E agora?

A harmonia entre Nós e a Natureza houve um dia não sabemos quando, não sabemos como, foi rompida. Esta falha, que a doutrina da Fé chama falta, queda, é muito antiga, historicamente difícil de situar, teologicamente localizada nas origens: Pecado Original. Tudo aponta para o ponto de encontro dos três continentes onde as últimas descobertas revelaram os primeiros passos do Homo-Erectus que já é Faber, que já é Sapiens, que já é Moderno... sabemos, ou julgamos saber onde se situa o princípio de revolução do Neolítico... Mas o que de facto se passou, como de facto se passou, ficará para sempre, ao nível histórico e ao nível teológico, rodeado de mistério. Os mitos lá estão, mas a Idolatria (apesar do banho diluviano e bíblico) comprometeu para sempre uma leitura correcta sobre o drama da harmonia rompida entre Nós e a Natureza que temos e somos. O Mito nada explica, e o Logos, o Verbo de Deus, a Palavra na Fé da qual recebemos a Luz, a Verdade e a Graça, que nos refazem a harmonia entre Nós e a Natureza que temos e somos, chamou-nos à atenção e não se limitou a pôr o dedo na ferida, mas pôs as mãos sobre nós para nos curar do mal-do-Homem. Não veio contar-nos histórias, veio para connosco fazer uma História da Salvação. E os elementos que nos forneceu são suficientes para a elaboração duma ciência da Esperança, capaz de nos remover, comover e mover à Acção que nos proteja a Nós e ao Universo em termos duma Nova Criação que não rejeita a Natureza, não a anula, antes a salva, a eleva e a santifica.

Estão enganados quantos pensam que aos Católicos só interessa ganhar o Céu. A Fé nos ensinou que só ganharemos o Céu se ganharmos a Terra, razão por que o Reino de Deus está entre nós, e na Oração que o nosso Mestre nos ensinou não pedimos ao Pai que está nos Céus que nos leva para o Céu mas: «Venha a nós o Vosso reino!»

Há muito de mítico e pouco de lógico no combate ecológico, mas há elementos suficientes para um verdadeiro diálogo entre os Católicos e os Ecologistas que nos chocam pelo pouco interesse que prestam ao Homem... É verdade que a falta de respeito pela Natureza desnatura o Homem: foi assim no princípio e continua agora até níveis assustadores de degradação: o que foi criado para ser um Jardim (éden=paraíso) tornou-se um decerto e uma selva, e agora uma lixeira: a Idolatria foi longe de mais: depois de ter matado e sacrificado o Homem, está agora a matar o planeta Terra, o planeta da Vida, nos dias que correm por amor e por adoração ao Dinheiro. Ou há outra explicação? Nisto os Ecologistas e os Católicos estão de acordo: o mal não está na Natureza, o mal está no Homem. E nisto divergem: a Lei por mais leis que multiplique, não salvará o planeta da Vida. Vai acontecer, está a acontecer aos Ecologistas o mesmo que já aconteceu aos Cientistas: por mais leis que conheçam, por mais leis que elaborem, quanto mais explicam mais precisa de ser explicado, e de complicação em complicação mais uma vez esbarrarão no Nó Górdio, aquele nó cego que já não ata nem desata... Sem a Graça não chegarão a sítio nenhum.

E neste combate não ajudam nada os preconceitos positivistas que viciam toda a ciência e política modernas. Qualquer imbecil hoje sabe que a inter-disciplinaridade é fundamental para a compreensão e resolução de quaisquer problemas.

Ora a inter-disciplinaridade é antes de mais uma visãoconvergente e comungante do Universo em que o Homem é a chave, sem a qual não se avança mais, e não se vai a sítio nenhum.

É aqui que o Filho do Homem entra, e «Sem mim nada podereis fazer!» Ora, que é que têm feito, ou andam por aí a fazer as teologias-de-trazer-por-casa?! O mesmo que os Devotos fizeram: meter Jesus num bolso, ou trazê-lo ao pescoço. Eu não digo que os Católicos devem fazer como os Protestantes: apregoar Jesus como um nome mágico a colar nos vidros dos automóveis e a calar os reais problemas do nosso tempo.

Mas será que estes teólogos e estas teologias ainda acreditam que Jesus veio para salvar o Mundo?
Leonel Oliveira


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