Pouco passava do meio dia quando João Paulo II chegou a Beirute, onde deixou uma firme mensagem de paz e de convivência entre os povos: «É como amigo do Líbano que vim encorajar os filhos e filhas desta terra de hospitalidade, este país de velhas tradições culturais e espirituais, tão sedento de independência e de liberdade».
Depois de 140 mil mortos em 15 anos de guerra civil, os libaneses sentem que nunca tiveram tão pouco. Os maronitas, Igreja fundada no século V, viveram refugiados no Monte Líbano e conseguiram sobreviver com uma liturgia diferente. Em 1920, na queda do Império Otomano, pediram à França que ali criasse um estado, o Grande Líbano, que incluiu o Monte Líbano, 80 por cento cristão, mas também zonas sunitas e xiitas, que preferiam pertencer à Síria.
Em 1943 foi a independência, o que fez os muçulmanos desistir de se ligarem à Síria e os maronitas aceitarem constituir um estado árabe. Este pacto fez com que o presidente da República fosse sempre um maronita, dominando também o Parlamento, o primeiro ministro sunita e o presidente do Parlamento xiita. E tudo correu bem enquanto os cristãos eram maioria, mas depois começaram a defender os velhos direitos com exércitos privados, o mesmo fazendo os muçulmanos. Em 1970, os palestinianos expulsos da Jordânia, refugiaram-se no Líbano crescendo a guerra civil. Em 1976 os sírios intervieram acelerando a guerra e em 1990 impondo «a sua» paz.
Numa terra assim, a presença do Papa era um sinal de esperança para todos, como disse, no sábado, o Presidente da República, Elias Hraoui, acrescentando que será possível a vida em comum - «o nosso futuro está na Paz - num país que olha o futuro e se esforça por reconstruir a nação, mas advertiu que, para haver paz, se exige que as zonas ocupadas do Sul (por Israel), do Leste (xiita) e dos Golã (sunitas da Síria) sejam libertadas.
Para saudar o Papa, milhares de libaneses encheram o percurso até à Avenida do Museu, que de 1975 a 1990 fora a linha de demarcação entre Beirute ocidental e oriental. Encorajados pela presença do Papa, os libaneses levantaram cartazes em favor de dois lideres cristãos inimigos da Síria, um exilado em França e outro condenado à morte. Tanto havia fotos de Khomeini como símbolos da milícia xiita Hezbollah, numa convivência absolutamente impensável.
Houve depois um encontro com os presidentes da Câmara dos Deputados e do Conselho de Ministros e com os chefes das comunidades muçulmanas xiita e sunita, em que o Papa apelou ao respeito por todas as comunidades, pois deve haver «um lugar para cada cidadão», particularmente para aqueles que, por patriotismo, se envolvam na actividade política. E incitou os libaneses a fazerem tudo para que «a violência não volte a sobrepor-se ao diálogo, o medo à confiança, o ressentimento ao amor fraterno», mas reine a paz, a reconciliação e a vida fraterna.
O Papa partiu depois de helicóptero para Bkerké. E, ao entardecer, teve um encontro de oração a norte de Beirute, com cerca de quinze mil jovens, reunidos na basílica de Nossa Senhora de Harissa, padroeira do Líbano. «Jovens, vós sois a riqueza do Líbano» - disse o Papa acrescentando que lhes caberá «fazer cair os muros» que foram edificados durante períodos dolorosos da sua história. E, perante essas «testemunhas privilegiadas» assinou a Exortação Apostólica de conclusão do Sínodo dos Bispos dedicado ao Líbano em 1995, um documento de 200 páginas em que se faz um diagnóstico da situação e se aponta perspectivas de futuro.
No Domingo, foi a Eucacristia de encerramento da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para o Líbano, ao ar livre, na Praça dos Mártires, nas ruínas do centro histórico de Beirute, que se encheu completamente. No percurso o Papa foi saudado com arroz e pétalas de flores. O Altar, em cedro, era ornamentado com pedras das 17 civilizações que passaram pela cidade.
Meio milhão de pessoas, cristãos e muçulmanos, exultaram com os apelos do Papa e tanto mais quanto verificaram que ele não fugiu aos problemas que todos sentem mas não têm coragem de abordar: «Estou consciente das dificuldades mais importantes: a ameaçadora ocupação do Sul do Líbano, a crise económica, a presença de tropas armadas não-libanesas, o problema ainda não resolvido dos 500 mil deslocados, assim como o perigo do extremismo e a frustração de alguns». E, com clareza, o Papa advertiu que o Líbano tem de recuperar a independência total, a soberania completa e a liberdade sem ambiguidades»: «Estou certo de que o sofrimento dos últimos anos não foi em vão, mas ajudará a fortalecer a vossa liberdade e unidade».
E, solenemente, apelou ao diálogo «entre os crentes das grandes religiões monoteístas», devendo os libaneses ser corajosos na capacidade de se perdoarem uns aos outros e de resolverem os seus problemas. Acrescentou depois que, se os diferentes grupos não tentarem superar os conflitos, não será possível reconstruir a sociedade. Pediu ainda pelas populações de Tiro e de Sídon, martirizadas por xiitas e israelitas: «Imploro a graça de uma paz justa e permanente para o Médio Oriente, no respeito pelos direitos e aspirações de todos».
Para o patriarca maronita Nasrallah, esta visita fez reunir a maior multidão de sempre e serviu para «sarar as feridas», dois mil anos depois de Cristo por ali ter passado para curar o filho paralítico de uma pagã.
Houve ainda um encontro com os membros da Assembleia dos Patriarcas e Bispos católicos e um encontro ecuménico. Por fim, foi a Bênção da capela da Nunciatura Apostólica e, em Beirute, a cerimónia de despedida e o regresso a Roma.
O Líbano tem menos de quatro milhões de habitantes, sendo os cristãos cerca de milhão e meio, mas divididos em seis ritos: maronita, greco-melquita, arménio, siríasco, caldeu e latino. Cerca de 30 por cento dos cristãos são maronitas e aceitam a supremacia do Papa.
| Primeira Página | Página Seguinte |