Jogos Olímpicos de Atlanta não travam os conflitos

Neste fim de Julho e início de Agosto, decorrem em Atlanta, EUA, os Jogos Olímpicos que celebram o centenário da iniciativa de Pierre de Coubertin. Ao longo deste século, os Jogos evoluíram de forma assinalada: desde a exclusão inicial das mulheres à revolução que a electrónica provocou na contagem dos recordes, agora derrubados por centésimas de segundo, também o espírito olímpico deixou o amadorismo coubertiniano permitindo a presença dos profissioanis altamente cotados.

Na verdade, hoje, os melhores são recompensados com enormes somas de dinheiro ou de equivalentes bens materiais que, por certo, Coubertin nunca sonhou. A concretização quadrienal do lema «citius, altius, fortius» só tem sido possível nestes últimos tempos pela dedicação total e integral, isto é, profissional dos atletas à modalidade da sua predilecção, única forma de evoluir e de competir para ganhar. Sim, porque competir por competir começa a soar a desculpa de quem não tem condições para ganhar, embora seja assinalável a multidão dos que competem sem nada vencerem e sabendo que isso é mesmo assim. Ou melhor, talvez se vençam a si próprios, no esforço continuado para ir mais além na sua carreira desportiva.

De resto, a questão das recompensas monetárias estalou no seio da comitiva portuguesa, quando a campeã Fernanda Ribeiro fez notar a diferença de tratamento entre ela própria (e restantes praticantes do atletismo) e os futebolistas da nossa selecção olímpica. Elas alojadas em espartanas instalações universitárias, onde não há luxo, escasseiam os telefones, as casas de banho são colectivas, com 3 (três) contos por dia de ajudas de custo; eles alojados em excelentes hotéis, nariz torcido à alimentação, 30 contos diários para despesas pessoais, um pedido de arroz de marisco no jantar com o embaixador português em Washington...

Quer isto dizer que os Jogos de hoje são disputados por escalões diversos, numa variedade de tratamento e de condições que trai o espírito inicial. Mas uma pergunta deve fazer-se: seria possível manter o amadorismo olímpico preconizado por Coubertin?

Em 1896, sim; hoje, cremos bem que não, embora se deva reconhecer que se mantém vivo o desejo festivo de participar nos Jogos e que, ao contrário do que sucede em certas competições futebolísitcas, regressar a casa sem medalhas não é considerado nenhuma tragédia...

Os Jogos continuam a ter um sortilégio difícil de igualar; as condições de preparação para a competição, essas já não são olímpicas, são meios para alcançar um fim - o do lucro que se traduz quase nada nos cerca de 10.000$00 que vale o ouro de cada medalha, mas se vê luzir nos contratos chorudos que os grandes vencedores celebram com as marcas de material desportivo.

Neste sentido, os recordes valem, de facto, ouro...

Os Jogos e a paz

O Pof. Freitas do Amaral, presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, lançou ao mundo em geral e aos políticos em particular, poucos dias antes do início dos Jogos de Atlanta, um repto verdadeiramente olímpico: parem as guerras, calem as armas, suspendam os conflitos durante os Jogos.

Querendo retomar a tradição helénica da trégua olímpica, Freitas do Amaral não foi ouvido. Na verdade, o Mundo continua em sérias dificuldades para conseguir viver em paz. Na Irlanda, agora em delírio pelas três medalhas de ouro conquistadas pela nadadora Michelle Smith, os confitos continuam a ser uma dolorosa realidade: se, a sul, a República da Irlanda consegue passar imune ao lado das bombas, a Irlanda do Norte vê as negociações de paz seriamente comprometidas pelos atentados terroristas: em Enniskillen, uma bomba (mais uma de uma já longa série) colocada junto a um hotel provocou 17 feridos. A Inglaterra reforçou as suas tropas, apesar de o IRA negar a autoria do atentado, atribuido a uma facção minoritária, o Sinn Fein Republicano. Tempos duros estes para os irlandeses que não vêem chegar a paz tantas vezes prometida e cada vez mais ansiada.

Na Rússia também os dias são de expectativa: Ieltsin, o presidente reeleito, tem uma saúde debilitada; os militares, apoiados em Lebed, candidato que obteve o terceiro melhor resultado nas últimas eleições, nomeado por Ieltsin para o poderoso Conselho de Segurança interno, ganham terreno; a guerra na Tchechénia eterniza-se. Como vai ser o futuro próximo? Valem as medalhas que os atletas russos têm conquistado em Atlanta: a meio dos Jogos, 12 de ouro, 7 de prata e 7 de bronze, ombreando com os atletas americanos.

Também nos EUA os dias são de expectativa, e não só pelos Jogos que deviam ser uma festa, uma jóia da capacidade organizativa dos americanos (mas que não têm sido tão bons como seria desejável), como ainda pelo "abanão" provocado em toda a América pela explosão do Boeing 747. Terrorismo ou acidente?

A verdade é que a América, já de si em crise pela violência diária citadina, treme perante a hipótese de ser exposta aos ataques de terroristas.

Além disso, a equipa olímpica de basquetebol, o decantado «dream team III» (equipa de sonho) não tem sido tão brilhante como os seus antecessores I e II: vai vencendo, mas os fãs americanos queriam mais, queriam ver os adversários «esmagados». De qualquer modo, a meio dos Jogos, 10 medalhas de ouro, 17 de prata e 3 de bronze são um conforto para qualquer concidadão do «Tio Sam».

Angola sonhava com uma boa exibição do seu «cinco» olímpico de basquetebol: mas a selecção angolana, notável a nível regional, não tem conseguido ombrear com formações mais fortes e não vai haver qualquer medalha para os seus jogadores. Espera-se, isso sim e é grande a expectativa, que a medalha de ouro angolana seja para a paz no território. Praticamente terminado o processo de acantonamento das tropas da Unita e do Governo, será em Setembro que o exército único se erguerá das cinzas da guerra. Da sua unidade e operacionalidade depende o futuro de um país que só precisa de tranquilidade e estabilidade para se afirmar.

Na gigantesca China, a luta pela democracia interna e as violações aos direitos humanos não impedem as vitórias olímpicas: 6 medalhas de ouro, 5 de prata e 7 de bronze são uma boa colheita, quando ainda faltam as provas de atletismo. Se o desporto chinês não sair vencedor, resta a esperança de que as transformações paulatinas introduzidas na sociedade do «Império do Meio» levem aquele povo a ser, no século XXI a maior democracia do mundo. Ali se ganhará ou perderá, em boa medida, o futuro da Humanidade.

Dos atletas da Bósnia nos Jogos de Atlanta não há grandes notícias, nem tal seria de esperar dado o seu recente passado de guerra. A melhor notícia (esperamos poder dá-la daqui a cerca de mês e meio) será a realização de eleições livres em todo o território, sob os auspícos das forças internacioanis, já marcadas para meados de Setembro. Eleições livres que sejam um verdadeiro alicerce para uma paz duradoura.

Também de atletas do Sri Lanka não rezam as agências noticiosas. O nome deste país vem apenas associado à luta entre as forças do Governo e as milícias do movimento Tamil. A guerrilha já se transformou em guerra civil, o número de mortos cresce de dia para dia, ninguém sabe quando a paz voltará a reinar na ilha a que os portugueses, no século XVI, chamaram Ceilão.

Gestos de paz olímpica

Para além dos feitos memoráveis dos atletas, dois gestos retratados nos jornais merecem registo.

O primeiro ficou a dever-se à nadadora americana Angel Martino que conquistou a medalha de bronze nos 100 metros livres. Mal lhe foi entregue o pequeno troféu, correu à bancada e depositou a medalha no colo de uma jovem em lágrimas. Tratava-se de um gesto de profunda amizade por uma outra jovem nadadora impedida de competir por lhe sido diagnosticado um cancro nos rins. Com a medalha uma mensagem: «aceita a medalha porque és bem mais heroína do que eu...»

O segundo: os dez jogadores da equipa de basquetebol dos EUA, o celebrado «dream team III», entregaram o prémio de cerca de 200 mil contos que pensam receber pela vitória no torneio olímpico para que sejam utilizados na reconstrução de 30 igrejas do sul dos EUA destruidas e incendiadas nos últimos meses por milícias da extrema-direita.

Isto é espírito olímpico.

Uma frase

Dos atletas portugueses nada aqui dissemos. No dia em que escrevemos, apenas há boas notícias da equipa de futebol (apurada para os quartos de final) e de alguns velejadores. Aguardamos a entrada em competição das e dos atletas de fundo e meio fundo de atletismo de pista e de estrada que costumam ganhar medalhas.

No entanto, não podemos deixar de registar uma frase séria de uma grande campeã.

Questionada sobre a influência das suas convicções íntimas na preparação da maratona, Manuela Machado declarou:

«Não sou mulher para, antes de uma prova, andar todo o dia com o pai-nosso ou a avé-maria na ponta da língua. Sou católica, antes de me deitar apenas peço a Deus que me ajude a ser eu própria. Acho que Deus não se mete nestas coisas das corridas, por isso, promessas também não faço.»

Uma frase de gente adulta e esclarecida, a merecer uma medalha. E um voto: que Deus a faça ser igual a si própria!
Bernardino Chamusca


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