Cultura:


Ocasionais & estivais

1. Exames. Os exames nacionais do 12º ano, ressuscitados após anos de esquecimento ou latência, constituíram um dos temas mais badalados na imprensa e na comunicação social em geral.. Com razão, porque afectam um sector importante da população, porque definem o futuro de muitos jovens e sobretudo porque constituem um elemento valorativo fundamental da política educativa. Exames sensatos e bem feitos dignificam o ensino e promovem a seriedade do estudo e da aprendizagem; exames deficientes, sem qualidade científica ou adaptação educativa tornam-se objecto de escárnio e de descrédito. Claro que os exames são um mal menor. Sempre foi nossa convicção que a função própria de qualquer escola ou sistema educativo não é a de fazer exames, mas a de transmitir conhecimentos, orientar a formação e edificação da inteligência e da personalidade dos jovens. A necessidade da avaliação traduz apenas mais uma das indispensáveis limitações das pessoas e dos sistemas. O ideal seria que o estudo e a aprendizagem valessem por si próprios. Mas a condição humana e os hábitos instituídos postulam outra coisa: se não nos exigem algo, sobretudo quando bom, raramente o fazemos.

É, pois, legítima e necessária a atenção que a comunicação social dedicou aos exames nacionais do 12º ano. Só que a comunicação social é sempre a comunicação social, porque não sabe ser outra coisa: procura especialmente os erros, os defeitos, as falhas, os enganos. E faz bem. Depois transforma-os no único objecto de análise, dando portanto a ideia de que tudo foram falhas e males. E faz mal. Mas é assim a sua sina e a nossa: se não fossem os erros e os lapsos, não se falava da construção equilibrada do sistema, porque isso não é notícia.

É neste contexto que surge o episódio histórico-comunicacional que lhes vou contar.

Eis senão quando as associações de estudantes do ensino secundário decidem tomar uma posição verdadeiramente revolucionária: já estão cansados dos enganos das provas e em comunicado final e formal, a que a comunicação social prestou aa necessária divulgação, fizeram as seguinte proclamação ao país:

- "Exigimos ao Ministério da Educação a garantia de que não haverão mais erros nas provas". É assim mesmo! Isto é o mesmo que se o ministro ou o ministério "exigissem" aos estudantes que não fariam mais erros nas respostas às provas...

Logo de seguida, a jornalista investigadora confronta os responsáveis ministeriais e declara solenemente:

- "O presidente da comissão nacional de exames declara que se tratam apenas de pequenas falhas pontuais".

E assim anda, de boca em boca, de estudante em jornalista, a portuguesa língua!

2. A tribo do futebol. Este título de um conhecido livro aplica-se sugestivamente a tudo o que se tem passado nos últimos tempos em torno do fenómeno assim chamado: o futebol. Era suposto que se tratava de um desporto. Quem tal supunha, navegava nas águas do puro engano. O futebol não é desporto: é competição, é luta, é espectáculo, é encenação, é exibicionismo, é agressão, é jogo de interesses, é pretexto para negociatas, é caminho de enriquecimento fácil, é ambição desmedida de poder, é trampolim para a luta política, é arena de luta política.

A tribo que vegeta nessa floresta de enganos é composta por várias espécies: os jogadores, sem os quais não se realiza o espectáculo; os dirigentes (que constituem um novo núcleo duro na sociedade, onde se encontram protões, neutrões e foliões, ao qual neologisticamente chamam agora "dirigismo" desportivo - oh bendita palavra!), sem os quais não se fabrica o espectáculo; os treinadores e outros subalternos, sem os quais não se estrutura o espectáculo; os espectadores, sem os quais não há dinheiro para o espectáculo; os jornalistas e outros comunicadores, sem os quais o espectáculo não contribui para o salutar exercício da leitura; os "empresários", sem os quais não há quem se aproveite do espectáculo; e no fim de tudo, os políticos, sem os quais não há quem debata o espectáculo.

É toda esta floresta, onde pululam também os crocodilos de águas turvas, os chacais, as hienas, as girafas e toda a sorte de antílopes, bem como leões e tigres que tentam devorar uns aos outros, que invade quotidianamente o cidadão comum, com as suas guerras, divergências, ambições, triunfos, derrotas, tudo transformado no pão sagrado que alimenta o cidadão com banalidades, à míngua de coisas sérias que o possam preocupar, como os incêndios florestais, a sinistralidade nas estradas, as vacas loucas, a queda do governo ou o desenvolvimento sustentado do país.

Imaginem agora que a selecção nacional tinha chegado è meia final ou à final, ou tinha ganho o campeonato: que glória, que heróis, que triunfo inaudito! Assim contentou-se a tribo do futebol, que somos todos nós, com o lamento e com o futuro: que estes jovens têm muito futuro, que não ganharam o europeu, mas ganharão o mundial. E assim vamos, saudosisticamente, navegando entre o passado que quase foi, e o futuro que irá ser.

3. Mas a grande questão que levantou o europeu de futebol foi a dos empates. Que agora ninguém ganha, tudo empata. Que ninguém ataca, só se defende. Que por isso não há golos, que são o sal do futebol e atraem os espectadores. Que é preciso mudar as regras, para que a melhor defesa seja o ataque.

Assim os técnicos especializados nestas matérias (que como é sabido, somos todos nós) avançam logo hipóteses bem claras e concretas de mudança das regras: acabar com o fora de jogo; alargar as balizas; diminuir o número de jogadores; aumentar as dimensões do campo; não fazer barreiras na marcação das faltas - põem-se todos os jogadores lá fora a passear -; efectuar os lançamentos laterais com o pé, porque o jogo se chama futebol e não andebol. E assim por diante. Só que tudo esbarra no dogma essencial proclamado pelo senhor Havelange: que o "futchibol" é o único jogo onde as regras são perfeitas desde o início. Ora toma, que vais p'ra Roma!

Eu, por mim, para evitar os empates, resolvia logo o problema: fazia um jogo só de penaltis. Cada equipa marcava cem penaltis. Garanto que nunca haveria empates!.

4. O empate técnico. Verdadeiramente empolgante foi o empate a 113 votos, conseguido pela selecção da oposição contra o clube do governo a propósito da atribuição da totalidade das receitas do totobola para que os clubes se comprometessem e ficassem vinculados a pagar os impostos e as contribuições para a segurança social, com cuja subtracção aos cofres respectivos, defraudam e prejudicam o país inteiro.

Desde que me conheço que ouço falar da pretensão que os clubes de futebol sempre manifestaram em relação às receitas do totobola. Em boa verdade, eles são os fabricadores do jogo, e portanto mais legitimamente lhes pertence a eles que à entidade que o explora. Se isso servia para que pudessem pagar ao Estado o que lhe devem, haveria aí uma vantagem social. Até porque as demais empresas também recebem dinheiro do Estado e também sonegam à fiscalidade e à segurança social o que estão obrigadas a pagar. A celeuma que se estabeleceu sobre o assunto teve muito mais de luta política, mais ou menos irracional, do que das decantadas intenções de equidade ou justiça social.

Esta são apenas as palavras "com que se o povo néscio engana".

Assim, saímos todos enganados: os clubes, porque continuam a não pagar; os cofres do Estado e da segurança social, porque continuam sem receber o que lhes é devido; os cidadãos em geral, porque são sempre eles quem paga tudo; os partidos políticos, porque acentuam as divergências e os conflitos e porque perdem a credibilidade. Lucram os jornais, porque podem continuar a propalar verdades, mentiras e meias verdades sobre o assunto. Lucra a opinião pública, porque assim tem com que entreter o verão, para não se inquietar excessivamente com os problemas que nos afligem. Assim pode gozar as férias descansada. Disse.
C.F.
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Organistas e compositores de música para órgão

Concurso nacional no Porto

Decorreu no Porto, na Sé Catedral e na Igreja da Lapa, de sexta a segunda, o I Concurso Nacional Para Organistas e Compositores de Música para Órgão, promovido pela Escola das Artes do Centro do Porto da Universidade Católica e pela Irmandade de Nossa Senhora da Lapa.

Esta iniciativa, que revelou grandes talentos músicais, aparece na linha da vontade de restaurar os numerosos órgãos históricos que há entre nós, de adquirir novos órgãos de tubos e do lançamento para breve da Escola de Música como departamento da Esciola das Artes da Universidade Católica. E aparece na sequência da inuaguração dos grandes órgãos da Sé e da igreja da Lapa

A primeira prova de organistas decorreu na Sé, tendo-se apresentado 17 candidatos oriundos de Viana do Castelo, Vila Real, Porto, Aveiro, Lisboa, Faro e Ponta Delgada. Entre as 15 e as 19,30 horas, cada um apresentou um recital de 45 minutos com obras barrocas, clássicas, românticas e contemporâneas.

A segunda prova decorreu na igreja da Lapa e envolveu 13 participantes que executaram uma obra barroca à sua escolha e outra imposta pela juri. A final decorreu na Sé Catedral, no órgão histórico do século XVIII, onde executaram duas peças portuguesas. Foram atribuídos os 1º prémio, de 700 contos, a Filipe Veríssimo e Marco Oliveira, ambos do Porto, e o 2º prémio, de 500 contos, para Mota e António Esteireiro, de Lisboa. O juri era constituído por Hubert Velten, Gerhard Doderer, Domingos Peixoto, Eugénio Amorim e Fernando Lapa.

Ao concurso de composição de música para órgão acederam oito candidatos, tendo sido premiados João Pedro Oliveira, de Aveiro, e Fernando Lapa, do Porto, que apresentaram obras «de nível internacional», como confessou um dos membros do júri que era composto por: Otmar Faulstich, Maria Teresa Macedo, Anmtónio de Oliveira e Antoine Sibertin-Blanc. Esta iniciativa ganha particular significado quando se sabe que praticamente desde há um século não compositores de música para órgão e num tempo em que 80 por cento dos 600 órgãos de tubos estão degradados.

Decisivos, firmes e largos têm sido os passos dados no Porto no campo da Música Sacra e no da música para órgão.
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