O Dia Mundial da Juventude apresenta-se como porta de entrada na Semana Maior deste primeiro ano de preparação próxima para o Jubileu de Cristo. Um novo vigor e novos métodos devem ser utilizados para o anúncio do Evangelho, o que acontecerá sobretudo pela mão dos mais jovens. A mensagem do Papa lembra-lhes que não temam pois Cristo responde a toda a ânsia de viver, permite abraçar a vida com entusiasmo, dedicar-se aos mais pobres, colaborar na Igreja e dialogar com os que não são cristãos. O Papa, que apelara ao reconhecimento do direito das famílias a uma habitação condigna e ao dever da partilha dos bens materiais e espirituais, pede entusiasmo, sensibilidade e audácia em novos gestos de fidelidade à Boa Nova de Cristo.
Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Juventude
"- Mestre, onde moras? |
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1. É com alegria que, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, me dirijo a vós, prosseguindo o já longo diálogo que juntos temos vindo a fazer. Em comunhão com todo o Povo de Deus que caminha para o Grande Jubileu do Ano 2000, gostaria de convidar-vos este ano a fixar o olhar de Jesus, Mestre e Senhor da nossa vida, através das palavras do Evangelho de João: «Mestre, onde moras? Vinde e vereis» (Jo. 1,38-39).
Em todas as Igrejas, locais encontrar-vos-eis nos
próximos meses à volta dos vossos pastores para
reflectir sobre estas palavras evangélicas. Depois, em
Agosto de 1997, viveremos, juntamente com muitos de vós,
a celebração da XII Jornada Mundial da Juventude
a nível internacional, em Paris, no coração
do continente europeu. Naquela metrópole, desde há
séculos encruzilhada dos povos, arte e cultura, os jovens
de França já se estão a preparar com grande
entusiasmo para acolher os outros jovens provenientes de todos
os cantos do planeta. Seguindo a Cruz do Ano Santo, o povo
das jovens gerações que acreditam em Cristo tornar-se-á
mais uma vez o ícone vivo da Igreja peregrina pelas estradas
do mundo e, nos encontros de oração e reflexão,
no diálogo que une para lá das diferenças
da língua e de raça, na partilha dos ideais, dos
problemas e das esperanças, fará uma experiência
viva da realidade prometida por Jesus: «Onde estão
dois ou três reunidos em Meu nome, Eu estarei no meio deles»
(Mt 18, 20).
2. Jovens do mundo inteiro, é dentro dos caminhos da existência quotidiana que podeis encontrar o Senhor! Lembrai-vos dos discípulos que, acorrendo sobre as margens do Jordão para ouvir as palavras do último dos grandes profetas, João Baptista, vêem-no indicar em Jesus de Nazaré o Messias, o Cordeiro de Deus? Eles, cheios de curiosidade, decidiram segui-l'O à distância, quase tímidos e embaraçados, até que o próprio Jesus, voltando-se, perguntou: «Que procurais?», suscitando aquele diálogo que daria início à aventura de João, de André, de Simão «Pedro» e dos outros Apóstolos (Jo, 1, 29-51).
No concreto daquele encontro surpreendente, descrito com poucas mas essenciais palavras, descobrimos a origem de cada percurso de fé. É Jesus que toma a iniciativa. Quando tratamos algo com Ele, a pergunta é sempre invertida: de interrogantes, tornamo-nos interrogados, de «procuradores» passamos a «procurados»; é Ele, de facto, o primeiro que desde sempre nos ama primeiro (1. Jo. 3,10). Esta é a dimensão fundamental do encontro: não se está diante de uma coisa, mas de Alguém, do «Vivo». Os cristãos não são discípulos de um sistema filosófico: são os homens e as mulheres que fizeram, na fé, a experiência do encontro com Cristo (1 Jo. 1, 1-4).
Vivemos numa época de grandes transformações, onde as ideologias que pareciam ter grande resistência ao desgaste do tempo, têm um rápido declínio, e no mundo vão-se desenhando novos limites e fronteiras. A humanidade descobre-se muitas vezes incerta, confusa e preocupada (Mt 9, 36), mas a Palavra de Deus não desaparece; percorre a história e, na mudança dos acontecimentos, permanece estável e luminosa (Mt 24, 35). A fé da Igreja é fundamental sobre Jesus Cristo, único Salvador do mundo; ontem, hoje e sempre (Heb. 13, 8). Ela aponta para Ele, para que as perguntas que brotam do coração humano, diante do mistério da vida e da morte, sejam dirigidas a Ele. De facto, só d'Ele se podem receber respostas que nem iludem nem desiludem.
Voltando com o pensamento às vossas palavras nos inesquecíveis encontros que tive a alegria de viver convosco durante as minhas viagens apostólicas a todas as partes do mundo, parece-me ler nelas, de forma premente e viva, a mesma pergunta aos discípulos: «Mestre, onde moras?».
Aprendei a ouvir, no silêncio da oração,
a resposta de Jesus: «Vinde e vereis».
3. Caríssimos jovens, como os primeiros discípulos, segui Jesus! Não tenhais medo de aproximar-vos d'Ele, de passar a entrada da sua casa, de falar com Ele face a face, como se convive com um amigo (Ex. 33, 11). Não tenhais medo da «vida nova» que Ele vos oferece: Ele mesmo vos dá a possibilidade de acolhê-la e de a pôr em prática, com a ajuda da sua graça e com o dom do seu Espírito.
É verdade: Jesus é um amigo exigente que indica metas altas, que pede para sair de si mesmo e ir ao Seu encontro, confiando-Lhe toda a vida: «Quem perder a sua vida por minha causa e por causa do Evangelho, salvá-la-á» (Mc. 8, 35). Esta proposta pode parecer difícil e, em alguns momentos, pode mesmo meter medo. Mas, pergunto-vos, será melhor resignar-vos a uma vida sem ideais a um mundo construído à vossa própria imagem e semelhança, ou antes procurar generosamente a verdade, o bem, a justiça, trabalhar por um mundo que espelhe a beleza de Deus, mesmo que com o custo de se ter de enfrentar as provas que isso comporta?
Derrubai as barreiras da superficialidade e do
medo! Reconhecendo-vos como homens e mulheres
«novos», regenerados pela graça baptismal. Conversai
com Jesus na oração e na escuta da palavra; saboreai
a alegria da reconciliação no sacramento da Penitência,
recebei o Corpo e o Sangue de Cristo na Eucaristia; acolhei-O
e servi-O nos irmãos. Descobrireis a verdade sobre vós
mesmos, a unidade interior, e descobrireis o «Tu», que
cura das angústias, dos pesadelos, daquele subjectivismo
selvagem que não deixa ninguém em paz.
4. «Vinde e vereis». Encontrareis Jesus aí onde os homens sofrem e esperam: nas pequenas aldeias espalhadas pelos continentes, aparentemente à margem da história, como era Nazaré quando Deus enviou o seu Anjo a Maria; nas imensas metrópoles onde milhões de seres humanos vivem muitas vezes como estranhos. Cada homem, na realidade, é «concidadão» de Cristo.
Jesus vive ao vosso lado nos irmãos com
quem partilhais o dia-a-dia. O Seu rosto é o dos mais pobres,
dos marginalizados, vítimas não raro dum injusto
modelo de desenvolvimento, que põe o lucro em primeiro
lugar e faz do homem um meio em vez de um fim. A casa de Jesus
está aí em todo o sítio onde um homem sofre
pelos seus direitos negados, pelas suas esperanças traídas,
pelas suas angústias ignoradas. Aí, entre os homens,
está a casa de Cristo, que vos pede para enxugar, em Seu
nome, cada lágrima e de recordar, a quem se sente só,
que ninguém está só se puser n'Ele a sua
própria esperança (Mt 25, 31-46).
5. Jesus mora no meio daqueles que O invocam sem o terem conhecido; no meio de tantos que, tendo começado a conhecê-l'O, sem própria culpa, O perderam; no meio de tantos que O procuram de coração sincero, mesmo que pertencendo a situações culturais e religiosas diferentes (Lumen Gentium 16). Discípulos e amigos de Jesus, tornai-vos artífices de diálogo e colaboração com quantos acreditam num Deus que governa com infinito amor o universo; tornai-vos embaixadores daquele Messias que encontrastes e conhecestes na sua «casa», a Igreja, de modo que muitos outros da vossa idade possam seguir esse caminho, iluminados pela vossa caridade fraterna e pela alegria dos vossos olhares que contemplaram Cristo.
Jesus mora entre os homens e as mulheres «marcados pelo nome cristão» (L. G. 15). Todos O podem encontrar nas Escrituras, na Oração e no serviço ao próximo. Na véspera do terceiro milénio, cada vez se torna mais urgente o dever de reparar o escândalo da divisão entre os cidadãos, reforçando a unidade através do diálogo, da oração comum e do testemunho. Não se trata de ignorar as divergências e os problemas contentando-se com um relativismo morno, isso seria como tapar a ferida sem a curar, com o risco de interromper o caminho antes de se ter chegado à meta da plena comunhão. Trata-se, pelo contrário, de agir - guiados pelo Espírito Santo - em vista de uma real reconciliação, confiando na eficácia da oração pronunciada por Jesus na vigília da Sua paixão: «Pai, que eles sejam um só como Nós somos um» (Jo. 17-22). Quanto mais vos agarrais a Jesus, tanto mais sereis capazes de estar próximo uns dos outros; e na medida em que cumprirdes gestos concretos de reconciliação, é que entrareis na intimidade do Seu amor.
Jesus mora particularmente nas vossas Paróquias,
nas comunidades em que viveis, nas associações
e nos movimentos eclesiais de que fazeis parte, tal como
em tantas outras formas contemporâneas de agregação
e de apostolado ao serviço da nova evangelização.
A riqueza de tanta variedade de carismas beneficia toda a Igreja
inteira e incita cada crente a pôr as próprias potencialidades
ao serviço do único Senhor, fonte de salvação
para a humanidade inteira.
6. Jesus, é a «Palavra do Pai» (Jo. 1,1), oferecida aos homens para revelar o rosto de Deus e dar sentido e meta aos passos incertos. Deus, «que nos tempos antigos muitas vezes e de muitos modos tinha falado aos pais pelos profetas, agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Seu Filho, a Quem constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo Qual fez o mundo» (heb. 1, 1-2). A Sua palavra não é imposição que arromba as portas das consciências, é uma voz persuasiva, dom gratuito que, para se tornar salvífico no concreto da vida de cada um, pede uma atitude disponível e responsável, um coração puro e uma mente livre.
Nos vossos grupos, caríssimos jovens, multiplicai
as ocasiões de escuta e de estudo da Palavra do Senhor,
sobretudo através da lectio divina: aí descobrireis
os segredos do coração de Deus e daí
tirareis fruto para o discernimento das situações
e para a transformação da realidade. Guiados pela
Sagrada Escritura podereis reconhecer na vossa vida a presença
do Senhor, e então também o «deserto»
poderá tornar-se um «jardim», no qual é
possível à criatura falar com o seu Criador familiarmente:
«Quando leio a divina Escritura, Deus torna a passear
no paraíso terrestre» (Santo Ambrósio,
Epístola 49, 3).
7. Jesus vive no meio de nós na Eucaristia, na qual se realiza de forma suprema a sua presença real e a sua contemporaneidade com a história da humanidade. Entre as incertezas e distracções da vida quotidiana, imitai os discípulos a caminho de Emaús e, como eles, dizei ao Ressuscitado que se revela no acto de partir o pão: «Fica connosco, pois faz-se tarde e o dia já chega ao fim» (Lc. 24, 29). Invocai Jesus, para que ao longo das estradas de tantas Emaús do nosso tempo fique sempre convosco. Seja Ele a vossa força, o vosso ponto de referência, a vossa perene esperança. Nunca falte, caros jovens, o Pão eucarístico sobre as mesas da vossa existência. É deste Pão que podereis tirar força para testemunhar a fé!
À volta da mesa eucarística
realiza-se e manifesta-se a harmoniosa unidade da Igreja, mistério
de comunhão missionária, na qual todos se sentem
filhos e irmãos, sem exclusão ou diferenças
de raça, língua, idade, grupo social ou cultura.
Caros jovens, dai o vosso contributo generoso e responsável
para edificar continuamente a Igreja como família,
lugar de diálogo e de recíproco acolhimento, espaço
de paz, de misericórdia e de perdão.
8. Iluminados pela palavra e fortificados com o pão da Eucaristia, caríssimos jovens, sóis chamados a ser testemunhas credíveis do Evangelho de Cristo, que faz novas todas as coisas.
Mas como se reconhecerá que sóis discípulos
de Cristo? Porque «tereis amor uns pelos outros» (Jo.
13, 35). A partir do exemplo do Seu amor: um amor gratuito, infinitamente
paciente, que não se nega a ninguém (I Cor. 13,
4-7). Será a fidelidade ao mandamento novo que certificará
a vossa coerência com o anúncio que proclamais.
Esta é a grande «novidade» que pode espantar
um mundo infelizmente ainda dilacerado e dividido por violentos
conflitos, por vezes evidentes e manifestos, outras vezes subtis
e escondidos. Neste mundo vós sóis chamados a
viver a fraternidade, não como utopia mas como possibilidade
real; nesta sociedade sóis chamados a construir, como verdadeiros
missionários de Cristo, a civilização do
amor.
9. No dia 30 de Setembro de 1997 celebra-se o centenário da morte de Santa Teresa de Lisieux. A sua figura não poderá deixar de chamar, na sua pátria, a atenção de tantos jovens peregrinos, exactamente porque Teresa é uma santa jovem, que repropõe hoje este simples e sugestivo anúncio, cheio de espanto e de gratidão: Deus é Amor; todas as pessoas são amadas por Deus; que espera ser acolhido e amado por cada um. Uma mensagem que vós, jovens de hoje, sóis chamados a acolher e a gritar aos outros jovens; «O homem é amado por Deus! Este é o simplicíssimo e o mais comovente anúncio de que a Igreja é devedora ao homem! (Chrisfideles Laici, 34).
Da juventude de Santa Teresa do Menino Jesus sai o seu entusiasmo pelo Senhor, a forte sensibilidade com que viveu o amor, a audácia não ilusória dos seus grandes projectos. Com o fascínio da sua santidade, ela confirma que Deus concede também aos jovens, com abundância, os tesouros da sua sabedoria.
Percorrei com ela a via humilde e simples da maturidade cristã, na escola do Evangelho. Permanecei com la no «coração» da Igreja, vivendo de modo radical a escolha por Cristo.
10. Caros jovens, na casa onde mora Jesus encontrais a presença dulcíssima da Mãe. Foi no seio de Maria que Jesus se fez carne. Aceitando o papel que o desígnio da salvação lhe atribuía, a Virgem tornou-se modelo de cada discípulo de Cristo.
A Ela confio a preparação da celebração da XII Jornada Mundial da Juventude, assim como as esperanças e expectativas dos jovens que, em cada canto da terra repetem com Ela: «Eis-me, sou a serva do Senhor, faça-me em mim a tua palavra» (Lc. 1, 38), e vão ao encontro de Jesus para viver na sua casa, prontos a anunciar depois aos outros jovens, como os Apóstolos: «Encontramos o Messias!» (Jo. 1, 41).
É com estes sentimentos que envio a cada um de vós a minha cordial saudação, ao mesmo tempo que, acompanhando-vos com a oração, vos abençoo.
| João Paulo II (15. Agosto.1997) |
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