Erro no modelo

1. Qualquer erro é humano.

Qualquer erro é lamentável.

Qualquer erro é compreensível, e a capacidade de desculpar os erros é grande, sobretudo quando se trata dos nossos. Quando se trata dos de outrem, diminui perigosamente a capacidade de desculpa. Passa-se então a falar moralisticamente de necessidade responsabilização.

Há situações, porém, em que os erros humanos são pouco desculpáveis: quando provocam a queda de um avião, o descarrilamento de um comboio, o desastre de um automóvel um uma explosão nuclear. Nessas alturas não há desculpa que valha.

As provas de exame no ensino oficial têm vindo e enfermar ultimamente de erros numerosos: quase não há ano em que em tais provas não se detectem falhas, umas mais graves, outras menos, mas que todas acabam sempre por provocar transtorno na obtenção da finalidade de tais provas: a verificação da preparação dos estudantes nas diversas matérias curriculares.

Penso que qualquer erro numa prova destas poderá não ser desastroso, mas é sempre grave e mesmo indesculpável. Mesmo que seja nosso.

As provas são elaboradas pelo menos por dois professores. Depois são validadas por um terceiro. São, ou deverão ser, posteriormente revistas por um coordenador competente em cada uma das matérias. Se depois de tudo isto saem com erros, eles poderão ser de dois tipos: ou de escrita (gralhas de imprensa ou de computador), ou de tema.

Nem uns nem outros são admissíveis. Os primeiros, porque se há texto em que a revisão deve ser cuidada deverá ser uma prova de exame nacional. As segundas, por maioria de razão, porque os lapsos traduzem ou descuido ou deficiência de informação. Uma e outra constituem matéria de grave responsabilidade.

2. A prova modelo da disciplina da Português B (convém não esquecer que o correcto uso da língua portuguesa constitui uma prioridade, segundo a Lei de Bases do Sistema Educativo, embora essa prioridade seja esquecida posteriormente nas normativas que a implantam na prática) para os alunos dos cursos de prosseguimento de estudos do ensino secundário (que vai ter de ser feita pela grande maioria dos alunos que completam o 12º ano e se candidatam aos cursos universitários), embora grosso modo integrada na matriz entretando divulgada (sobre cuja adequação aos programas muito haveria que discutir ou mesmo que reprovar) trazia dois lapsos graves denotadores de falta de atenção por parte dos respectivos autores e dos serviços responsáveis do Ministério.

No ponto II da referida prova formula-se a seguinte questão:

"Construa uma frase complexa que integre o conteúdo das duas frases simples que se seguem, estabelecendo entre elas uma relação de fim.

Ela anda pela praia.

Ela chama a atenção dos que a observam."

O primeiro lapso encontra-se na suposição de que as duas frases apresentadas são frases simples: ora a segunda frase é já uma frase complexa, visto conter uma oração subordinada. Os alunos são, assim, induzidos em erro. Este escolho poderia ter sido facilmente evitado se a formulação suprimisse a palavra simples na frase frases simples, ficando apenas das duas frases que se seguem.

O segundo lapso consiste na suposição da possibilidadede dar uma resposta adequada à questão formulada. As respostas possíveis ou são de duvidosa gramaticalidade, como "Ela anda pela praia para que (ou a fim de que) chame a atenção dos que a observam"; ou não introduzem a pedida frase complexa, visto que apenas introduzirão, na mesma frase, um complemento circunstancial de fim: "Ela anda na praia para chamar a atenção dos que a observam.

Esta opção é aquela que é apresentada nas sugestões de correcção, que acrescentam: "De aceitar outras respostas desde que correspondam ao que é solicitado".

Que outras respostas?

Só me ocorrem duas: aquela que atrás apresento (para que chame, ou a fim de que chame), ou outra, de contornos mais arcaizantes ou classicizantes, que poderia formular-se assim: "Ela anda pela praia por que chame a atenção dos que a observam".

A primeira destas formas é pouco usada na linguagem corrente, embora não seja de todo incorrecta, apesar de alguns afirmarem, por semelhança com o francês, que quando o sujeito da oração principal e da oração final são o mesmo, não se deve utilizar esta formulação: será nessa caso preferível utilizar a preposição para seguida de infinitivo (o que não introduz nova oração): "... para chamar a atenção".

A segunda destas formas tem um modelo (raro) por exemplo em Camões, quando escreve, a respeito da tromba marítima: "Pelo céu, chovendo, enfim, voou / por que co a água a jacente água molhe" (Lusíadas, Canto V, Est. 22)

Sabe-se que o por que na linguagem camoniana, traduz geralmente para que, e o sujeito da segunda oração (final) é o mesmo da principal (no contexto, "a grande coluna").

As eventuais respostas dos alunos ao solicitado na prova modelo deveriam, portanto, ser todas aceites, desde que traduzissem a ideia expressa e estejam gramaticalmente correctas. Mas muitos, sobretudo os que dominem melhor e língua, ficarão por certo despistados perante a formulação da questão.

Felizmente que ela surgiu nesta prova modelo, e por isso até poderá servir para uma explicitação oportuna deste assunto. Mas numa prova de exame seria verdadeiramente um escolho. Lamentável. Desculpável?

C.F.


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