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Em defesa dos trabalhadores

A Liga Operária Católica (LOC) promoveu, nos dias 12 e 13, um encontro de formação sobre Segurança Social e Saúde, com o mesmo programa-horário, mas em três locais distintos: as dioceses do Norte reuniram-se na Casa Diocesana do Vilar, Porto, as do Centro reuniram-se na Casa Diocesana de Albergaria-a-Velha e as do Sul na Casa das Franciscanas de N.ª S.ª das Victórias, em Sacavém.

Depois de dois trabalhos de grupo e feito o debate, os militantes da LOC concluiram que «os trabalhadores devem estar cada vez mais despertos para a medicina do trabalho» nomeadamente a medicina preventiva, a preservação do meio ambiente, os cuidados alimentares e o respeito pela integridade física e saúde de todos os cidadãos.

No campo da Segurança Social, lembraram que deve haver uma reformulação nos métodos de atribuição das reformas e outros subsídios, de forma que «possam ser estabelecidos parâmetros mínimos equivalentes ao salário mínimo nacional e que os máximos não atinjam números exagerados».

Os militantes da LOC pediram às forças económicas que motivem os trabalhadores, fomentando o debate e propondo alternativas sobre as reformas da Segurança Social.

Como trabalhadores cristãos, os participantes reafirmaram os valores da dignidade e da solidariedade, porque acreditam que a mensagem evangélica também passa pela melhoria e qualidade dos serviços da Segurança Social e da Saúde, ao serviço da pessoa humana. Será preciso não esquecer que o progresso nos serviços de saúde e segurança social «são fruto da evolução da democracia» e que os direitos económicos e sociais são «conquistas dos antepassado que devemos preservar e melhorar».
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RECORTE

Sarajevo, Sarajevo!

Acompanhei minuto a minuto a viagem de João Paulo II a Sarajevo. Confesso que a primeira impressão que colhi foi que tudo parecia fora de tempo. Em 1994 o Papa tentara aterrar na Bósnia-Herzegovina mas foi, por todas as razões, desaconselhado a tal aventura. Não estava apenas em causa a sua vida mas os risco de explosões desnecessárias, como se de alguma vez delas houvera necessidade.

Agora, com o mundo praticamente esquecido do barril de pólvora que continua a ser a ex-Jogoslávia, Wojtila, sempre ele, fisicamente fragilizado, quase alheio ao que parecia o centro das suas visitas - os aplausos das multidões e uma empatia irresistível - levanta a sua voz segura e firme no deserto da informação: pede à Igreja que enxugue as lágrimas do povo, olhe pelos órfãos e viúvas, inspire ânimo para que todos se reconstruam por dentro e por fora e, sobretudo, suplica aos jovens que não olhem para o mundo apenas pela mira duma espingarda. Fala a católicos, ortodoxos e muçulmanos, como filhos da mesma família de Deus, para que se encontrem e unam no que têm de comum tanto humano como divino. As suas palavras no estádio, atravessando rajadas de neve traziam algo de duplamente dramático: a recordação dolorosamente viva naquele povo, delegados de mortos e feridos que caíram num inglório campo de batalha. E o esquecimento a que começam a ser votados. A Bósnia esteve na história dramática do início do século e voltou ao palco do mundo com a tragédia deste final de milénio. Mas se foi esquecida a primeira desgraça, a segunda começa a ser superada por outros semelhantes, na Europa, na África ou no Médio Oriente. Por isso este pranto pelos feridos e mortos reavivando a memória domundo não veio fora de tempo. Há dois mil anos exclamação semelhante desceu sobre Jerusalém. Que - ironia de nome - foi arrasada por um homem chamado Tito.
António Rego,
in Ecelesia
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Angola - reconciliação nacional

O mapa de Angola, tendo ao centro um coração de cor vermelha e por baixo o lema «Amai-vos de Coração», é o símbolo do Domingo da Reconciliação promovido pelo Episcopado Angolano. Está afixado nas portas das igrejas e em muitos lugares públicos, como um convite a criar as condições para a paz verdadeira.

Vivi este dia na Capela, onde trabalham os padres Farias, Aníbal, Paulo Jorge e o estagiário Sebastião Gonçalo. É uma cidade que teve bastante presença portuguesa, por ser uma das regiões mais ricas em café. Ao cimo desta montanha, a guerra a sério só chegou uma vez. Mas rodeou-a constantemente. Há dois anos, já depois dos acordos de Lusana, ainda ouvi o canhão da Gabela que atirava para um raio de 30 a 50 quilómetros onde a UNITA estava fortemente presente. Nesta semana, pude tranquilamente visitar várias comunidades que durante anos dormiram dispersas pelo mato. Cada família fugia para seu lado, evitando todos os sinais de presença: fogueiras, luzes, carreiros de mato. Muitas vezes aí era celebrado o culto dominical, em grupos bem pequenos, visitados pelo catequista que levava a Comunhão. O padre, embora respeitado pelos dois lados em guerra, era visita rara. Houve muitos raptos e algumas mortes. Agora já se vêem sinais de vida a recomeçar. Aumenta a criação de galinhas, porcos e cabritos que tinham desaparecido porque os soldados os exigiam como 'imposto'. Os mandiocais estão grandes, apesar da seca. O milho nada produziu apesar das grandes plantações. Algumas famílias já começaram a visitar os antigos lugares onde moravam. Mas ainda há muita desconfiança. Será desta vez que a guerra acabou? Não voltará como em 92?

Um ponto de partida para a paz é a consciência de que Angola deve ser uma única nação, embora formada por povos diferentes. Apesar de Portugal não ter controlado todo o território actual de Angola por mais de 50 anos, entre 1920 e a década de 60, nenhum partido defende a divisão de Angola, com excepção de Cabinda, onde ainda continua a luta pela independência. A guerra deu-se entre partidos que disputam a hegemonia sobre todo o território. A dificuldade está na aceitação do pluralismo e das regras do jogo democrático. Além de ser necessário sobrepujar os fortes interesses (também estrangeiros) sobre os enormes recursos naturais, é preciso fazer crescer a cultura democrática que propicia a solução de conflitos por meios mais humanos do que os canhões.


A Igreja reconcilia

É aqui que as Igrejas e a consciência cristã podem ser decisivas. Uma liturgia, que envolve a pessoa toda, corpo e espírito, inconsciente e consciente, gesto e canto, emoção e contemplação, Palavra e Sinal, pode colaborar para criar um novo clima de entendimento e paz. Foi isso que eu vi, neste Domingo, no enorme ginásio da Gabela. Eram cerca de 6.000 pessoas, presididas por D. Benedito Roberto, Bispo do Sumbe: autoridades municipais, polícias, exército novo, formado por antigos soldados do governo e da UNITA, muito povo organizado por uma discreta mas eficiente equipa de liturgia.

O ambiente para o acolhimento da forte Palavra de Deus que ia ser ouvida foi criado por uma solene procissão de jovens que cantavam «Vem, Verbo de Deus». Depois das leituras, o Bispo declarou solenemente: «Se no coração de algum angolano viesse um dia a nascer a tentação de levar novamente o povo angolano à guerra... tende pena de tantas lágrimas, tanto luto, tanta orfandade, tanta fome, tanta miséria, tantos sofrimentos causados pelas armas desta guerra fratricida que queremos um dia nunca dela se ouça falar na nossa terra. Celebrar este dia da reconciliação, é convidar todos a aceitar este sentir comum da necessidade urgente duma Angola renovada e diferente a exigir homens renovados e diferentes».


Das armas ao diálogo

Homens novos devem ser todas as camadas sociais que constituem o tecido social, sobretudo os cristãos que devem imbuir a sociedade do Espírito do Evangelho. «Dedicar um dia à reconciliação nacional é ensinar aos políticos como ganhar os corações dos cidadãos para os seus ideais políticos e mostrar como a guerra é inútil e absurda», diz o Bispo acrescentando: «O que foi o nosso passado de guerra? Um genocídio cruel que imolou centenas de milhares de inocentes. Um inferno de destruições que retirou a nossa Pátria da vanguarda dos países africanos mais avançados para a retaguarda dos povos mais carenciados do continente». E termina dizendo que agora é preciso «aceitar resolver os problemas da nação pelas armas do diálogo e não pelo diálogo das armas», mobilizar todos os recursos naturais e humanos para reconstruir a vida do povo: «Prometamos contribuir para a reconciliação genuína da nossa terra, pondo ao serviço da Pátria todas as nossas capacidades. E tenhamos a certeza das bênçãos de Deus!»

Ao Pai Nosso milhares de mãos se uniram, juntando velhas senhoras e profissionais da guerra, a pedir que venha o Reino de Deus e o perdão. Logo a seguir, no abraço da paz, dezenas de mães saíram dos seus lugares e foram até às autoridades, polícias e soldados, a oferecer flores e cartazes deste dia: «Amai-vos de coração». Alguns choravam, e não só os soldados. Na acção de graças, um grupo de crianças saiu de cada lado do ginásio, cantando e dançando em fila, ao encontro uma da outra. Chegando ao centro, a dança continuou com os dois grupos dançando lado a lado. Assim será o futuro de Angola, dizem as crianças.

Chegou a vez de ir para a frente o coro da Igreja Tocoísta, que deixou de celebrar o seu culto para se juntar à celebração católica. «A palavra de Deus é que nos une», cantam. Outro hino improvisado repete sem cessar o «amai-vos de coração». Católicos pouco habituados a valorizar esta Igreja dos pobres aplaudiram a sua mensagem curta e clara, falada nas línguas locais.

No final, as crianças começaram de novo a dar-se as mãos e a rodear o ginásio, envolvendo autoridades e povo nesta grande roda que, pouco a pouco, foi crescendo e recebendo a todos porque, neste momento, ninguém queria ficar fora da roda da paz.

«O dia já acabou, mas nem demos conta. Quem dera que todos os dias fossem assim», dizia uma mamã com o filho às costas. Uma liturgia bem celebrada quebra o ritmo do tempo e envolve-o de eternidade. Apressa a paz? Pelo menos quebra desconfianças, anima a esperança. A notícia vai chegar longe, não só porque a rádio e a TV estavam presentes. Porque na África a melhor rádio é o de boca a boca que alimenta a conversa nas fogueiras das aldeias sem electricidade.
P. Jerónimo Nunes
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