizar o infanticídio na barriga da mãe, ameaçar duplicar pessoas fazendo-as nascer sem pai são outros dados que se integram na viragem.

No dealbar de um novo milénio, perante este quadro de tão radical alteração do esquema de funcionamento social e dos hábitos mentais é uma avalanche de questões e interrogações que se nos apresentam - sobre a evolução, sobre a dialéctica fé e ciência, sobre o estatuto da paternidade, sobre o papel da Igreja em diálogo com o mundo, sobre o futuro da vida humana.

Perguntamo-nos com Teilhard de Chardin: que entendemos hoje de evolução? O famoso jesuita define-a como um desenvolvimento de crescente complexidade - da matéria à vida e da vida à consciência. Com dois pontos críticos: quando da sopa primordial uma revolução celular faz brotar a vida e quando a cerebralização eleva a "temperatura interior" e faz emergir o homem. Este caminho para a complexidade - do átomo à molécula, à célula, ao tecido vital, ao organismo, ao sistema nervoso - vai no sentido duma natureza que é ao mesmo tempo "pessoa".

Isto não tem nada que ver com materialismo nem com ateismo, nem contraria a criação; quer dizer tão-só que o mundo está continuamente a ser feito. Neste mesmo sentido, Leonardo Coimbra fala do homem como obreiro dum mundo a fazer.

E para chegar ao homem, à consciência, à liberdade, ao acto voluntário, como foi? Se se trata de mecanicista e automática complexidade não há lugar para a intervenção de Deus na criação da alma humana, para o "interveniente Deo" de S. Tomás. O próprio T. de Chardin se explica: "A acção criadora de Deus não se introduz à força no meio dos seres pré-existentes mas fazendo nascer as suas obras no seio mesmo das coisas. E com isto ela não é nem menos essencial, nem menos universal nem sobretudo menos íntima".

Eis talvez a palavra-chave: intimidade; que é sempre expressão da amor e de mistério. Onde vai deter-se? Tendo chegado ao homem, o movimento evolutivo parou? Ou mergulhará ainda mais no íntimo do átomo, além do que já faz a microfísica e no íntimo da célula, indo além da clonagem?

A antropogénese consumou-se ao nível da anatomia, continuou-se na cultura, aponta hoje, com os conhecimentos adquiridos, a " um verdadeiro super-organismo formado por uma conciliação de indivíduos, do mesmo modo que o nosso corpo é uma conciliação de células". Dir-se-ia que, com esta intuição, T. de Chardin rasgou um futuro sobre-humano. Seguramente bem distinto do inumano super homem de Nietzsche, mas sugerido agora pela técnica da clonagem.

Será - por que misteriosas vias? - a abertura ao sonho de Teilhard de uma "colectividade harmónica de consciências"? Para já afigura-se-nos ser, na melhor das hipóteses, apenas um novo momento crítico da evolução. Na pior, abre-se-nos o caminho duma dupla tentação: o abominável monstro de que falava Zaratustra ou a sedutora promessa de Satanás: Sereis como deuses.
Ernesto Campos
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Sinais de comunhão

Quem com espírito desapaixonado analisar a qualidade das nossas celebrações tendo em conta a situação real anterior à reforma litúrgica decretada pelo II Concílio do Vaticano não poderá deixar de notar o muito caminho feito no sentido de uma participação litúrgica mais plena: consciente, activa (externa e interna), sacramental, comunitária, frutuosa… Entretanto, séculos de «devocionismo» individualista em que o povo de Deus foi tido em pouca conta como «comunidade celebrante» tornando-se a Liturgia monopólio do «clero» (e seus equiparados, em virtude duma «deputação» jurídica) não se superam por decreto. A evolução das mentalidades é lenta e exige paciência e pedagogia.

Quando falamos em dimensão comunitária da participação, não pensamos dissolver a pessoa no colectivo: os valores personalistas não se opõem aos da comunidade. Mas também não se pode confundir «personalismo» com o «individualismo» a que, como herdeiros da «modernidade», somos particularmente propensos. Na perspectiva da Pastoral Litúrgica importa, por isso, enaltecer os momentos fortes de comunhão, tornando-nos mais sensíveis à força dos seus símbolos. Entretanto, os símbolos por excelência da comunhão os sacramentos celebramo-los na Liturgia. Será que nos apercebemos deles? Ou, pelo contrário, dominados por uma lógica eficientista e racionalista, os neutralizamos, acaso sem sequer disso nos apercebermos?


A Fracção do Pão

Ai o nosso espírito prático a sufocar os símbolos da comunhão e da partilha! A quem todos os dias comunga com o símbolo de um pão partido, partilhado com alguns fiéis, choca comungar um pão eucarístico inteiro: pequenino, redondinho, branquinho, mas inteiro! Mas a generalidade dos fiéis, habituados à prática, acham natural. Muitos sacerdotes, acostumados a recompor a hóstia partida e, depois, a comê-la toda sozinhos, nem reparam. E entretanto passa por aqui e assim se perde um dos mais densos símbolos da Comunhão e da partilha.

Não está em causa a liceidade da prática corrente. Mas é caso para lamentar que não levemos a sério a «natureza do sinal». Afinal, para que se parte o pão na Eucaristia? A resposta é clara: parte-se para se partilhar. Sobretudo porque o Senhor nos deixou o Sacramento do Seu Corpo como alimento de vida eterna no símbolo de um pão partido, repartido e partilhado. Não chamavam os primeiros cristãos «Fracção do Pão» ao Memorial que o Senhor nos deixou na Véspera da Sua Paixão? Também por isso é inaceitável que um discípulo de Cristo coma sozinho o seu pão inteiro.

A IGMR no seu n.º 283 recomenda que o pão eucarístico seja confeccionado de tal modo que o sacerdote «possa realmente partir a hóstia em várias partes e distribuí-las pelo menos a alguns dos fiéis» e não apenas pelos sacerdotes quando há concelebração. É certo que não se quis excluir a possibilidade de continuar a usar as hóstias pequenas. «No entanto prosseguia a IGMR , o gesto da fracção do pão assim era designada a Eucaristia na época apostólica manifesta de modo mais expressivo a força e o valor de sinal da unidade de todos em um só pão e de sinal da caridade, pelo facto de um só pão ser repartido entre os irmãos».

Não bastando a fracção de uma só hóstia grande para a comunhão dos fiéis, poderão usar-se várias hóstias grandes para que o gesto da fracção tenha mais consistência e expressividade. Sobretudo porque o sinal da Comunhão é mais rico quando esta se faz, mediante o sinal de um pão partido e repartido entre os irmãos. Quanto às objecções de ordem prática, não há que exagerar o seu peso: recusamo-nos a tomar em consideração o argumento do custo suplementar de hóstias maiores - susceptíveis de serem partidas -; quanto à duração excessiva do rito, temos de reconhecer que maior problema litúrgico será o da sua duração diminuta que o torna irrelevante. Se, quando há concelebração, se observar o previsto no nº 195 da IGMR (alguns concelebrantes não os diáconos colaboram com o presidente na Fracção do Pão enquanto se canta o Agnus Dei), é possível partir o pão eucarístico para centenas de pessoas em breve tempo. Nos outros casos, nada impede que, a par das tradicionais hóstias pequenas, se usem hóstias maiores já previamente divididas em ordem à Comunhão de um maior número de fiéis, reservando-se algumas hóstias para a Fracção, da forma mais expressiva, no momento próprio.
S.D.L.
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