MMTC no Porto

Trabalhadores cristãos sabem olhar em frente


Dignidade e Esperança foram as palavras-chave de conclusão das Conversações Internacionais e da Assembleia Geral da Confederação Mundial dos Tabalhadores Cristãos que decorreram na Casa Diocesana de Vilar, Porto, de 7 a 17, com a participação de representantes de 40 países de todo o mundo.

A aprovação de um plano de acção para os próximos quatro anos e a eleição dos novos responsáveis internacionais representam um verdadeiro acto de fé no futuro, em sentido bem diverso das análises mais realistas que preferem pintar sempre de negro o amanhã.

Os dois últimos dias da Assembleia Geral foram dedicados a aprovar resoluções sobre os problemas da emigração e do trabalho infantil, mas também da economia informal e do trabalho nas "zonas francas". Foram igualmente aprovadas resoluções sobre a formação no interior dos movimentos e sobre os assistentes. Para além disso, foi tomada a decisão de promover uma Semana de Solidariedade por altura do dia 1 de Maio.

A noite da última 5ª-feira serviu para celebrar os 60 anos da LOC e os 30 do MMTC, através de um convívio multicultural, bem revelador da diversidade das pessoas. No último dia foi a aprovação de um plano de acção para os próximos quatro anos com as grandes prioridades para todos os movimentos-membros.

Antes do encerramento dos trabalhos, realizaram-se as eleições para os novos responsáveis do MMTC, tendo a escolha para presidente mundial recaído sobre um cidadão de Mali (África) e como secretários-gerais um alemão (Europa) e uma brasileira (América), o que revela uma vontade de garantir, ao nível da coordenação internacional, a diversidade de culturas e de situações sociais.

Dignidade

A partilha dos diferentes movimentos espalhados pelo mundo deixou perceber como o respeito pela dignidade humana é das aspirações mais fundamentais das mulheres e dos homens de hoje. E essa dignidade encontra-se profundamente ameaçada, numa sociedade obsessionada pela busca do lucro e do consumo. Os testemunhos apresentados exprimiram como a ideologia neo-liberal é enganadora, pois, longe de reduzir as desigualdades, está a acentuá-las cada vez mais.

De olhos postos na mensagem da Bíblia, os participantes concluíram que, sendo o Homem uma criatura de Deus, todas as riquezas são, antes de tudo, bem comum. E denunciaram depois, de diversas formas, a fruição individualista e egoista dos bens, esquecendo totalmente o destino universal que, por vontade de Deus, deverão ter.

Uma outra nota digna de registo foi a da Esperança que anima estes representantes do mundo do trabalho. A confiança que põem uns nos outros fez acreditar também nas enormes potencialidades da solidariedade entre os trabalhadores de todo o mundo. E o facto de estar enraizada na Fé cristã, testemunhada ao longo das reflexões, plenários e momentos de oração, dá-lhe a mais firme garantia de "sucesso".

Pena foi que os momentos de celebração da Fé não tivessem acompanhado a riqueza das reflexões, tendo sido essa, certamente, a dimensão mais pobre deste acontecimento eclesial. Espartilhadas pelo ritualismo e condicionadas pela necessidade de aparelhos de tradução simultânea, faltou às celebrações o sentido festivo próprio do tempo pascal, a expressão simbólica e a orientação para o «mistério», apesar do impressionante testemunho dos delegados dos países asiáticos.

Quatro anos

Após duas semanas de intenso trabalho, os participantes regressaram aos seus países, confirmados na sua esperança e conscientes das dificuldades que os esperam. Na homilia da Eucaristia final, disse o Assistente mundial: «Tal como os profetas do Antigo Testamento e Jesus Cristo, estamos convidados a ler os sinais dos tempos, os sinais da possível mudança» devendo estar sempre «no coração deste combate pelo Homem» e manifestá-lo na coerência entre o que dizemos e o que fazemos.

No mesmo sentido foram as palavras do novo Presidente ao relembrar que as resoluções ali tomadas só terão valor se forem postas em prática. Ele convidou os participantes a seguirem o caminho da Galileia, esse «lugar do encontro de Jesus Ressuscitado com os seus discípulos», explicando que se situa agora «nas fábricas onde a dignidade dos trabalhadores é abafada, nas cidades onde vivem os desempregados, no contexto económico internacional adorador do dinheiro e em todos os locais onde a vida apela a semear sinais vivos de Esperança». E aquele militante africano deixou uma receita original para que isso seja possível: disponibilidade, realismo, paciência e sentido de eficácia, misturado com solidariedade e amor.

Mensagem do Papa

O Secretário de Estado do Vaticano, Angelo Sodano, enviou aos congressistas votos de encontro fecundo e de reflexão e oração em favor dos trabalhadores de todo o mundo. E apelou à solidariedade no sofrimento e na esperança e ao esforço de serem «testemunhas de Cristo» e «presença da Igreja» em toda a parte.

Referindo a histórica experiência dos movimentos cristãos de trabalhadores, apelou ainda à capacidade de «Criar novas solidariedades para viver dignamente» em tempos em que «os messianismos ideológicos» faliram dando lugar a individualismos que matam a solidariedade. E, face às grandes concentrações de poder económico e às mais requintadas formas de exploração, descriminação e desemprego, competirá aos cristãos proclamar, sem medo, «o destino universal dos bens».

A mensagem lembra ainda que é específico dos leigos «a gestão das coisas temporais», à luz do Evangelho, e apela aos membros desses Movimentos para que se coloquem «na linha da frente», construindo «uma cultura do trabalho, autenticamente humana» de modo que os ambientes de trabalho sejam «um lugar onde vive uma comunidade de pessoas» respeitadas na sua identidade e capazes de suscitar novas formas de empresa, comércio, finança e trocas teconógicas. E recomenda que saibam enfrentar em conjunto os desafios deste tempo, fazendo do domínio da natureza «uma experiência de crescimento e de realização pessoal e comunitária».

Uma tal tarefa não será fácil. Exige-se o apoio do Evangelho, «a Boa Nova da dignidade humana», para que os trabalhadores possam ser «testemunhas irradiantes» e viver o mistério de amor e de comunhão que é a Igreja, e fazer nascer novas formas de solidariedade, baseadas na caridade e na gratuidade.

A esta gente empenhada na família, na fábrica, escritório ou bairro e sempre ao lado dos mais desprotegidos, o Papa apelou a que se alimentem da palavra de Cristo e dos sacramentos. E a um movimento que quer ser «a Igreja entre os trabalhadores» desejou que seja devidamente apoiado pelos Pastores, concedendo-lhe assistentes competentes que ajudem a conhecer a doutrina social da Igreja. E a Bênção do Papa foi sinal de encorajamento para que, como movimentos que evangelizam pela acção, produzam em abundância «frutos de santidade e de justiça».

Uma boa casa

Um elemento que muito contribuiu para o êxito do encontro, cuja organização estava a cargo da LOC, foi a qualidade dos serviços e do acolhimento prestado pela Casa Diocesana de Vilar e seus funcionários, o que mereceu a admiração e os maiores encómios por parte de toda a gente.

Outro aspecto muito apreciado foi o acolhimento dos participantes em famílias operárias durante o fim-de-semana de 11 a 12 de Maio. Além de experiência de verdadeira amizade e hospitalidade que muitos disseram não ter paralelo no mundo, serviu para ficarem a conhecer melhor o nosso país e as famílias cristãs do meio operário.


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