| Forum: | |
É a primeira vez que chefes de Estado e de Governo de todo o mundo se reúnem para examinar o problema da «segurança» alimentar: como garantir a todos os habitantes do planeta o acesso aos alimentos de que todos necessitam para viver uma vida saudável e activa.
A questão é da máxima actualidade. Apesar de todos os esforços desenvolvidos nos últimos cinquenta anos, há hoje no mundo 800 milhões de pessoas que sofrem de desnutrição crónica, e 200 milhões de crianças com menos de cinco anos que sofrem deficiências crónicas de calorias e proteínas. Se não se adoptarem medidas energéticas neste campo, calcula-se que no ano 2010 as pessoas cronicamente desnutridas serão ainda 700 milhões, 260 milhões dos quais na África ao sul do Saará.
Não é nenhuma novidade, mas corremos o risco de o esquecer: são muitos os que passam fome no mundo. E as coisas estão mesmo a piorar. Ao mesmo tempo que se expande, em algumas zonas do globo e no interior de bom número de países, uma opulência vistosa, cresce paralelamente, ali ao lado, a pobreza de uma maioria. Segundo um relatório das Nações Unidas, as economias de uma centena de países têm vindo a registar declínio ou estagnação, provocando uma redução nos rendimentos de um quarto da população mundial. Em 70 países, as pessoas são hoje em média, mais pobres do que eram em 1980, e em 3 destes países, estão mesmo mais empobrecidos do que em 1970.
Comentando estes dados, e acrescentando outros sobre
a aculumação de riqueza da parte de umas poucas
centenas de milionários do mundo, um quotidiano britânico,
«The Gardian», observava, recentemente: «Nos
dias que correm, quase parece indelicado e certamente fora de
moda - se não esquerdista - alguém atrever-se a
perguntar se uma tão imoral assimetria na distribuição
da riqueza não será 'injusta'».
Como outros documentos sobre problemas que envolvem opções socioeconómicas e políticas de fundo, a nível planetário (como foi o caso do texto sobre a Dívida Externa de tantos países, publicado pela Comissão Pontifícia «Justiça e Paz» faz agora 10 anos), esta intervenção pública da Igreja, ao mais alto nível, não ignora a complexidade das questões, mas tem a coragem de recordar (denunciar) algumas verdades elementares que vêm normalmente silenciadas ou mistificadas (por exemplo no que diz respeito aos preços das matérias primas, à reforma agrária, ao embargo económico internacional imposto a alguns países).
Em contraste com a prática comum de vénias e subserviências perante todos os potentes deste mundo, a força deste Documento está no modo directo, concreto, com que apresenta algumas verdades inegáveis referindo ao mesmo tempo o Evangelho em toda a sua frontalidade. A publicação de um texto deste tipo é já em si algo de profético. Mas algumas páginas são-no de modo muito particular: sobretudo quando recordam repetidamente a dimensão ética de tudo o que diz respeito ao homem e ao mundo e quando afirmam que, para construir a justiça e a paz, há que deixar de considerar o «pobre» como um peso inútil a esquecer e marginalizar.
Enquanto os pobres não estiverem no centro (das macrodecisões políticas, económicas e sociais, mas também das preocupações e atitudes pessoas de cada um de nós), tudo estará por fazer. Percebê-lo, admiti-lo concretamente, com todas as consequências, é começar a assumir a nossa condição e responsabilidade de seres humanos. E é também o caminho obrigatório para uma verdadeira solução dos problemas com que se defronta a humanidade na busca de um verdadeiro desenvolvimento.
| Pacheco Gonçalves |
| Início |
As recentes declarações da Comissão
episcopal para as migrações contra «as palavras
que matam» proferidas pela extremista Jean-Marie Le Pen
e as lições das ocupações de igrejas
por imigrantes sem-papéis, continuam a trazer para a cena
pública interrogações importantes sobre o
«estar da Igreja no mundo».
Que a Igreja se comprometa... mas não muito
Uma sondagem nacional efectuada em 11 e 12 de Outubro para a emissão religiosa «Le Jour du Seigneur» do segundo canal da televisão, revela elementos muito interessantes para o trabalho pedagógico e pastoral que a Igreja que está em França tem que realizar se quer ser fiel à missão recebida do Senhor... e se que continuar a ser «Igreja católica».
69% dos católicos praticantes interrogados consideram que o acolhimento do estrangeiro se situa no íntimo da mensagem do cristianismo. Em contrapartida 13% dos praticantes consideram que as posições da Frente Nacional (partido de Le Pen) são compatíveis com a fé cristã. Quanto à intervenção da Igreja, dos bispos em particular nas questões da imigração, 66% dos praticantes consideram que a Comissão episcopal fez bem em ter denunciado as palavras racistas de Le Pen. Mas 21% julgam que os bispos foram demasiado longe e que não deveriam ter dito o que disseram porque «a Igreja saiu do seu papel tomando posição num debate público».
Quanto ao apoio dado pela Igreja aos estrangeiros,
20% dos católicos praticantes interrogados consideram que
a Igreja deve participar em acções concretas de
defesa dos estrangeiros; 44% julgam que ela apenas se deve limitar
a lembrar os princípios essenciais de hospitalidade e 13%
afirmam-se totalmente hostis a toda e qualquer intervenção
da Igreja em tal matéria.
Fechar as fronteiras...
a solução fácil para as crises sociais
Estes poucos dados extraídos da sondagem revelam que a Igreja pode sentir-se reconfortada pelo facto de os católicos praticantes serem um pouco mais abertos aos estrangeiros que o conjunto da população. Contudo, uma vez mais, a opinião, mesmo no seio da Igreja, aparece desconfiada face a possíveis intervenções da Igreja no campo dos direitos do homem emigrante: apenas 20% aprovam um compromisso concreto seu na defesa dos estrangeiros.
Desde há mais de 20 anos, a opinião
pública tem sido trabalhada e condicionada pelas correntes
extremistas. A corrida desenfreada ao voto nos meios mais
populares, arrasta certos homens públicos para todas as
concessões demagógicas e para discursos próximos
da Frente Nacional. As dificuldades concretas da vida: desemprego,
juventude sem grandes perspectivas de futuro, delinquência
crescente, perda evidente de pontos de referência sociais,
históricos e culturais, levam a que o debate sobre as soluções
para a crise grave que atravessa esta país se resuma aos
estafados «fechar as fronteiras e expulsar os imigrantes».
O testemunho da catolicidade da Igreja
Neste contexto de sofrimento, de medo e de consequentes gestos de exclusão, a Igreja é chamada a assumir com coragem uma missão de mediação e de testemunho. Como gostava de repetir D. Pierre Claverie, bispo de Orão, na Argélia, assassinado em Agosto, «é nos espaços de fractura da nossa humanidade que a Igreja dá testemunho da nova humanidade reunida em Cristo».
Na sociedade francesa tão profundamente marcada pela imigração e pela «vida comum» entre tantos povos de múltiplas e diversas origens culturais - neste espaço de fractura que pode engolir tanto franceses como imigrantes - o testemunho pedido à Igreja é o de romper fronteiras e barreiras para que o Deus de Jesus Cristo não seja absorvido por nacionalismos caseiros.
A Assembleia dos bispos em Lourdes confrontou-se com a exigência da autêntica catolicidade da Igreja. Em próxima oportunidade, e a propósito dos traços do Evangelho deixados no rosto da Igreja pelos sem-papéis que de ocupação em marcha de solidariedade pedem vida e pão, voltarei.
| J. Coutinho da Silva |
| Início |
| Primeira Página | Página Seguinte |