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"O erro do arcebispo": assim se intitulava há dias "The Times" um editorial em que criticava asperamente o sermão pronunciado na véspera, em Jerusalém, pelo arcebispo de Cantuária, George Carey. Para aquele importante quotidiano britânico, Carey teria agido de modo insensato, pouco inteligente, ao "sair fora das questões espirituais". O Primaz Anglicano deveria ter deixado aos políticos o que é da conta destes. Em causa o pronuncionamento contra a decisão do governo israelita de construir mais um bairro judeu em Jerusalém e a favor do direito do povo palestiniano a dispor de um Estado próprio.
Não já no Editorial, mas na notícia da primeira página, "The Times" não deixava de referir que George Carey "se fez eco da condenação do Papa, domingo passado, do plano de Israel de construir habitações para 32 mil judeus em Har Homa.
Terá sido, sem dúvida, devido à gravidade da situação, mas a verdade é que as palavras de João Paulo II, no referido Angelus de domingo, dia 9, assumiram uma frontalidade pouco comum. Embora contestando a alusão com a referência a outras situações preocupantes (Albânia, Zaire, Lima) e Papa afirmou sem meios termos: "Em Jerusalém, as autoridades de Israel tomaram graves decisões que suscitaram a atenção e preocupação da comunidade internacional e que poderiam afectar seriamente o processo de paz e o espírito de confiança tão necessário para o prosseguimento do mesmo".
Mais ainda: sempre em referência aos quatro casos em presença, o Papa não hesitou em declarar que se trata de "situações dolorosas que nascem de posições intransigentes e egoístas", advertindo que "só com o respeito de todos e com um diálogo construtivo se podem encontrar soluções honrosas para cada um, úteis à paz social e à compreensão entre os povos".
O recado não poderia ser mais claro, sobretudo depois da
menção expressa das autoridades israelitas, que,
evidentemente, teriam preferido não o ouvir. Pelo menos
no caso da Itália, boa parte dos meios de comunicação,
sempre tão prontos a fazer-se eco das palavras do Papa,
optaram desta vez por as silenciar. O que poderia apenas testemunhar
o que muita gente sabe, isto é, a preponderância
de que dispõem neste campo os capitais ligados aos meios
hebraicos.
Não metam o nariz
Que João Paulo II não se limite às questões espirituais quando estão em jogo os direitos e os deveres fundamentais das pessoas e dos povos e a promoção da justiça e da paz, já todos o sabiam há muito. Mas é inegável que há algo de novo nos meios adoptados e na coragem e frontalidade com que se chama às coisas pelo seu nome, indo bastante para além do tradicional estilo diplomático e da linguagem macia e arrevesada que acabava por anular todo o vigor da expressão.
No que diz respeito aos meios e tempos usados, este pontificado tem revelado grande inventiva em aproveitar (ou até mesmo criar) novas oportunidades para fazer chegar a todos os lados a voz do Papa e da Sé Apostólica, com uma interacção mediática a todos os níveis. Foi o caso, por exemplo, da carta que João Paulo II enviou, este mês, ao novo Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan (como que a trazer para a ribalta uma figura ainda na penumbra), sobre a degração da situação na zona dos Grandes Lagos e a crescente militarização que abala a região oriental do Zaire. Igualmente directa e concreta foi a intervenção relativa à Albânia, neste último domingo ao meio-dia, por ocasião do Angelus.
Há uns 20 anos, o quotidiano francês "Le Figaro", reagindo a um documento da Comissão Episcopal "Justiça e Paz" que punha em causa a moralidade da política francesa relativa à produção e exportação de armas, escrevia: "Messieurs les évêques, occupez-vous de vos oignons". Como quem diz: "Senhores bispos, não metam o nariz onde não são chamados!".
Há quem pense, como "The Times" ou "Le Figaro", que o Papa, os bispos e todos os cristãos mais responsáveis não têm nada que se meter naquilo em que não são chamados. Continuarão a convidá-los a ocupar-se apenas das "coisas espirituais" e a deixar aos políticos o que a estes diria exclusivo respeito.
Esquece-se assim que não há questão mais espiritual e sagrada do que o respeito pela vida e pelas pessoas, culturas e povos.
Entre os que gostariam de calar a boca a João Paulo II ou ao Primaz Anglicano não falta quem esteja pronto para acusar amanhã as Igrejas e os seus pastores pelo silêncio relativo aos holocaustos de todos os tempos. Sinais de contradição.
| Pacheco Gonçalves |
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Em tão pouco tempo, passa-se sobre os mais gritantes dramas pessoais fazendo deles espectáculo, como se essas pessoas, marcadas já por tantos problemas de que não tiveram culpa, não tivessem sensibilidade! Será que para sempre terão de ser apontados a dedo e que, mesmo após a maioridade, têm de ser joguete nas mãos dos que os abandonaram ou, pior ainda, de empresas que querem ganhar dinheiro mostrando as suas misérias? Não haverá quem defenda o seu direito ao bom nome e as instituições que, apesar de tantos traumas, os tomaram nas mãos fazendo de pais e mães?
Conheço o coração da Obra de Nossa Senhora das Candeias desde 7 de Abril de 1969, quando casei com uma jovem ali educada. De então para cá, não mais perdi o contacto, partilhando regularmente dos seus encontros. Foi ali que aprendi a integrar o diferente e a respeitar o outro, e ali fui aprendendo um grande espírito de acolhimento e capacidade de partilhar. Posso dizer que aprendi a solidariedade como doacção, gratuidade e descrição. Na Obra encontrei uma pedagogia educativa que muito me apoiou na educação dos meus três filhos, hoje universitários, e um deles a integrar-se já na vida do trabalho.
Questiono-me, por que se atira pedras a quem comete a ousadia de, em tempos de feroz egoísmo, amar os pequeninos e aquecer o seu coração... Subitamente, parece que se tornou um crime ajudar a crescer os que foram abandonados pelos pais e pela sociedade. Muitos desses não podem continuar a ser explorados por quem não os abandonou. E espero que, ao menos a Igreja, que tem casas como as do Gaiato e outras, continue a defender os que são os mais desprotegidos, pois nem uma família lhes foi dado ter. E também as pessoas que deram a sua vida para que tais obras prossigam na sua missão.
| J. Matos, Porto |
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«Era uma vez um Homem, de seu nome Serafim, de 50 anos de idade, sacerdote de profissão.
Vivia este, serena e modestamente, entre o seu trabalho e a sua família, quando esta se viu aumentada com mais um pequenino ser. Acabara de nascer-lhe uma sobrinha. A alegria foi geral, e também ele partilhou dessa alegria. Alegria acrescentada quando dois dias depois se tornou seu padrinho de baptismo. Tio, pelos laços de sangue, e pai em Deus.
Mas, quinze dias passados, a menina adoeceu. Na época, a doença era fatal. A morte lhe estava preparada e a família desenganada. Só que os médicos se esqueceram de um pequeno pormenor. Naquela família, havia um homem invulgar, que, no auge do sofrimento, conversou com Deus. E, foi mais ou menos assim: «Meu Deus, se tiveres de levar alguém desta família, leva-me antes a mim, que já vivi 50 anos».
Quanta generosidade! Que dimensão humana! Que grandeza de espírito!
Nunca contei isto a ninguém. Calei-o sempre, bem no fundo de minha alma. Também nunca, em vida lhe agradeci este gesto. É, que, sabem, não conseguia. Faltavam-me as palavras, e a emoção tolhia-me.
Hoje, porém, tenho necessidade de o fazer. Quero partilhá-lo connosco, à laia de agradecimento póstumo.
Como já perceberam, a menina não morreu. A menina era eu. O Sacerdote, esse, era Monsenhor Serafim Amaral».
| Isabel, a sobrinha e afilhada in «Vida Nova» |
Ao jornalismo assiste o direito de se antecipar às informações oficiais mas a «sacralidade» dos segredos de Roma parece quebrada. Já se sabe nos corredores eclesiásticos quem sucede a quem - onde está o sigilo a que se comprometem os que são informados? - e o resultado é óbvio: a Comunicação Social passa a controlar indirectamente decisões eclesiásticas e eclesiais tal como faz com os poderes políticos. Mais: gera factos religiosos.
É evidente que se, numa quarta-feira, a imprensa diária informa sobre a nomeação de um Bispo os semanários de sexta ou sábado têm de acrescentar um ponto ao conto já contado. Assim sendo, desencadeiam outro facto que pode determinar decisões da própria Igreja se esta não estiver atenta. É que estas informações, por vezes próximas da intriga, brotam de meios eclesiásticos sob a capa de «fonte segura».
Tempos houve em que Bispo anunciado prematuramente era Bispo efectivamente «chumbado». Nos novos tempos isso não acontece. A Igreja em Portugal é tão vulnerável a este rodopio de notícias como qualquer entidade ou organização. Os tempos mudaram e o jornalismo tanto escrito como audiovisual rompeu as barreiras convencionais das boas maneiras e o respeito pelos «embargos».
Alguém falava no «efeito dominó» de algumas nomeações episcopais à beira do ano 2000. E o perfil que se aponta como ideal para um Bispo é assumidamente mundano e político: esperteza, tacto político, habilidade diplomática. E um Bispo é um Pastor, sucessor dos Apóstolos. Não pode ser escolhido com meros critérios de carreira eclesiástica. Até me parece que por essa via Pedro nunca teria sido Papa. É preciso que os mundanismos não corroam os critérios evangélicos.
| António Rego in «Ecclesia» |
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