Especial:


CAPA& CONTRACAPA

Dialogar com a morte

O problema da morte, num mundo que aprecia sobremaneira - e com razão - a vida, é cada vez menos um tabu. Sabendo todos que, para utilizar uma expressão cansada de tanto uso, "a morte é certa", podemos perguntar com François Mitterrand "como morrer?"

O mais fácil, numa primeira e fútil tentativa de evitar a resposta, é ignorar a realidade e virar-lhe as costas. Mas pressentimos que, à semelhança de algumas civilizações passadas, talvez a melhor solução seja encarar a morte de frente.

Nesta perspectiva, como nas páginas da "Voz Portucalense" escreveu Gonçalves Moreira, têm sido publicados alguns trabalhos nos quais psicólogos e médicos falam da sua experiência junto de doentes terminais e de pessoas que viveram longos períodos de "morte aparente".

Rfeerimo-nos, hoje, ao livro de Marie de Hennezel, Diálogo com a Morte, em que a autora, psicóloga de profissão, defende que "a sociedade ocidental precisa de rever as suas atitudes perante a morte, abandonando o medo e aceitando-a como uma fase do processo da vida".

A partir de experiências que viveu à cabeceira de doentes terminais, Marie de Hennezel dá-nos "uma lição de vida", um livro de que "emana uma luz" que é "mais intensa que muitos tratados de sabedoria", ainda nas palavras de F. Mitterrand.

Afinal, de acordo com o antigo Presidente da República francesa, uma pessoa que viveu longos meses de "diálogo com a morte", o "mais belo ensinamento deste livro" é este: "a morte pode fazer que uma pessoa se torne naquilo para que foi chamada a ser; ela é, talvez, no pleno sentido da palavra, uma realização".

(Marie de Hennezel, Diálogo com a morte. Trad. José Carlos Gonzalez. Editorial Notícias, Lisboa, 1997. À venda na Livraria Telos Editora, R. Stª Catarina, 521, Porto)


Dizer Deus com modéstia

Qualquer livro com a assinatura de González-Carvajal é credor de uma demorada atenção e de cuidada leitura. Pena que nem sempre as suas obras nos sejam oferecidas em português, embora se admita que o castelhano não é entrave a uma leitura que se faz com verdadeiro prazer espiritual.

Desta vez, este sacerdote madrileno conduz-nos a uma tema de flagrante interesse - quando dizemos "Deus", o que dizemos de facto? Longe do mandamento que orienta cada crente na santificação do nome de Deus, esta palavra tem sido mutilada e utilizada nos mais diversíssimos sentidos por homens que por ela mataram e se deixaram matar...

Importa, diz González-Carvajal, limpar a palavra Deus, devolver-lhe a sua integridade original. Será possível? O que podemos fazer, defende o Autor, é, sabendo-a uma palavra "profanada e mutilada", levantá-la do pó, retirar-lhe um pouco do lixo que os séculos sobre ela depositaram.

Para isso, os crentes devem adoptar uma nova práxis, fazendo associar a palavra Deus a experiências positivas e libertadoras.

O padre Carvajal é, como se sabe, talvez o mais lido autor de temas religiosos de língua castelhana. Isto porque consegue, como refere ser seu propósito, "explicar a teologia da forma mais simples possível, sem perder por isso profundidade, àqueles que com ela não estão familiarizados". Um propósito totalmente conseguido, neste caso, falando, "com modéstia", de Deus que "também é mãe."

(Luis Gonzalez-Carvajal Santabárbara, Noticias de Dios! Ed. Sal Terrae, Santander, 1997. À venda na Livraria Telos Editora, R. Santa Catarina, 521, Porto)
B. Chamusca
Início


Uma brisa do Alentejo

Tinha a inspiração e o génio de Florbela Espanca, mas os seus versos eram poemas soltos de resgate. Onde em Florbela havia uma onda de desespero e um apelo suicida, em Fernanda Seno ouviam-se os passos de uma caminhada, uma busca consciente de infinito, uma fome de Deus e de eternidade.

Para mim, que a não conheci e não tinha lido nenhum dos seus livros, foi um deslumbramento esbarrar os olhos no breve poema (em destaque) em que ela agradeceu a homenagem que lhe prestaram, quando da apresentação do seu «Cântico Vertical». Às vezes, é assim. Reduzidos pelas luzes da grande metrópole, ofuscados pelos fogos-fátuos da sua superficialudade, nem nos damos conta de que ardem estrelas noutros firmamentos e de que o seu valor e o seu brilho dispensam que as trombetas da publicidade e do compadrio as anunciem.

Enquanto isto, em Évora, ao festejarem-lhe a beleza do seu trajecto literário, Fernanda Seno despojava-se, como Francisco de Assis, de todo o mérito, sublinhava que tinha sido uma dádiva, de que era apenas depositária, o talento que ali lhe enalteciam, e dizia, diante de uma assembleia certamente surpreendida, e com uma sinceridade que outros versos autenticavam, que «tudo o que é Belo, Alto e Transcendente está para além de nós. / Somos o chão onde se pousam estrelas. / E o brilho não é nosso. O brilho é delas. / Somos o espelho de reflectir os céus, / mas por detrás do espelho é que está Deus. / As glórias e os louvores não são para nós, / mas para quem deu acordes de infinito / à nossa breve voz.»

Fernanda Seno tocava, nos seus poemas, a essência das coisas e, por isso, as relativizava. A poesia era o instrumento com que ela procurava o absoluto que não descortinava à sua volta e, daí, que as palavras, que eram a sua matéria-prima, apenas as visse como barro moldável e transitório: «Já nenhuma palavra me seduz. / Deve haver outra esfera a dizer, / onde a pedra de toque seja luz, / projectada de nós, do nosso ser. / Onde possamos ser só transcendência, / sem este verniz falso a impedir / a manifestação da nossa essência. / Já nenhuma palavra me seduz / pois que toda a palavra me reduz.»

Não conheci Fernanda Seno. Mas devo dizer que fiquei triste, quando li a notícia da sua morte. O que escrevo aqui nasce da leitura das suas obras, da admiração que elas fizeram nascer em mim por alguém que surgiu do próprio seio da poesia. Os seus versos deixam-nos a impressão de que ela viveu para além do tempo, o que lhe permitia dizer: «Já me dói a memória antecipada / do futuro deserto. / E passo pelo tempo, alucinada, / sem ver o que é real, / o que está perto. / Só porque o que tem vida, / o que persiste, / é a memória do futuro antigo / que sem ter existência / em mim existe.»

No entanto, a realidade impessoal e quotidiana da grande urbe desafiava, por vezes, a sua ironia: «Hoje, no elevador do Lavra / vinham só três pessoas. / Não disseram boa-tarde... / Ah! O desprendimento da gente / na cidade!» A grande fissura social que cataloga as pessoas em pobres e ricas, e levanta entre elas um biombo de contrastes fê-la comentar: «Há contentores /às portas das cidades / cheios de gente / como se de lixo. / Há palacetes / dentro das cidades / cheios de luxo / mais do que de gente. / E entre os contentores / e os palacetes / o fosso é evidente.»

A última fase da sua poesia é de uma religiosidade profunda. É a de uma busca humilde, de quem sabe que, entre luzes e sombras, caminha para o Encontro: «Tenho sede de abismos e de altura. / Afundo-me nos pélagos de mim. / E em cada meandro de loucura, / Senhor, ainda assim, / ando à Tua procura.» Pode dizer-se, sem exagero e com perfeito rigor, que os seus versos atingiram, sobretudo em «Cântico Vertical» e «Na Fronteira da Luz», a elevação sublime de um S. João da Cruz e de uma Teresa de Ávila. Aí, o misticismo é de uma vivência tão grande que as palavras, apesar do seu toque clássico e da beleza esplendorosa que as afaga, dão-nos sempre uma sensação de finitude, porque vemos palpitar nelas, com uma transparência desnudante, quem as escreveu e Aquele que as inspirou: «Tenho sede de luz! / E ainda que em taças de infinito / eu bebesse as estrelas e o luar, / nunca esta sede em mim se apagaria, / nunca esta ânsia havia de findar. / (...) Por isso é que nunca poderei dessedentar-me aqui. / Essa luz que apetece à minha sede / está em Ti. / Mas sei que só no fim da caminhada, / hei-de beber da água desejada, / dessa fonte que corre da Altura / e é Luz pura!» E desta certeza, que tinha as raízes numa fé vivida de que fez o seu quotidiano, Fernanda Seno quis que os outros também partilhassem e, por isso, a preocupação de lhes fazer chegar tudo o que ela encontrou: «Faz-me fonte, Senhor, / da Tua Água. / E corre Tu em mim. E canta Tu. / E sê Tu a frescura, o lenitivo, / o consolo de quantos me buscarem / enquanto humilde fonte acidental. / Faz-me fonte, Senhor, da Tua Água. / E sê minha nascente essencial!»

Évora, há um ano, no mês de Maio, ficou sem uma das maiores poetisas do nosso tempo. A planura alentejana é habitada pelo silêncio. Talvez por isso, os seus poetas não façam parte do rumor da grande cidade. Como as preciosidades antigas que só depois de séculos são apreciadas, também eles têm de morrer primeiro para, depois, serem reconhecidos. E esse é um dos crimes da grande cidade.
Pacheco de Andrade
Início


Coroam-nos de rosas e de glórias.
As rosas cedo secam.
E as glórias
são todas transitórias como nós.
Os louros que colhemos pelos caminhos
e essas alegrias que há nos dias,
são por causa da luz misteriosa
que faz vibrar de canto a nossa voz.
As glórias e os louvores não são para nós.

Somos apenas frágeis emissários
da melodia esparsa no universo
que não cabe no mais excelso verso.
Somos só os lugares de acontecer.
De tentar exprimir o Amor total.
Somos sinos.
Reflexos de vitral.
Passam por nós os sons de sinfonias,
cantares de água ou de lumes crepitantes,
centelhas de poentes,
harmonias de ciareiras distantes.
Aves intemporais pelos espaços
bebendo a luz dos astros e a cor
queremos erguer as asas
e é de rastos, que tanta vez compomos o louvor.

É sempre aquém do Sonho a nossa voz.
Tudo o que é Belo, Alto e Transcendente
está para além de nós.
Somos o chão onde se pousam estrelas.
E o brilho não é nosso. O brilho é delas.
Somos o espelho a reflectir os céus,
mas por detrás do espelho é que está Deus.
As glórias e os louvores não são para nós,
mas para quem deu acordes de infinito
à nossa breve voz!

4/5/93 - Fernanda Seno


Poesia com que Fernanda Seno agradeceu a homenagem que lhe prestaram no Palácio D. Manuel, em Évora, e à qual presidiu o arcebispo D. Maurílio.
Início


Primeira Página Página Seguinte