Especial:

Tesouro da Sé do Porto já pode ser admirado

O culto pelo olhar da História

A igreja catedral é sinal do magistério do Bispo e da unidade dos crentes de uma diocese. Ela representa a Igreja de Cristo que reza e canta, adora e se exprime pela caridade. Deve ser o centro da vida litúrgica da diocese e porta aberta num convite sem reservas: «Vinde todos... e Eu vos aliviarei». A Sé é o monumento do Porto mais visitado. Ali pode encontrar-se uma primeira palavra sobre o que é a Igreja, a sua roupagem histórica, neste caso, o seu tesouro.

«VP» ouviu o delegado do Cabido para o Património da Sé, cónego Dr. Raimundo de Castro Meireles, que tem sido incansável para dar à Sé o seu verdadeiro rosto.

V.P. - Abrir ou facultar ao grande público o TESOURO da Sé do Porto não será uma espécie de nostalgia triunfalista?

R.C.M. - No meu entender, não significa nem nostalgia, nem triunfalismo. Em absoluto. Parece-me certa uma observação, se não erro, do cardeal Ratzinger: os Santos e a perfeição das obras de Arte que o Culto suscita, ao longo dos séculos, são a melhor apologia ou defesa do Cristianismo. São o que mais convence. Ninguém fica indiferente. É um facto. Por outro lado, trata-se de um espólio que reflecte um pouco a memória da Sé do Porto confundindo-se, de certo modo, com a própria memória da Cidade. Só os bárbaros não têm memória. Barbaridades que sucedem de tempos a tempos...

V.P. - Como surgiu a iniciativa de organizar o TESOURO?

R.C.M. - Tenho falado de TESOURO e não se MUSEU. É uma opção que julgo correcta. Tratando-se de uma igreja catedral, habitualmente fala-se de TESOURO, mesmo quando o acervo é muito variado, como é o caso da Sé do Porto, Mas, respondendo à pergunta, direi que a ideia surgiu há uns dez anos. Como é sabido, a Sé do Porto, monumento nacional desde Agosto de 1910, foi objecto de uma grande campanha de reintegração ou restauro, nos anos trinta. O casco medieval do edifício tinha sido duramente atingido ou desfigurado, no período barroco. Era uma operação que já D. António Barroso pensara fazer. Em 1940 - o ano dos Centenários - a obra foi dada como terminada, pela Direcção Geral dos Monumentos Nacionais.

Foi-se longe de mais contra as excrescências barrocas? Há quem pense que sim. Mas é evidente que o vasto edifício recuperou a sua antiga dignidade. Ora aconteceu que, nessa altura e nos anos anteriores, pouco se faz quanto à devida salvaguarda e valorização dos bens patrimoniais móveis, que eram propriedade eclesiástica. Com algumas décadas de atraso, a Sé do Porto tem pois, finalmente, o seu TESOURO museologicamente organizado e visitável. O da Sé de Braga foi criado em 1930. Os de Évora e de Lisboa são de data recente. No Porto, os trabalhos foram dados por concluídos em Março deste ano.

V.P. - Disse que a iniciativa começou há dez anos. Porque durou tanto tempo a concluir?

R.C.M. - Estas coisas não se improvisam. Houve dificuldades de vária ordem. Em primeiro lugar, foi preciso fazer a concertação longa e por vezes difícil, com o Instituto Português do Património Arquitectónico, que tutela a Sé do Porto. Havia depois a questão do financiamento. O Estado veio a assumir metade dos custos. O resto foi pago pelo Cabido, com vários apoios mecenáticos: Câmara Municipal do Porto, Caixa Geral dos Depósitos, Banco Comercial Português, Governo Civil do Porto. Mas será de sublinhar o trabalho, necessariamente lento, que foi a recolha, a recuperação ou restauro de todo o acervo existente. São centenas de peças que andavam um pouco aos tombos, dispersas e inseguras, nas arrecadações. Costumo dizer «o resto que ficou», depois das convulsões político-sociais dos séc. XIX e XX.

V.P. - Houve dificuldades quanto aos restauros?

R.C.M. - Foi um trabalho lento e dispendioso, mas feito com bastante competência. A limpeza das esculturas e do mobiliário esteve a cargo de Alcino Casanova. As pratas litúrgicas foram tratadas por Manuel Alcino. Um atelier especializado, de Aveiro, ocupou-se da paramentaria. Os livros litúrgicos foram restaurados por A. Silva, da Imprensa Portuguesa. As gravuras foram tratadas na Biblioteca Nacional de Lisboa.

V.P. - Quanto ao espaço houve dificuldades?

R.C.M. - O TESOURO ficou instalado na chamada Casa do Cabido, anexa ao claustro gótico. É um edifício de traça barroca, arcaizante, do primeiro terço do séc. XVIII. Os seus três pisos constituem um bom espaço, suficiente, de qualidade. O Prof. Arquitecto Fernando Távora é o autor do projecto museológico e tirou o melhor partido aos espaços disponíveis. À sua excepcional competência fica a dever a Sé do Porto. Como bom portuense, pensou que esta pequena obra muito contribuiria para dignificar o primeiro monumento da cidade.

V.P. - Pode especificar um pouco o que se encontra visitável?

R.C.M. - No piso térreo, agora com acesso pelo claustro gótico, fica a zona arqueológica. São peças dos períodos romano, pré-românico, românico e gótico. Tudo com referência directa à Sé do Porto. Destaque para os dois magníficos sarcófagos do séc. XIV. Integrada nesta zona está a capela gótica de S. João Evangelista, até agora praticamente só conhecida dos eruditos. Para os visitantes, tem sido uma novidade esta pequena zona arqueológica.

V.P. - O circuito de visitas inclui os dois claustros e a capela de S. Vicente?

R.C.M. - Sem dúvida, bem como a escadaria nobre que dá acesso ao piso superior da Casa do Cabido. Na antiga sala do cartório e na sala capitular - com o famoso tecto das pinturas de Pachini - está a colecção de escultura sacra, proveniente de antigos altares da Sé, desmantelados. Destaco o Sant'Iago, do séc. XV-XVI, a Nossa Senhora do Presépio, do séc. XVII. É uma pequena galeria de escultura sacra, de excelente qualidade.

V.P. - E o Tesouro propriamente dito?

R.C.M. - Descendo uma escadaria de serviço, entra-se no mezzanino ou piso intermédio. É aqui que se encontra instalado o que realmente se deve considerar o TESOURO propriamente dito. São quatro salas, abobadadas, formando uma casa-forte, num sistema de câmara escura. São nove grandes montras de 6m2 cada uma. Ali se expõem cerca de cento e cinquenta alfaias do Culto - paramentos, pratas, livros litúrgicos, dos séc. XV a XIX É uma exposição permanente e selectiva. Obviamente, nem tudo se pode e deve expor. Algumas peças raras são bastante conhecidas: estiveram em exposições, no país e no estrangeiro. Mas para o grande público será novidade ver, por exemplo, a custódia manuelina do célebre bispo D. Diogo de Sousa, dos princípios do séc. XVI, o cofre da autoria de Nasoni-Coelho Sampaio, do séc. XVIII, etc. etc. Lembro que os serviços técnicos do Museu Nacional de Soares dos Reis também contribuiram para a excelente acomodação do acervo. O sistema de câmara escura, opção do Arquitecto Távora, revelou-se de grande efeito e originalidade. No género, deve ser caso único no país.

V.P. - Quais as reacções do público?

R.C.M. - Extremamente positivas. Anualmente, passam pela Sé do Porto umas sessenta mil pessoas. Para os visitantes particularmente interessados, haverá um guião explicativo. Para além do seu valor cultural, muitas peças revestem-se de especial carga simbólica, religiosa. Como já disse, exprimem um pouco a memória da Sé do Porto que, em certa medida, se confunde com a memória da própria cidade. O Porto nasceu e crescer à volta da Sé. Ela é, ainda hoje, o coração do centro histórico, em vias de recuperação e com a pretensão a ser classificado como património mundial...
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XXX Dia Mundial das Comunicações Sociais

«Os mass-media: areópago moderno para a promoção da mulher na sociedade»


Queridos Irmãos e Irmãs:

O tema para o Dia Mundial das Comunicações Sociais deste ano - «Os mass-media areópago moderno para a promoção da mulher na sociedade» - reconhece que os meios de comunicação desempenham um papel fundamental não só na promoção da justiça e da igualdade das mulheres, mas também no desenvolvimento do apreço pelos seus dons específicos, que já tive ocasião de designar como «o génio» das mulheres (cf. Mulieris Dignitatem, 30: Carta às Mulheres, 10).

No ano passado, na minha Carta às Mulheres, procurei encetar um diálogo, principalmente com as mulheres, sobre o que significa ser mulher nos dias de hoje (cf. n. 1). Indiquei também alguns dos obstáculos que, em tantas partes do mundo, dificultam ainda às mulheres a sua completa inserção na vida social, política e económica (n. 4). Trata-se de um diálogo que os responsáveis pelos meios de comunicação podem - devem, sem dúvida - promover e apoiar. Os comunicadores tornam-se, frequentemente, defensores dos que não têm voz e dos marginalizados, o que é digno de louvor. Eles encontram-se numa posição privilegiada parra estimular também a consciência social no que se refere a duas questões relativas à mulher no mundo actual.

Em primeiro lugar - como observei na minha referida Carta - o dom da maternidade é com frequência mais penalizado do que gratificado, não obstante a humanidade dever a sua sobrevivência àquelas mulheres que escolheram ser esposas e mães (cf. n. 4). É, inegavelmente, uma injustiça descriminar, do ponto de vista económico ou social, tais mulheres, precisamente por elas seguirem a sua vocação fundamental. Do mesmo modo, chamei a atenção para o facto de que há uma urgente necessidade de promover uma verdadeira igualdade em todas as áreas: idêntica retribuição salarial por categoria de trabalho, tutela da mãe-trabalhadora, justa promoção na carreira, igualdade entre os cônjuges no direito de família e o reconhecimento de tudo o que é ligado aos direitos e aos deveres do cidadão num regime democrático.

Em segundo lugar, o progresso da verdadeira emancipação da mulher é uma questão de justiça, que não pode continuar a ser ignorada; é também uma questão de bem-estar social. Felizmente, há uma consciência cada vez maior de que as mulheres devem poder desempenhar o seu papel na solução de graves problemas da sociedade, e do seu futuro. Em todos estes campos, «revelar-se-á preciosa uma maior presença social da mulher, porque contribuirá para manifestar as contradições de uma sociedade organizada sobre critérios de eficiência e produtividade, e obrigará a reformular os sistemas a bem dos processos de humanização que caracterizam a «civilização do amor» (Ibid., n. 4)

A civilização do amor consiste muito especialmente numa radical afirmação do valor da vida e do valor do amor. As mulheres são particularmente qualificadas e privilegiadas nestes dois campos. Relativamente à vida, embora as mulheres não sejam as únicas responsáveis pela afirmação do seu valor intrínseco, elas encontram-se numa posição única para isso, devido à sua relação íntima com o mistério da transmissão da vida, incluindo os mais altos níveis de tomada de decisão, aquela qualidade essencial da feminilidade que consiste em julgar com objectividade e, ao mesmo tempo, compreender profundamente as exigências das relações pessoais.

Os mass-media - incluindo a imprensa, o cinema, a rádio e a televisão, bem como a indústria do sector musical e as redes de computadores - representam um moderno areópago onde a informação é rapidamente recebida e transmitida a um auditório global, e onde são trocadas ideias, formadas atitudes - e, na realidade, onde se está a formar uma nova a cultura. Os meios de comunicação estão, destinados por isso, a exercer uma poderosa influência para determinar se a sociedade reconhece e valoriza plenamente, não só os direitos mas também os dons especiais da mulher.

Infelizmente, é forçoso reconhecer que muitas vezes a mulher, em vez de ser enaltecida, é explorada pelos mass-media. Quantas vezes ela é tratada não como pessoa com a sua dignidade inviolável, mas como objecto cuja finalidade é satisfazer os apetites alheios de prazer e de poder! Quantas vezes o papel da mulher no mundo dos negócios ou na vida profissional é apresentado como uma caricatura masculina, uma negação dos dons específicos da perspectiva feminina, compaixão e compreensão, que contribui tão notavelmente para a «civilização do amor»!

As mulheres podem fazer muito nos mass-media para promover uma melhor abordagem dos seus interesses e assuntos que lhes dizem respeito: promovendo saudáveis programas educativos, ensinando os outros, especialmente as famílias, a serem consumidores capazes de realizar um discernimento no mercado dos mass-media, fazendo conhecer os seus pontos de vista às companhias de produção, aos jornalistas, às redes de transmissão e anunciantes, relativamente aos programas e publicações que ofendam a dignidade da mulher ou diminuam o seu papel na sociedade. Além disso, as mulheres podem e devem preparar-se para assumirem posições de responsabilidade e criatividade dos mass-media, não me concorrência com os papéis masculinos ou imitando-os, mas imprimindo-lhes, no próprio trabalho e na actividade profissional, o seu «génio» específico.

Seria bom que os mass-media pusessem em revelo as verdadeiras heroínas da sociedade, incluindo as mulheres santas da tradição cristã, como modelos para as gerações jovens e futuras. Nem podemos esquecer, sob este ponto de vista, tantas mulheres consagradas que renunciaram a tudo para seguirem Jesus e dedicar-se à oração e ao serviço dos pobres, dos doentes, dos analfabetos, dos jovens, dos idosos e dos deficientes. Algumas destas mulheres estão também directamente envolvidas nos meios de comunicação social - fazendo com que «o Evangelho seja pregado aos pobres» (Cf. Lc. 4, 18).

«A minha alma engrandece o Senhor» (Lc 1, 46). A Virgem Maria empregou estas palavras para responder à saudação da sua prima Santa Isabel, reconhecendo assim as «grandes coisas» que o Senhor n'Ela operou. A imagem da mulher, transmitida através dos mass-media, deveria incluir o reconhecimento de que todo o dom feminino autêntico proclama a grandeza do Senhor, do Senhor que comunicou a vida e o amor, a bondade e a graça, do Senhor que é fonte da dignidade e igualdade da mulher, e do seu «génio» peculiar.

Faço votos para que este 30º Dia Mundial das Comunicações Sociais encoraje todas as pessoas envolvidas nos meios de comunicação, especialmente os filhos e filhas da Igreja, a promover o verdadeiro progresso dos direitos e da dignidade da mulher, projectando uma imagem que tenha em conta o seu lugar na sociedade, e «pondo em evidência a verdade plena sobre a mesma» (Carta às mulheres, n. 12)

Cidade do Vaticano, 24 de Janeiro de 1996
Papa João Paulo II

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