Rebuscando nos recônditos da memória, lembro uma leitura feita em tempos idos, de um livro de divulgação científica, cuja intenção era ajudar a observar com olhos de ver as realidades científicas com que nos deparamos no quotidiano. Não me recordo do título do livro, mas recordo-me do seu autor. Chamava-se Rómulo de Carvalho. Esse livrinho estava escrito num estilo simples e sugestivo, e aparentemente com as características de uma mera divulgação. Mas a boa divulgação deve ser rigorosa, e o autor estava longe do facilismo que caracteriza a divulgação de dados científicos por parte de alguma imprensa moderna.
O episódio que melhor recordo dessa leitura era aquele em que o autor declarava mais ou menos o seguinte: que nunca ninguém viu o seu próprio rosto. O que as pessoas vêem geralmente é o simétrico do seu próprio rosto. Mesmo, portanto, aquelas senhoras que passam meia hora ao espelho, como diz a cantiga, não vêem o seu rosto, não vêem pelo menos o mesmo rosto como os outros o vêem. Observam e tentar compor apenas o seu simétrico, por muito próximo e parecido que seja com o real. A imagem que dele têm é apenas virtual. Da mesma forma que a nossa mão espelhada se transforma de esquerda em direita, ou ao contrário. Não constitui isso qualquer espécie de mal, porque as imagens virtuais são por vezes mais ricas e interessantes do que as reais.
O que sim pode ser interessante é a aplicação desse dado à própria personalidade complexa e polifacetada de Rómulo de Carvalho, cujo simétrico é António Gedeão. Como no fenómeno da criação heterónima, praticada por vários autores mas exponenciada em Ferrando Pessoa, poderíamos dizer que Gedeão é o simétrico poético do cientista.
2. Aí pelo fim dos anos sessenta apareceu, num dos melhores programas que algum dia a televisão apresentou em Portugal, naqueles tempos da idade da pedra em que não havia guerras de audiências nem concursos bacocos, em que os responsáveis não eram evoluídos (como hoje são, ou pensam que são), mas faziam trabalhar a inteligência e a imaginação, e sabiam estar atentos aos artistas e aos criadores de cultura, apareceu um cantor de baladas (forma musical de criação nacional, certamente inspirada nos filmes americanos, como quase tudo neste país) que lançou ao vento uma toada plangente que começava assim: Eles não sabem que o sonho / é uma constante da vida / tão concreta e definida / como outra coisa qualquer.... Em pouco tempo, o que parecia constituir apenas mais uma canção para juntar ao extenso rol das meditações sociológica tornou-se numa referência obrigatória em todas as tertúlias e encontros onde se discutissem os problemas sociais e culturais de então. Não havia encontro estudantil que não agarrasse com ambas as mão esse aliado inesperado, essa espécie de ovo de Colombo da intervenção. Estávamos de facto perante uma pedra filosofal: tinha o condão de transformar em denúncia aquilo que parecia não a conter. Nesses tempos, em que as formas de dizer tinham que ser especialmente cuidadas, em que as linguagens tinham que ser controladas, em que as palavras tinham que ser medidas, em que era preciso ao mesmo tempo denunciar e dar a impressão de o não fazer, a canção tornou-se num símbolo.
Donde lhe vinha a força inesperada? Que tinham as suas palavras para entusiasmar dessa forma tão subtil e tão incontida as mentes descontentes? Qual era a sua força de denúncia ou de intervenção? Porque a agarravam os adultos e jovens mais inquietos e dinâmicos?
Creio que o fenómeno ainda não foi inteiramente dissecado. Mas parece que a raiz de tudo está em duas palavras: eles e sonho. Eles identificava-se facilmente com o poder e aqueles que o exerciam. Sonho conotava a criatividade, a imaginação, a capacidade de superar as dificuldades e as situações. O sonho tornava-se a ânsia de liberdade. Sonhar equivalia e lutar, a não desistir. O sintagma o sonho comanda a vida era por assim dizer a bandeira, o apelo à acção.
Esta era, porém, apenas uma leitura superficial. Era preciso mergulhar em todo o poema para perceber que nele estava contido todo um universo de criação e de criatividade humana. Um poema que constituía a expressão poética, inesperadamente vigorosa e dinâmica, da expressão bíblica: dominai a terra e transformai-a. Lá estavam as pesquisas científicas, as expressões artísticas, as catedrais e a música, as descobertas dos mares, as descobertas da ciência moderna, a própria previsão do futuro: desembarque em foguetão / na superfície lunar . Verifique-se que, o poema foi escrito e quando foi publicado (1956) ainda o homem estava bem longe de vir a chegar à lua, mas Gedeão, porta e profeta, já tinha compreendido que ele viria a realizar esse sonho.
3. Veio depois a descoberta da restante produção poética de A. Gedeão, até aí desconhecida do chamado grande público. Apesar de um outro público, de que é testemunha Jorge de Sena, no notável esboço de análise objectiva que precede as Poesias Completas (1956-1967) de Gedeão, falar do êxito justíssimo que a sua poesia obteve e afirmar que ali estava um poeta novo e diferente. Com efeito, a seguir à Pedra filosofal, veio para a ribalta o Poema para Galileo e o Poema do amor. Veio o Dia de Natal. Veio a Lágrima de preta e a Calçada de Carriche. Veio a Mãezinha e o Poema da morte na estrada. Que tinham de novo estes poemas? Por quais razões agitavam as mentes e as consciências?
Uma linguagem poética simples, uma denúncia irónica das arbitrariedades, uma visão amarga da exploração, um sentido agudo das complexas e misteriosas relações entre a matéria bruta e a realidade espiritual. Depois havia uma poética formal que assentava na linguagem tradicional, mesmo quando o verso era longo e livre, e nas formas estróficas e rimáticas de raiz e cariz popular.
Um dos aspectos, porém, mais originais da sua poesia encontrava-se na capacidade imprevista (embora já experimentada em outros poetas, dos quais o melhor exemplo é Cesário Verde) de dar vida poética à realidade e à linguagem científica. A simples enumeração de alguns títulos demonstra esse dado: Espelho de duas faces, Vidro côncavo, Teatro óptico, Poema de pedra lioz, Vitríolo, Aurora boreal, Ponto de orvalho, Máquina de fogo, Sonolência cósmica, Escopro de vidro, Teatro anatómico, Suspensão coloidal, Lição sobre a água, Poema da buganvília, etc. Verifica-se que o poeta Gedeão busca a matéria informe da sua inspiração poética, como e escultor de Vieira que traz das montanhas um rochedo duro e informe, nos mesmos materiais da natureza (da natureza ou da sociedade) que servem de objecto de análise ao físico Rómulo de Carvalho. Como quem diz: nas coisas mais materiais da vida, que nos habituamos a ver apenas na sua constituição física, molecular ou energética, dissecando os seus elementos constitutivos, há sempre uma dimensão poética, que está para além da palpável crua materialidade. Eis pois o apelo a uma visão espiritual para além dos dados imediatos e da simples experiência científica. O essencial é invisível aos olhos.
4. Mas a dimensão da denúncia dos vícios sociais tornou-se talvez mais evidenciada, ao ser utilizada a poesia de Gedeão na sua vertente de forma de intervenção social e cultural. Era possível sentir e denúncia do obscurantismo e das atitudes inquisitoriais no belo Poema para Galileo; a denúncia do racismo na Lágrima de preta; a exibição do consumismo e a perda do sentido festivo lídimo e original no Poema para o Natal; a proclamação denunciadora da situação e da exploração da mulher na Calçada de Carriche; o desmascaramento da utilização das guerras em proveito próprio no extraordinário e actualíssimo poema Trovas para serem vendidas na Travessa de São Domingos, talvez não muito conhecido, que reza assim: O repórter fotográfico / foi ver a fusilaria. / Ganhou o prémio do ano / da melhor fotografia.
Agora, apenas há que terminar com um dos mais enigmáticos
e claros poemas de Gedeão. Vejam nele a clara e ancestral,
e misteriosa dimensão do homem como medida de todas as
coisas. Vejam nele sobretudo a invenção da claridade
dos olhos que fixam as catedrais. O talvez a redescoberta de uma
sempre renovada força do olhar:
| A catedral de Burgos tem trinta metros de altura
e as pupilas dos meus olhos dois milímetros de abertura. Olha a catedral de Burgos com trinta metros de altura! |
O poeta Gedeão suplantou, para a posteridade, o cientista e o professor Rómulo. Poucos conheceriam este sem as palavras daquele. Mas um e outro operaram simetricamente as diferenciadas potencialidades da criação humana.
| C. F. |
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